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Artes visuais

Salão Nacional de Arte Moderna (SNAM)

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 28.04.2020
O Salão Nacional de Arte Moderna ( SNAM) é instituído em 1951, fruto de uma divisão no Salão Nacional de Belas Artes (SNBA), que passa a abrigar uma ala específica para a arte moderna e outra para a arte de feitio mais acadêmico. A divisão entre "modernos" e "não-modernos" remete aos últimos anos da Academia Imperial de Belas Artes (Aiba) e a cr...

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O Salão Nacional de Arte Moderna ( SNAM) é instituído em 1951, fruto de uma divisão no Salão Nacional de Belas Artes (SNBA), que passa a abrigar uma ala específica para a arte moderna e outra para a arte de feitio mais acadêmico. A divisão entre "modernos" e "não-modernos" remete aos últimos anos da Academia Imperial de Belas Artes (Aiba) e a criação da Escola Nacional de Belas Artes (Enba), em 1890. Esse primeiro embate é conhecido como a crise entre "modernos" e "positivistas", em função de um debate cerrado sobre o ensino artístico no país, seus modelos e práticas. A renovação do modelo acadêmico de ensino, sob inspiração da Académie Julian, de Paris, reúne o grupo "moderno", do qual fazem parte Eliseu Visconti (1866-1944), França Júnior (1838-1890), Henrique Bernardelli (1858-1936), Rodolfo Bernardelli (1852-1931), Rodolfo Amoedo (1857-1941) e Zeferino da Costa (1840-1915). Trata-se de alterar os estatutos em vigor na Aiba, considerados obsoletos; de garantir a regularidade do concurso para prêmio de viagem, suspenso pelo governo em 1886 e 1887, e de dar ênfase às belas-artes, que deveriam ser o foco privilegiado de atenção da escola. Os chamados "positivistas", por sua vez, Montenegro Cordeiro, Decio Villares (1851-1931) e Aurélio de Figueiredo (1854-1916), brigam pela manutenção do modelo vigente, que define a dupla face da Aiba, ao mesmo tempo escola de aprendizado de ofícios e de belas-artes. No contexto das disputas, o grupo dos modernos organiza um modelo alternativo de trabalho e ensino de arte no chamado Ateliê Livre.

Um esforço mais incisivo de modernização do ensino artístico se observa em 1930, quando o arquiteto Lucio Costa (1902 - 1998) assume a direção da Enba, com a intenção explícita de projetar a arte moderna no país. A contratação de novos professores afinados com o ideário moderno, assim como a reestruturação das Exposições Gerais de Belas Artes e dos prêmios de viagem ao exterior, estão entre as metas do arquiteto. Lucio Costa cria uma comissão organizadora para a montagem das exposições que, a partir de 1933, passam a se chamar Salões Nacionais de Belas Artes. Da comissão fazem parte, além do arquiteto, Candido Portinari (1903-1962), Anita Malfatti (1889-1964), Celso Antônio (1896-1984) e Manuel Bandeira (1886-1968), todos artistas ligados ao movimento moderno. A 38ª Exposições Gerais de Belas Artes, do ano de 1931 - conhecida como o Salão Revolucionário -, é a expressão mais acabada do novo projeto modernizador da Enba. A comissão rompe com as barreiras erguidas contra a arte moderna pelo antigo conselho e inclui na mostra obras inspiradas nas vanguardas européias. Participam dessa mostra artistas de diferentes gerações, todos ligados de alguma forma às novas direções da arte moderna: Tarsila do Amaral (1886-1973), com Caipirinha (ca.1923) e Feira (1925); Victor Brecheret (1894-1955) - com Fuga para o Egito (ca.1924); Anita Malfatti, com obras dos anos de 1915 e 1917 (por exemplo, O Homem Amarelo e A Estudante Russa); Ismael Nery (1900-1934) - com Dois Irmãos (ca.1925); Cicero Dias (1907-2003) e seu painel Eu Vi o Mundo. Ele Começa no Recife (ca.1930); entre muitos outros. A fase de Lucio Costa à frente da Enba é curta. As resistências e campanhas movidas contra a gestão levam à sua demissão, em 18 de setembro de 1931, mas sua iniciativa renovadora alimenta novas tentativas de oposição ao modelo de ensino da escola como, por exemplo, a levada a cabo pelo Núcleo Bernardelli, em 1931.

