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Grotesco

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 06.02.2015
O termo, derivado do italiano grottesco (de grotta, "gruta" ou "cova"), surge na história da arte aplicado a um estilo ornamental inspirado em decorações murais da Roma antiga, descobertas em ruínas escavadas no Renascimento. Tais monumentos soterrados, conhecidos como grottes (por exemplo, a Domus Aurea de Nero, descoberta em torno de 1500), fo...

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Definição
O termo, derivado do italiano grottesco (de grotta, "gruta" ou "cova"), surge na história da arte aplicado a um estilo ornamental inspirado em decorações murais da Roma antiga, descobertas em ruínas escavadas no Renascimento. Tais monumentos soterrados, conhecidos como grottes (por exemplo, a Domus Aurea de Nero, descoberta em torno de 1500), fornecem sugestões para ornamentos - pintados, desenhados ou esculpidos - baseados em combinações de linhas entrelaçadas com flores, frutos e outras formas, como figuras extravagantes, máscaras e animais fora do comum. O ornamento grotesco, de modo geral, se caracteriza pela criação de universos fantásticos - repletos de seres humanos e não-humanos, fundidos e deformados -, pelo apelo à fantasia e ao mundo dos sonhos e pela fabricação de outras formas de realidade.

Um dos primeiros exemplos do ornamento grotesco é o friso da Anunciação, 1486, de Carlo Crivelli (ca. 1430 - ca.1495), que se destaca pela deformação de elementos naturais e pela combinação original de volumes e cores. Nos grotescos de Luca Signorelli (ca.1450 - 1523) para a Catedral de Orvieto, pintados entre 1499 e 1504, emaranhados de objetos e criaturas estranhas constituem o fundo no qual se destacam cinco medalhões representando cenas da Divina Comédia, de Dante Allighieri (1265 - 1321). Entre os mais célebres e influentes ornamentos grotescos encontram-se aqueles realizados por Rafael (1483 - 1520) para o forro e pilares das loggie papais, compostos de arabescos e linhas onduladas verticais, com animais e espécies vegetais entrelaçados (ca.1515).

Iniciado em solo italiano no século XVI, o grotesco se difunde por toda a Europa, a partir de então. O trajeto da noção de grotesco no tempo retira dela o sentido técnico específico de um tipo de decoração romana tardia (e de um estilo renascentista nela inspirado), transformando-a freqüentemente em adjetivo, para designar o que é bizarro, fantástico, extravagante e caprichoso. Dessa maneira o Dicionário da Academia Francesa (1694) normatiza o vocábulo, que passa à linguagem crítica em acepção ampliada, muitas vezes associado também ao ridículo, ao absurdo e ao antinatural. Os motivos dos grotteschi são retomadas por Giovanni Battista Piranesi (1720 - 1778) e Robert Adam (1728 - 1792) no bojo do neoclassicismo e passam a constituir traços eventuais das artes decorativas em geral, embora despidos das fantasiosas combinações dos grotescos da Renascença. O movimento neoclássico, ao rejeitar a linha curva e retorcida dos estilos anteriores (barroco e rococó), descarta de modo geral o grotesco, considerado excessivo e despropositado. Valorizado pelos românticos (para os quais a arte deve representar tanto o belo como o feio e o deformado), o grotesco se transforma, posteriormente, em categoria estética e literária para fazer referência a um tipo de descrição ou de tratamento deformador da realidade, que pode ter como finalidade provocar o riso e/ou obter uma intencionalidade satírica de caráter moral ou político.

