Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Ateliê Livre

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 11.05.2018
O termo faz referência a uma disputa, travada nos anos de 1888 e 1890, entre dois grupos - os "modernos" e os "positivistas" - no interior da Academia Imperial de Belas Artes - Aiba, por causa de um debate cerrado sobre o ensino artístico no país, seus modelos e práticas. O grupo denominado "moderno" - do qual fazem parte, entre outros, Eliseu V...

Texto

Abrir módulo

História

O termo faz referência a uma disputa, travada nos anos de 1888 e 1890, entre dois grupos - os "modernos" e os "positivistas" - no interior da Academia Imperial de Belas Artes - Aiba, por causa de um debate cerrado sobre o ensino artístico no país, seus modelos e práticas. O grupo denominado "moderno" - do qual fazem parte, entre outros, Eliseu Visconti (1866 - 1944), França Júnior (1838 - 1890), Henrique Bernardelli (1858 - 1936), Rodolfo Bernardelli (1852 - 1931), Rodolfo Amoedo (1857 - 1941) e Zeferino da Costa (1840 - 1915) - defende a importância da renovação do modelo acadêmico de ensino, aspirando à modernização nos termos em que ocorre, por exemplo, na Académie Julian, em Paris. Trata-se de alterar os estatutos em vigor na Aiba, considerados obsoletos, de garantir a regularidade do concurso para o prêmio de viagem, suspenso pelo governo em 1886 e 1887, e de dar ênfase às belas-artes, que deveriam ser o foco privilegiado de atenção da escola. Os chamados "positivistas" - por exemplo, Montenegro Cordeiro, Decio Villares (1851 - 1931) e Aurélio de Figueiredo (1854 - 1916) -, por sua vez, brigam pela manutenção do modelo vigente, que define a dupla face da academia, ao mesmo tempo escola de aprendizado de ofícios e de belas-artes. No contexto das disputas, o grupo dos modernos organiza um modelo alternativo de trabalho e ensino de arte no chamado Ateliê Livre, instalado primeiro no largo de São Francisco, e em seguida na rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro. Em 1890, apresentam uma grande exposição pública dos trabalhos dos artistas do ateliê.

Desde o Plano da Imperial Academia de Belas Artes, elaborado pelos professores da Missão Artística Francesa - e que serve de base para a definição dos estatutos provisórios da Aiba, em 1826 -, a escola passa por várias reformas de modo a consolidar e a normalizar o ensino superior artístico no país, de acordo com os cânones do academicismo e do Neoclassicismo. As academias de arte européias, que inspiram o modelo criado no Brasil, buscam garantir aos artistas sólidas formações científica e humanística, além de treinamento no ofício, com aulas de desenho de observação e cópia de moldes. São responsáveis, ainda, pela organização de exposições, concursos e prêmios, conservação do patrimônio, criação de pinacotecas e coleções, o que significa o controle da atividade artística e a fixação de padrões de gosto. O desafio maior dos formuladores do projeto foi adaptar esse modelo à realidade do país, sem nenhuma tradição artística.

Enquanto durou, de 1826 até 1889, a Aiba teve sete diretores e passou por duas grandes reformas: a Reforma Lino Coutinho (1831), que orienta a gestão de Félix Taunay (1795 - 1881), de 1834 a 1851, e a Reforma Pedreira, de 1855, projetada pelo pintor e crítico de arte Porto Alegre (1806 - 1879) e implantada entre 1855 e 1857. A primeira reforma corresponde a um momento de consolidação de um modelo da academia. A dupla vocação da escola, reafirmada nesse momento, se encontra desenhada em seu projeto inaugural: formação nas áreas técnicas - dos ofícios - e no campo das belas-artes. A fase de Taunay na direção da Aiba marca a estruturação dos cursos, a criação das Exposições Gerais de Belas Artes, em 1840, e a concessão de prêmios de viagem ao exterior, a partir de 1845. A gestão do pintor e crítico de arte Manoel de Araújo Porto-Alegre, por sua vez, define-se pela tentativa de modernização da academia, com ênfase no estabelecimento de bases teóricas para o ensino, na idéia de nacionalização da biblioteca (transformando-a na memória pictórica brasileira) e na criação de coleções de arte brasileiras. Ele confere importância destacada à pintura de paisagens, que deveria, segundo ele, sair da cópia de estampas e dos quadros da pinacoteca e voltar-se para o registro da natureza nacional, ainda que considere indiscutível a proeminência da pintura histórica. Primeiro brasileiro a dirigir a instituição, Porto-Alegre inicia a implantação da reforma - construindo o edifício da pinacoteca, ampliando os espaços para aulas e exposições públicas e criando novas cadeiras de ensino - e por falta de verbas não consegue concluí-la. De qualquer modo, suas determinações vão orientar o funcionamento da academia até o fim do Segundo Reinado.

A exoneração do professor de desenho geométrico Ernesto Gomes Moreira Maia do posto de diretor da academia, em 30 de agosto de 1888, é a expressão mais evidente da crise na instituição, em sua fase final, que de alguma maneira reflete os efeitos da crise política mais ampla que abala o regime monárquico. A atuação dos "modernos" no interior do Ateliê Livre sinaliza a tentativa de rompimento com o modelo imperial vigente. Trata-se de modernizar o ensino e de aprimorar a formação do artista pela aprovação de novos estatutos, que são de fato estabelecidos a partir de 8 de novembro de 1890. O novo feitio projetado para a escola coincide o fim da Academia Imperial e a criação da Escola Nacional de Belas Artes - Enba (1889), que nasce com o regime republicano, sob a direção de Rodolfo Bernardelli e vice-direção de Rodolfo Amoedo. Reestabelecidos os concursos internos, o primeiro vencedor é Eliseu Visconti. A partir de 1889, as Exposições Gerais de Belas Artes são realizadas na recém-criada escola.

Fontes de pesquisa 4

Abrir módulo
  • AULER, Guilherme. D. Pedro II e a Academia Imperial das Belas-Artes: conferência realizada na Escola Nacional de Belas-Artes pelo ilustre historiador e jornalista Guilherme Auler. Rio de Janeiro: Escola Nacional de Belas-Artes, 1956. 19 p.
  • BARATA, Mário. As artes plásticas de 1808 a 1889. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História Geral da Civilização Brasileira: o Brasil Monárquico: reações e transações. São Paulo: Difel, 1982, v. 3, p. 409-424.
  • MORALES DE LOS RÍOS, Adolfo. O ensino artístico: subsidios para a sua história: um capítulo 1816-1916. In: ANAIS do 3º Congresso de História Nacional, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1938. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1942., p. 3-429, v. 8.
  • PEREIRA, Sônia Gomes (org). 185 anos de Escola de Belas Artes, Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, Escola de Belas Artes/ UFRJ, 2001-2002.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: