Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Cinema da Retomada

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 13.01.2021
Cinema da retomada é a expressão usada para designar o cinema feito no Brasil entre 1995 e 2002, quando, após um período de quase estagnação, a estruturação de um sistema de incentivos fiscais favorece uma nova fase de fomento à produção cinematográfica.

Texto

Abrir módulo

Cinema da retomada é a expressão usada para designar o cinema feito no Brasil entre 1995 e 2002, quando, após um período de quase estagnação, a estruturação de um sistema de incentivos fiscais favorece uma nova fase de fomento à produção cinematográfica.

Em 1990, a Empresa Brasileira de Filmes S.A. (Embrafilme), então principal responsável pelo financiamento, coprodução e distribuição de filmes no país, é extinta pelo governo. Se, na década de 1980, cerca de 80 longas-metragens são lançados por ano, em 1992 há apenas três lançamentos comerciais. Assim, ainda que nunca tenha sido paralisada por completo1, a principal fonte de recursos para a produção cinematográfica no país é eliminada.

Em 1991, o então secretário da Cultura Sérgio Paulo Rouanet (1934) elabora a Lei de Incentivo à Cultura, que estimula o investimento de empresas públicas e privadas em projetos culturais, renunciando o poder público a uma porcentagem do imposto de renda a ser arrecadado. Em 1993, é promulgada a Lei do Audiovisual. Em 1993 e 1994, três edições do Prêmio Resgate do Cinema Brasileiro, com recursos do rateio da Embrafilme, contemplam um total de 56 longas-metragens. Esses incentivos possibilitam a retomada e a finalização de vários projetos de uma vez, conferindo-lhes, como aponta a crítica Lúcia Nagib (1956), a “aparência de boom”.

Dois períodos podem ser identificados na retomada. Entre 1995 e 1998, com o cenário econômico de paridade entre o real e o dólar, uma grande quantidade de recursos fica disponível em um breve espaço de tempo. Esse contexto, aliado à falta de controle sobre os projetos apoiados, estimula: o aparecimento de produções de orçamentos elevados, com grande investimento em elementos técnicos, como direção de arte, cenografia e maquiagem; a migração de profissionais de publicidade e televisão para o cinema; a preocupação com a qualidade técnica; e a ambição de vencer premiações internacionais, em especial o Oscar.

Junto com o choque do dólar, que faz arrefecer o volume dos investimentos em cultura, no início de 1999, os escândalos envolvendo a prestação de contas de O Guarani (1996) e a realização de Chatô, o Rei do Brasil (1995-2015) marcam o segundo momento, de restrições e ajustes nos mecanismos de financiamento. Limites de captação e maior fiscalização por parte da Receita Federal e do Ministério da Cultura são adotados, e algumas empresas deixam de investir. Se, no período inicial, marcado pela abundância de recursos e projetos astronômicos, há muitos filmes “de época”, nesse segundo período predominam projetos de baixo orçamento e documentários.

O filme que marca o início da retomada é Carlota Joaquina: Princesa do Brazil, da cineasta Carla Camurati (1960), que estreia em janeiro de 1995. Com seu sucesso comercial, e graças à estrutura de incentivos que se consolida, uma nova onda de investimentos possibilita a produção de obras cinematográficas, passando à média de 20 filmes por ano.

A retomada não se caracteriza por um projeto unificado de cinema: seus temas e linguagens são diversos. Há, no período, os filmes que se inspiram em episódios históricos e adaptações literárias2, como O Quatrilho (1995), Guerra de Canudos (1996) e Memórias Póstumas (2001), e também as narrativas centradas em trajetórias individuais, em que é comum a figura dos personagens-mediadores, como Luíza, de Guerra de Canudos, Dora, de Central do Brasil (1998), e Buscapé, de Cidade de Deus (2002). Essas marcas têm relação com o modo de produção e consumo do cinema no período: na origem do projeto, há a aprovação por parte da empresa patrocinadora, o que leva muitos realizadores a apostar em projetos “representativos” da história e da cultura do país. Além disso, os filmes dialogam com o público de classe média, que frequenta o circuito comercial de shoppings e cinemas-bistrô, que compõem o contexto de exibição, sendo um mediador importante para estabelecer um elo de ligação entre a realidade (histórica, social) que se apresenta e esse público. A principal marca do período, no entanto, é o fato de a maioria das produções ser apoiada por recursos incentivados, ou seja, descontados dos impostos a arrecadar de grandes empresas.

