Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

A Enciclopédia é o projeto mais antigo do Itaú Cultural. Ela nasce como um banco de dados sobre pintura brasileira, em 1987, e vem sendo construída por muitas mãos.

Se você deseja contribuir com sugestões ou tem dúvidas sobre a Enciclopédia, escreva para nós.

Caso tenha alguma dúvida, sugerimos que você dê uma olhada nas nossas Perguntas Frequentes, onde esclarecemos alguns questionamentos sobre nossa plataforma.

Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Futurismo Paulista

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 02.02.2015
Termo que se associa ao grupo de artistas, escritores e intelectuais reunidos em São Paulo, no início dos anos 1920, em torno da renovação estética e cultural nacional, cuja ação configura o modernismo brasileiro e tem como marco a realização da Semana de Arte Moderna de 1922. A denominação é dada por alusão ao futurismo italiano, que tem o prim...

Texto

Abrir módulo

Definição
Termo que se associa ao grupo de artistas, escritores e intelectuais reunidos em São Paulo, no início dos anos 1920, em torno da renovação estética e cultural nacional, cuja ação configura o modernismo brasileiro e tem como marco a realização da Semana de Arte Moderna de 1922. A denominação é dada por alusão ao futurismo italiano, que tem o primeiro manifesto datado de 1909. Pelas inovações que propõe e pela polêmica que suscita, o movimento italiano torna-se logo conhecido. No Brasil, a palavra futurismo surge associada, principalmente pela crítica conservadora, às obras que apresentam algo novo ou fora do comum. É empregada com sentido depreciativo e, não raro, está ligada à idéia de absurdo, loucura e doença. Artistas como Victor Brecheret (1894 - 1955), Vicente do Rego Monteiro (1899 - 1970), Di Cavalcanti (1897 - 1976), Anita Malfatti (1889 - 1964) e John Graz (1891 - 1980) são acusados de futuristas sem, no entanto, filiar-se ao movimento.

Os debates sobre a renovação do cenário cultural e artístico no Brasil e, em especial, em São Paulo, deflagrados pela polêmica acerca da exposição de 1917/1918 da pintora Anita Malfatti, propiciam o delineamento de um grupo de escritores, intelectuais e artistas defensores de uma arte nova. A definição do grupo e o início de suas ações sistemáticas ocorrem em 1920. Além de artistas como Anita Malfatti e Victor Brecheret, contam-se, entre outros, os escritores Guilherme de Almeida (1890 - 1969), Sérgio Milliet (1898 - 1966), Cândido Mota Filho (1897 - 1977), Oswald de Andrade (1890 - 1954), Mário de Andrade (1893 - 1945) e Menotti del Picchia (1892 - 1988) - os três últimos, grandes responsáveis pela divulgação de suas idéias -, interessados na ruptura com os valores literários estabelecidos. Com origens e orientações diversas, os modernos são classificados pela crítica como futuristas, não propriamente por se filiar à estética do movimento italiano, mas por se distanciar dos cânones artísticos nacionais. Pela carga de significados e provocações que desperta, a denominação futurista acaba sendo incorporada pelos modernistas.

No fim de 1920, Del Picchia passa a reconhecer o valor do movimento italiano na nova configuração e indica a existência de um futurismo paulista. O grupo de São Paulo aceita o futurismo por ele oferecer uma doutrina cujos fundamentos podem ser ampliados e adaptados à realidade nacional e que servem, num primeiro momento, à tarefa de ruptura com o ambiente literário e artístico vigente, representado fundamentalmente pelo rigor do parnasianismo e do academismo. Assim como no movimento italiano, o desejo de eliminação do atraso cultural também é patente: os futuristas de São Paulo tomam para si a tarefa de modernizar as artes no Brasil ao promover, na capital paulista, uma arte que, de acordo com seu novo estado de desenvolvimento, aponte o crescimento populacional e industrial,  inovações tecnológicas e condição de metrópole cosmopolita.

Dentro do grupo, porém, a identificação com o futurismo não é completa e há os que o combatem. Exemplo disso é a polêmica que Oswald de Andrade cria ao lançar, em 1921, Mário de Andrade como um poeta futurista. Envolvido em verdadeira celeuma, Mário de Andrade rechaça a idéia de pertencer ao futurismo, apelando para seu catolicismo e seu repúdio à renegação total do passado. No entanto, não se afasta de seus companheiros "futuristas".

O grupo procura marcar suas distinções em relação ao futurismo dogmático e extremado promovido pelo poeta Filippo Tommaso Marinetti (1876 - 1944), pregando a "máxima liberdade dentro da mais espontânea originalidade". Se mesmo nesse diferencial é possível entrever a proximidade com o futurismo na vertente florentina, mais moderada, é possível, no entanto, perceber que não há uma doutrina rigorosa a nortear o grupo dos modernistas e que a experiência do futurismo não tem no Brasil o mesmo alcance que experimenta em outros países.

Após a Semana de 1922, as divergências sobre o uso do repertório futurista se tornam nítidas, como demonstra a crítica empreendida por Menotti Del Picchia a partir desse ano ao futurismo de seus antigos companheiros de movimento, Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Diferentes abordagens de temas relativos ao passado histórico e artístico e à necessidade de construção de uma arte nacional evidenciam os limites nos quais o futurismo paulista se circunscreve em relação ao movimento italiano. O lançamento, em 1928, do livro Macunaíma: O Herói sem Nenhum Caráter, de Mário de Andrade, é apontado pela historiadora da arte Annateresa Fabris como o fim do diálogo brasileiro com o futurismo.1 Ao apresentar uma visão negativa da máquina, das aglomerações urbanas e ao defender a preguiça, caracterizada como ócio criador, o autor exemplifica o debate que então se estabelece acerca da constituição de uma arte calcada na realidade nacional e indica o total afastamento dos preceitos do movimento italiano.

 

Notas

1 FABRIS, Annateresa. O Futurismo paulista: hipóteses para o estudo da chegada da vanguarda ao Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1994. p. 278-282. 

Fontes de pesquisa 5

Abrir módulo
  • BRITO, Mário da Silva. História do modernismo brasileiro: antecedentes da Semana de Arte Moderna. 6. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.
  • FABRIS, Annateresa. O Futurismo paulista: hipóteses para o estudo da chegada da vanguarda ao Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1994. (Estudos, 138).
  • HUMPHREYS, Richard. Futurismo. Tradução Luiz Antônio Araújo. São Paulo: Cosac & Naify, 2000. 80 p., il. color. (Movimentos da arte moderna).
  • KLAXON. São Paulo: Livraria Martins Ed., 1972. Edição fac-símile composta de 9 números editados entre 1922-1923.
  • ZANINI, Walter (org.). História geral da arte no Brasil. São Paulo: Fundação Djalma Guimarães: Instituto Walther Moreira Salles, 1983. v. 1.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: