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Artes visuais

Bestiário

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 02.02.2015
Em sentido mais estrito, o termo bestiário (do latim bestia, "animal") faz referência a um gênero literário medieval, que se vale da descrição física e de comportamentos de animais, reais ou fantásticos, para a construção de fábulas de caráter moralizante. Em prosa ou verso, esses manuscritos ilustrados tomam a natureza como fonte de ensinamento...

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Definição
Em sentido mais estrito, o termo bestiário (do latim bestia, "animal") faz referência a um gênero literário medieval, que se vale da descrição física e de comportamentos de animais, reais ou fantásticos, para a construção de fábulas de caráter moralizante. Em prosa ou verso, esses manuscritos ilustrados tomam a natureza como fonte de ensinamentos úteis ao homem e à sociedade, com uma visão cristã do mundo. A cultura medieval está repleta de animais, em textos e imagens, rituais, folclore, heráldica, canções, provérbios etc. Em geral, esses seres são representados por meio de duas visões distintas: uma mais corrente considera o animal imperfeito e inferior e, nesse sentido, radicalmente diferente do homem; outra, ao contrário, subentende a existência de uma comunidade de seres vivos e um parentesco - não apenas biológico - entre homens e animais. Repletos de sentidos negativos e positivos, representados muitas vezes de forma alegórica e grotesca, o fato é que os animais ocupam o primeiro plano no imaginário medieval cristão: dragões, crocodilos, leões, asnos, porcos, baleias, unicórnios, aves e peixes simbolizam o mal, a imortalidade, a astúcia, o poder etc., de acordo com os atributos de cada um deles.

As origens dos bestiários remontam a lendas indianas, hebraicas e egípcias compiladas na Grécia como pshysiologus, história natural com ambições científicas, traduzida para o latim no século IX. O compêndio conhece diferentes versões copiadas ao longo do tempo, popularizadas em diversos países, sobretudo na Inglaterra e França. Um dos mais antigos bestiários de que se tem notícia data do século XII e é de autoria de Philippe de Thaon. O século XIII conhece os Bestiários de Gervaise, de Guillaume Le Clerc (ca.1265 - 1270) e de Pierre de Beauvais. O Bestiário do Amor, ca.1250, de Richard de Fournival, é um dos poucos totalmente desvinculados de implicações teológicas. Se o bestiário como gênero declina a partir do século XIII, as diferentes figuras animais que ele projeta passam a fazer parte da iconografia, podendo ser encontradas em vitrais, esculturas e frisos de igrejas de construções românicas e góticas, e em toda a arte posterior. Assim, com o tempo, o termo vai perdendo sua conotação específica para adquirir acepção mais ampla no vocabulário das artes visuais, sendo utilizado para fazer referência à presença de animais nas artes, muitas vezes como sinônimo de "arte animalista".

Proceder a um inventário exaustivo das representações de animais nas artes mostra-se tarefa irrealizável, já que desde as chamadas "artes primeiras" (ou "primitivas"), passando das artes africana e oriental às artes das civilizações pré-colombianas, grega e egípcia, em todo tempo e lugar, os animais povoam as composições artísticas, figurando em desenho, gravura, cerâmica, escultura e pintura. Tomando a Idade Média como parâmetro, é possível notar, por meio de alguns poucos e significativos exemplos, os desdobramentos que as imagens animais medievais vão adquirir na arte ocidental posterior, que, muitas vezes, cita expressamente essa iconografia. No Renascimento, o interesse pelos animais pode ser observado, seja em paisagens e cenas religiosas em que eles aparecem discretamente (o pavão que participa da Ceia, elaborada por Domenico Ghirlandaio (1449 - 1494), seja em primeiro plano, por exemplo, em desenhos de Leonardo da Vinci (1452 - 1519) - Cabeças de Homem e Leão, ca.1503/1505. Mencionem-se ainda os seres híbridos - meio homens, meio animais - das construções fantásticas e paisagens infernais de Lucas Cranach, o Velho (1472 - 1533) e de Hieronymus Bosch (ca.1450 - 1516). A dicção insólita e grotesca conhece expressão renovada nos Caprichos, de Francisco de Goya (1746 - 1828), que aproxima homens e animais, reais e fantásticos.

Artistas do século XX, de diversos estilos e tendências, fazem uso de animais com sentidos variados. Na produção de Georges Grosz (1893 - 1959), por exemplo, os animais são utilizados como recurso à sátira, especialmente em suas ilustrações das camadas dominantes, em que os homens são representados com cabeças de porcos, Circé, 1927. Na obra de Pablo Picasso (1881 - 1973), os animais por vezes associam-se à morte e ao erotismo na série Tauromaquia, 1957. Se animais povoam a arte moderna e contemporânea de modo geral, é o surrealismo o movimento que vai trabalhar de modo exaustivo o tema com base na releitura da tradição medieval, citada expressamente, por exemplo, em O Bestiário ou Cortejo de Orfeu, 1911, de Guillaume Appolinaire (1880 - 1918), com ilustrações de Raoul Dufy (1877 - 1953). O tema das metamorfoses - tópico caro à pauta medieval - é retomado por diversos artistas surrealistas, como no "romance-colagem" de Max Ernest (1891 - 1976): Uma Semana de Bondade ou os Sete Elementos Capitais, Repleto de Híbridos Humanos/ Animais.

No Brasil, ainda que os animais integrem uma série de trabalhos - das imagens da fauna concebidas pelos artistas viajantes, aos animais da arte acadêmica, a outros encontrados em artistas modernos, como os peixes que povoam os mercados de Oswaldo Goeldi (1895 - 1961) e os seres híbridos de Marcelo Grassmann (1925) -, alguns artistas contemporâneos retomam especificamente o motivo animal, dialogando abertamente com o gênero bestiário: Caetano de Almeida (1964), que entre 1986 e 1991 realiza a série Bestiário, recriando ilustrações de livros e enciclopédias; Gilvan Samico (1928), Luiz Hermano (1954), entre outros.

Fontes de pesquisa 4

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  • COMTE, Hubert. Bestiaire. L'animal dans l'art. Tournai, Belgique, La renaissance du livre, 2001, 159 pp. Il. Color [Les Beaux livres du patrimoine].
  • Fontes.
  • HOMME ANIMAL. Histoires d'un face à face. Avant Propos Fabrice Hergott. Strasbourg, Les Musées de Strasbourg, 2004, 300 pp. il. P&b. color.
  • TURNER, Jane (ed). The Dictionary of Art Grove. New Cork, Macmillan Publishers Limited, 1996, vol. III, 925 pp. Il. p&b.

Como citar

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