Artigo da seção termos e conceitos Museu

Museu

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  

Histórico

Os museus devem os seus nomes aos antigos templos das musas, que os gregos em sua mitologia consideravam "filhas da memória". Isso nos leva a pensar a criação dessas instituições - voltadas para a conservação de acervos históricos, culturais, científicos e artísticos, e para a organização de exposições públicas - como parte de um processo histórico de expansão da memória escrita e iconográfica. Os museus são formados, diz o historiador Jacques Le Goff (1924-2014), no bojo de um movimento de expansão da memória, com o qual contribuem as enciclopédias, os dicionários, as bibliotecas e os arquivos. Desde a Idade Média, a aristocracia e a Igreja são as grandes responsáveis pela organização de coleções, que estão na origem dos museus. A partir da segunda metade do século XIV, formam-se novos grupos sociais definidos em função do monopólio de conhecimentos e capacidades específicos: os humanistas, os antiquários, os artistas e os cientistas. Com eles, surgem novos locais em que se formam coleções: as bibliotecas e gabinetes. Da expansão das viagens ultramarinas a partir do século XV, por sua vez, resultam objetos variados - tecidos, porcelanas, pedras, conchas etc. - que se acumulam nos "gabinetes de curiosidades" de príncipes e sábios. 
 
Se até o século XVIII, a maior parte da população não tem acesso às coleções particulares - com exceção dos acervos da Igreja -, a partir de então verifica-se a criação de fundos públicos; primeiro as bibliotecas, em seguida os museus. Ao contrário das coleções particulares, os museus têm caráter público e permanente. Sua criação, de modo geral, coincide com doações e compra de coleções particulares pelo Estado, ou se relaciona de perto com a nacionalização das antigas propriedades reais, nobiliárias ou eclesiásticas. Vale lembrar que as fundações sem fins lucrativos estão na origem dos grandes museus americanos. Ao contrário do que se passa com as coleções privadas, nos museus, as autoridades públicas ou a coletividade assumem as despesas com a organização e conservação de acervos, bem como os custos com exposições e mostras. O uso de um espaço designado como galeria para conservar obras de arte se difunde em fins do século XVI, conhecendo amplo desenvolvimento nos séculos posteriores. Exemplo precoce da exposição de coleções em galerias é o Palácio de Uffizi (1581), em Florença, e a criação da Tribuna de Buontalenti (1585), projetada em função das obras exibidas. O primeiro museu de que se tem notícia é fundado quando Elias Ashmole (1617-1692) doa suas coleções para a Universidade de Oxford, que se tornam acessíveis em 1683. O núcleo do Ashmolean Museum, primeiro museu público da Grã-Bretanha, é formado pelo "gabinete de raridades" do viajante e jardineiro John Tradescant (1608-1662). Em 1734, é criado em Roma o Museu Capitolino, uma fundação do papa. Em 1743, as coleções dos Médici são oferecidas ao estado da Toscana. Em 1753, é inaugurado o British Museum pelo Parlamento britânico.

Tentativas de disponibilizar grandes coleções e acervos ao público verificam-se ao longo do século XVIII por toda a Europa: o Ermitage em São Petesburgo (1764), o Museu Clementino do Vaticano (1773), o Museo del Prado, em Madri (1785). Nesse contexto, a criação do Museu do Louvre, em Paris, é exemplar, oferecendo um modelo de acervo público e de democratização de acesso aos tesouros culturais, até então bem mais restritos. Com uma história que remonta ao ano de 1190, quando é construído o primeiro edifício, o Louvre passa por várias remodelações até que com Luís XVI (1754-1793) tem início a transformação da grande galeria em museu. Como um dos resultados do processo deflagrado pela Revolução Francesa de 1789 - e do espírito de democratização que a acompanha -, o Louvre é inaugurado em 1793 como a primeira galeria pública nacional. Em 1803, Napoleão rebatiza o museu como Musée Napoleón expondo ali as obras conseguidas nos territórios conquistados (a maior parte delas devolvida após a deposição do imperador). O Louvre é reaberto por Napoleão III (1808- 1873) em 1851, concebido como uma coleção de arte européia. Em 1818, com a criação do Palácio de Luxemburgo, destinado à arte francesa contemporânea, o acervo francês e a arte internacional são transferidas para o Louvre.

