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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Objetividade Fotográfica

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 24.02.2017
Toda câmera fotográfica (incluindo as digitais) tem como protótipo as câmaras obscuras inventadas no Renascimento: um ambiente fechado (uma caixa ou um quarto, por exemplo) por onde a luz só entra através de um pequeno orifício. Devido às características físicas dos raios luminosos, tudo que é disposto do lado de fora, em frente ao orifício, é r...

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Definição

Toda câmera fotográfica (incluindo as digitais) tem como protótipo as câmaras obscuras inventadas no Renascimento: um ambiente fechado (uma caixa ou um quarto, por exemplo) por onde a luz só entra através de um pequeno orifício. Devido às características físicas dos raios luminosos, tudo que é disposto do lado de fora, em frente ao orifício, é reproduzido de maneira invertida dentro da câmera, na superfície oposta à pequena abertura por onde a luz entrou.

A noção de objetividade fotográfica diz respeito ao fato de que as imagens formadas dependem da existência de algo que, objetivamente, é colocado diante da câmera. O conceito de imagem analógica significa que a reprodução é análoga às aparências da realidade, pois é formada por pontos luminosos que são refletidos pelos objetos.

No entanto, desde o Renascimento, quando as imagens formadas dentro da câmera obscura eram traçadas à mão pelos artistas, os homens selecionam o que colocar em frente à câmera. Essa escolha envolve uma série de arbitrariedades que fazem da objetividade fotográfica uma questão controversa entre pensadores e artistas.

Pode-se considerar que a fotografia analógica (aquela que depende da inscrição da luz na película fotossensível) é uma espécie de traço da realidade, mesmo que a imagem não se pareça com o seu referente. Por exemplo: uma foto desfocada ou tremida pode não servir para identificar uma pessoa, mas continua sendo a prova de que alguém, em algum momento, esteve diante da câmera. Nesse sentido, a fotografia é considerada como um índice de uma presença e costuma ser comparada com outros tipos de sinais, como a fumaça ou a cicatriz. Ou seja, assim como a fumaça é a prova de que há fogo e uma cicatriz é a marca de um ferimento, a fotografia seria o registro de um acontecimento, mesmo que não se pareça com ele. Por outro lado, a fumaça em si não pode indicar se o incêndio foi criminoso ou não, assim como nem sempre é possível distinguir se uma fotografia representa uma situação verdadeira ou forjada.

O ano de 1839, quando o artista francês Louis Jacques Mandé Daguerre (1787 - 1851) anunciou o daguerreótipo na Academia de Ciências da França, é considerado a data oficial da invenção da fotografia.1 No século XIX, a técnica era tida como a prova irrefutável dos fatos, pois se acreditava que a imagem fotográfica era um espelho fiel da realidade.

A manipulação da imagem fotográfica praticamente nasceu com a própria fotografia não sendo, portanto, uma peculiaridade da era digital. Os fotógrafos de estúdio do século XIX já trabalham com técnicas de retoque para corrigir imperfeições e modificar características físicas de seus clientes. Sabe-se, por exemplo, que os estúdios do alemão Albert Henschel (1827 - 1882), no Rio de Janeiro, retocam um retrato da Princesa Isabel (1846 - 1921) com o intuito de deixá-la mais magra. Outros exemplos põem em questão a idéia de que a fotografia é um testemunho imparcial. Os fotógrafos que registram a Guerra Civil norte-americana, entre 1861 e 1865, intervêm nas cenas deslocando os corpos mortos com o intuito de criar imagens mais impactantes para o público. Nos anos 1930, técnicas de fotomontagem permitem que Joseph Stálin (1878 - 1953) elimine a figura de Léon Trotski (1879 - 1940) de fotografias históricas que documentam os primeiros anos da Revolução Russa. É difícil também saber se uma fotografia foi encenada ou não. Ainda hoje se discute, por exemplo, se o famoso flagrante de um soldado tombando durante a guerra civil espanhola, realizado em 1936 pelo fotojornalista Robert Capa (1913 - 1954), é uma cena montada.

Além disso, a simples escolha de um ponto de vista pode determinar a leitura de uma foto e comprometer seu caráter objetivo. Um sujeito retratado de baixo para cima ganha imponência e, ao contrário, uma pessoa registrada de cima para baixo parece inferiorizada. Segundo o pensador francês Roland Barthes (1915 - 1980), mesmo uma fotografia feita à altura dos olhos, com uma luz suave e sem distorções, é uma imagem construída com o propósito de parecer natural. Todas essas escolhas (enquadramento, tipo de luz, ponto de vista, cores, cenários etc.) constituem o que ele chama de "retórica da imagem", pois são maneiras de conduzir o espectador a uma determinada interpretação. Dessa maneira, o naturalismo das imagens jornalísticas e publicitárias é, na verdade, um discurso construído arbitrariamente.

O advento da fotografia digital complica ainda mais a questão da objetividade fotográfica. Hoje é possível não apenas retocar imagens com perfeição - é cada vez mais difícil, por exemplo, acreditar na veracidade dos retratos de famosos divulgados na imprensa - mas também criar imagens com aparência fotográfica por meio de programas de computador dispensando a câmera fotográfica e mesmo a existência do referente.

Nota

1 Sabe-se que a invenção da fotografia acontece em mais de um local concomitantemente. No Brasil, por exemplo, o francês Hercule Florence (1804 - 1879) desenvolve um processo de gravação por meio da luz, nos anos 1830, na cidade de Campinas, São Paulo. Na mesma época, o inglês William Henry Fox Talbot (1800 - 1877) inventa o calótipo, um sistema fotográfico que permite a reprodução de imagens por meio de negativos.

Fontes de pesquisa 6

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  • BARTHES, Roland. A Câmera Clara. São Paulo: Nova Fronteira, 1984. 186 p.
  • BARTHES, Roland. A retórica da imagem. In: BARTHES, Roland. O óbvio e o obtuso. São Paulo: Nova Fronteira, 1990. 284 p.
  • DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico e outros ensaios. São Paulo: Campinas: Papirus, 1993. 362 p., il. p&b.
  • FREUND, Gisele. La fotografia como documento social. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, S.A.., 1974. 208 p., il. p&b.
  • MACHADO, Arlindo. A ilusão especular. Introdução à fotografia. São Paulo: Brasiliense, 1984. 162 p., il. p&b.
  • SONTAG, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

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