Acompanhar o itinerário dessa noção no tempo e no espaço obriga a consideração de diferentes artistas, escolas e movimentos. Entre os flamengos, Pieter Brueghel, o Velho (ca.1525 - 1569), lança mão do recurso do grotesco em obras ilustrativas de provérbios (Parábola dos Cegos, 1568). Elementos grotescos também povoam as "paisagens infernais", de Pieter Brueghel, o Moço (1564 - 1638), por exemplo, Inferno com Virgílio e Dante, 1594. Mas entre eles é Hieronymus Bosch (ca.1450 - 1516) que se destaca pela composição de obras não convencionais, em que se mesclam elementos fantasiosos, criaturas meio-humanas e meio-animais, demônios e seres deformados, imersos em ambientes paisagísticos e arquitetônicos fantásticos (O Jardim das Delícias e A Tentação de Sto. Antão, ambas sem datação precisa). Dos alemães, podem ser citadas obras de Matthias Grünewald (ca.1480 - 1528), em especial a Crucificação do altar da Abadia Antonita em Isenheim, Alsácia, finalizado em 1515, que dá destaque ao corpo deformado e marcado de Cristo, e as de Albrecht Dürer (1471 - 1528), por exemplo, a série de gravuras que compõem o Apocalipse, 1498.

Na Inglaterra, as expressões do neogótico, com suas inclinações para os efeitos insólitos e surpreendentes, assim como a produção de Heinrich Füssli (1747 - 1825), cuja obra aspira a um sublime que tende ao fantástico e ao horrendo (O Pesadelo, 1781), podem ser mencionadas como possibilidades de uso do grotesco. Em solo espanhol, Francisco de Goya (1746 - 1828) é responsável por ampla produção em que os elementos grotescos se sucedem, seja em telas como Visão Fantástica, 1820/1821, seja nas séries de gravuras Caprichos, 1799, e Desastres de Guerra, 1810/1814. O universo monstruoso do belga James Ensor (1860 - 1949), com suas máscaras, esqueletos e anjos decaídos - aproxima-se dos de Bosch e Brueghel pelo recurso ao grotesco.

Os espaços tenebrosos, a temática da morte e as construções macabras ligam o nome do austríaco Alfred Kubin (1877 - 1959) à tradição do grotesco. Da mesma forma, a pintura de Edvard Munch (1863 - 1944) e o expressionismo de Ernst Ludwig Kirchner (1880 - 1938) aparecem como atualizações do grotesco, em obras que reeditam, e radicalizam, os ensinamentos românticos, por meio da deformação das figuras e imagens (O Grito, 1893, de Munch, e Marcella, 1910, de Kirchner). As vanguardas das primeiras décadas do século XX - sobretudo o surrealismo e o dadaísmo - se valem do grotesco em suas representações do fantástico, da dor e da loucura, bem como no tratamento dado ao sexo, ao erotismo e ao corpo.

Tomando o grotesco em sua acepção mais ampla, é possível pensar que o recurso à deformação de figuras humanas, com sentido dramático, pode ser encontrado na arte brasileira desde as obras do Aleijadinho (1730 - 1814). A produção de Alvim Correa (1876 - 1910) deve ser mencionada no que diz respeito à composição de ambiências grotescas; sua série A Guerra dos Mundos, 1903, com paisagens devastadas, seres estranhos - meio máquinas, meio animais - e formas humanas enlaçadas por animais, é exemplar do ponto de vista da criação de paisagens insólitas e fantásticas, com tom tragicômico.

Fontes de pesquisa 7

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  • A AVENTURA MODERNISTA - Coleção Gilberto Chateaubriand. São Paulo; Rio de Janeiro: SESI; MAM, 1994.
  • CALDERÓN, Demetrio Estébanez. Diccionario de términos literarios. Madrid: Alianza Editorial, 1999, 1134 pp. [El libro universitario].
  • CHILVERS, Ian (org.). Dicionário Oxford de arte. Tradução Marcelo Brandão Cipolla. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
  • KAYSER, Wolfgang. The Grotesque in art and literature. Translated from the German by Ulrich Weisstein. New York ; Toronto: McGraw-Hill Book Company ; Indiana University Press, 1975, 224 pp. il. P&b.
  • La nuova enciclopedia dell'arte Garzanti. Milano: Garzanti, 1986.
  • MARCONDES, Luiz Fernando. Dicionário de termos artísticos. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1998. 381 p., il. p&b.
  • MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO, 2000, SÃO PAULO, SP. Imagens do inconsciente. Curadoria Nise da Silveira, Luiz Carlos Mello; tradução John Norman. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo: Associação Brasil 500 anos Artes Visuais, 2000.

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