O século XIX conhece o apogeu dessas instituições, sendo freqüente designar o período compreendido entre fins do século XIX e meados da década de 1920 como a "era dos museus". Diversos museus são criados na Europa nessa época: Museu de Versailles (1833), Museu de Cluny e o Museu Saint-Germain (ambos fundados por Napoleão em 1862), o Museu de antigüidades nacionais de Berlim (1830), o Museu Gemani de Nuremberg, (1852), o Museu Nacional de Bargello, Florença, 1859, o Kunsthistoriches Museum, em Viena (1891), entre outros. O museu vienense se destaca por reunir - em um edifício em estilo renascentista, especialmemente construído para esse fim - grande parte das coleções imperiais dos Habsburgos. A marca distintiva da museologia do século XIX é a especialização dos museus e, fundamentalmente, a separação entre "beleza" e "instrução", que resulta na criação de museus que lidam com artefatos científicos - os museus de história natural - e os que lidam com objetos estéticos, os museus de arte. Nota-se também a emergência de museus de artes decorativas e aplicadas e a forte inclinação didática dessas instituições, pensadas em estreita relação com as escolas de arte. No correr do século XX, os museus conhecem novas especializações. São criados, por exemplo, museus especificamente dedicados à arte do século XIX (o Musée d'Orsay, em 1986, voltado para a arte da segunda metade do século XIX), outros dirigidos à arte moderna e à arte contemporânea (por exemplo, The Museum of Modern Art, MoMA, 1929 e o Whitney Museum of American Art, 1931, ambos em Nova York). Além disso, museus organizados em torno de um artista se sucedem: o Museu Picasso de Barcelona (1963) e o Museu Van Gogh em Amsterdã (1973), entre muitos outros.

A história da criação de museus de arte no Brasil remonta à fundação da Academia Imperial de Belas Artes (Aiba), no Rio de Janeiro, em 1826, responsável pela organização de exposições, conservação de patrimônio, criação de pinacotecas e coleções. As Exposições Gerais de Belas Artes, implantadas em 1840, no interior da Aiba - como mostras anuais periódicas, abertas a todos os interessados - evidenciam o papel da Academia como local público de exposições. Já na República, é criado o Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), subordinado ao Ministério de Educação e Cultura, por meio de decreto datado de janeiro de 1937. O edifício, projetado por Adolfo Morales de los Rios Filho (1887-1973), é construído entre 1906 e 1908 para abrigar a Escola Nacional de Belas Artes (Enba). Com a criação do MNBA separam-se os espaços de ensino (a escola) e os de conservação e exposição de obras de arte (o museu). O acervo do MNBA tem origem nas 54 obras trazidas ao Brasil por Joachim Lebreton (1760-1819), chefe da Missão Artística Francesa de 1816, sendo ampliado pela coleção pessoal de D. João VI (1767-1826) e pelo acervo da Aiba. Será apenas em meados do século XX que os mais importantes museus de arte brasileiros serão criados. O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp) é fundado em 1947 por Assis Chateaubriand (1892-1968). Funciona no centro da cidade - rua Sete de abril - até 1968, quando é transferido para o atual edifício da Avenida Paulista, projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi (1915-1992). O seu acervo é um dos mais importantes da América Latina. Nesse mesmo período são inaugurados museus dedicados à arte moderna. O Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP), fundado em 1948 pelo empresário Ciccillo Matarazzo (1892-1977), é inaugurado em 1951 com a exposição "Do figurativismo ao abstracionismo". Em 1948 é fundado no Rio de Janeiro o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ), considerado de utilidade pública pelo governo federal em 1954.

Fontes de pesquisa (3)

  • ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. Metrópole e cultura: São Paulo no meio século XX. Bauru: Edusc, 2001. 482 p., il. color., p&b. (Ciências Sociais).
  • CHILVERS, Ian (org.). Dicionário Oxford de arte. Tradução Marcelo Brandão Cipolla. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
  • ENCICLOPÉDIA EINAUDI. Porto: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984. 457 pp. v 1. - Memória - História

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  • MUSEU . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3807/museu>. Acesso em: 18 de Mai. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7