As sucessivas lutas pela abertura da Enba à arte moderna conhecem novo impulso na década de 1940, quando, em 25 de julho, são criadas as divisões moderna e geral no Salão Nacional de Belas Artes, bem como uma sala livre para artistas recusados. O pintor Vicente Leite (1900-1941) recebe o prêmio de viagem ao exterior no Salão Nacional de Belas Artes, enquanto os pintores Manoel Faria - na divisão geral - e Guignard (1896-1962) - na divisão moderna - recebem o prêmio de viagem ao país. Do júri, fazem parte Quirino Campofiorito (1902-1993), Santa Rosa (1909-1956) e Alcides Miranda (1909-2001). Em 1941, é José Pancetti (1902-1958) o pintor que recebe o prêmio da divisão moderna. A ruptura mais profunda entre as duas faces do SNBA acontece em 1951, momento em que a divisão moderna ganha o estatuto de Salão Nacional de Arte Moderna. A nova sistemática começa a funcionar no ano seguinte, quando recebem o prêmio de viagem ao exterior Inimá de Paula (1918-1999), no setor de pintura, e Marcelo Grassmann (1925), na modalidade gravura.

O 3º Salão de Arte Moderna, de 15 de maio de 1954, representa um ponto de inflexão na história do Salão. Conhecido como o Salão Preto e Branco, inaugurado no Palácio da Cultura, a mostra leva esse nome por apresentar exclusivamente obras em preto-e-branco, de artistas das mais diversas procedências. Trata-se de um protesto contra a má qualidade das tintas nacionais, comprovada, por meio de testes, pela Comissão Nacional de Belas-Artes, criada em 1951 e presidida por Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898-1969), e que tem como integrantes Iberê Camargo (1914-1994), Santa Rosa e Oswaldo Goeldi (1895-1961). Os artistas, sob a liderança de Iberê, Djanira (1914-1979) e Milton Dacosta (1915-1988), encaminham ao ministro da Educação um manifesto com 600 assinaturas de artistas de todo o país, datado de abril de 1954. Diz o texto: "Nós, artistas plásticos abaixo-assinados, apresentaremos no próximo Salão Nacional de Arte Moderna, a se realizar de 15 de maio a 30 de junho desse ano, os nossos trabalhos executados exclusivamente em preto e branco. Essa atitude será um veemente protesto contra a determinação do governo de manter proibitiva a importação de tintas estrangeiras, materiais de gravura e de escultura, papéis e demais acessórios essenciais ao trabalho artístico; proibição esta que consideramos um grave atentado contra a vida profissional do artista e contra os altos interesses do patrimônio artístico nacional". O sucesso do salão pode ser atestado pela expressiva quantidade de obras apresentada (323 contra 203 do ano anterior) e pela vitória parcial dos artistas diante da decisão do governo de considerar a "importação dos materiais de arte como necessária, mas não prioritária". O júri - composto por Geza Heller (1902-1992), Milton Dacosta e Djanira - concede os prêmios de viagem ao exterior aos pintores Francisco Rebolo (1902-1980) e Sansão Castello Branco (1920-1956) - arte decorativa -, e de viagem ao país ao pintor Bonadei (1906-1974) e ao escultor José Pedrosa (1915-2002).

Nos anos 1950, quando o SNAM é criado, o país já possui um sistema de arte, mesmo que incipiente e localizado no eixo Rio/São Paulo, para o qual contribuem os museus criados no final dos anos 1940 (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP) e Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ)) e a inauguração das Bienais Internacionais de São Paulo, todas elas iniciativas que procuram abrir a arte nacional para o exterior e travar um diálogo mais efetivo com as vanguardas estrangeiras, o que repercute na série de movimentos e grupos que têm lugar no período: Grupo Ruptura, Grupo Frente, neoconcretismo.

Fontes de pesquisa 4

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  • MORAIS, Frederico. Cronologia das artes plásticas no Rio de Janeiro: da Missão Artística Francesa à Geração 90: 1816-1994. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995.
  • SALÃO NACIONAL DE ARTES PLÁSTICAS, 8., 1985, Rio de Janeiro, RJ. Salão Preto e Branco/III Salão Nacional de Arte Moderna - 1954: a arte e seus materiais. Rio de Janeiro: Funarte, 1985.
  • ZANINI, Walter (org.). História geral da arte no Brasil. São Paulo: Fundação Djalma Guimarães: Instituto Walther Moreira Salles, 1983. v. 1.
  • ZANINI, Walter. A arte no Brasil nas décadas de 1930-40: o Grupo Santa Helena. São Paulo: Nobel; Edusp, 1991.

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