Um dos grandes problemas do cinema da retomada diz respeito à falta de investimento na difusão dos filmes: as produções contam com recursos para serem realizadas, mas não há circuito de distribuição, exibição ou divulgação que permita sua circulação. Com isso, poucos são os filmes efetivamente vistos por grandes públicos, predominando entre os sucessos comerciais os filmes associados à Globo Filmes. Também é objeto de críticas o fato de a decisão sobre qual filme apoiar ficar a cargo de diretores de marketing das empresas patrocinadoras, profissionais normalmente pouco familiarizados com o meio cinematográfico.

Mais de cem cineastas estreantes surgem nos dez anos que se seguem a 1995. No período inicial, muitos vêm do universo publicitário ou televisivo; na segunda fase, predominam cineastas com trajetória em curta-metragens. O crítico Luiz Fernando Zanin Oricchio (1950) considera Cidade de Deus o filme que encerra o período da retomada, simbolizando a estabilidade atingida com a boa repercussão de público e crítica.

O cinema da retomada é, portanto, um período marcado pela revitalização da atividade cinematográfica no Brasil. Não sendo propriamente um movimento, é uma época em que as condições materiais favoráveis permitem o aparecimento de novos cineastas, o investimento na qualidade técnica e novas aspirações para o cinema nacional.

 

Notas:

1. Daniel Caetano e outros críticos da revista Contracampo lembram, em artigo sobre o período de 1995-2005, que a produção de curtas-metragens continuou, bem como a produção pornográfica da Boca do Lixo, que manteve produções em película até 1994.

2. Tendo em vista a abundância de recursos que se torna disponível com grande rapidez, bem como a ideia de produzir um cinema “nacional”, “representativo”, que justifique o investimento dos recursos incentivados, observa-se nesse momento inicial da retomada o aparecimento de superproduções com base em fatos históricos ou obras literárias, com destaque para aspectos técnicos (direção de arte, maquiagem, fotografia e cenário), e não tanto para a exploração de linguagens.

Fontes de pesquisa 11

Abrir módulo
  • BUTCHER, Pedro. Cinema brasileiro hoje. São Paulo: Publifolha, 2005.
  • CAETANO, Daniel et al. Cinema brasileiro 1995-2005 – Histórico de uma década. In: CAETANO, Daniel (org.). Cinema brasileiro 1995-2005: ensaios sobre uma década. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005.
  • DIEGUES, Cacá. Vida de cinema: antes, durante e depois do Cinema Novo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.
  • EARP, Fábio Sá; SROULEVICH, Helena. O mercado de cinema no Brasil. Políticas Culturais, [s.l., s.d.]. Disponível em: https://politicasculturais.files.wordpress.com/2010/03/earp_-o-mercado-de-cinema-no-br-2009.pdf. Acesso em: 13 maio 2020.
  • LEITE, Sidney Ferreira. Cinema brasileiro: das origens à Retomada. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2005.
  • MANEVY, Alfredo. O novo cinema brasileiro. Folha de S.Paulo, São Paulo, 8 nov. 2003. Jornal de resenhas. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/resenha/rs0811200309.htm. Acesso em: 6 jan. 2021.
  • MARSON, Melina Izar. O cinema da retomada: estado e cinema no Brasil da dissolução da Embrafilme à criação da Ancine. 2006. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2006.
  • NAGIB, Lúcia. O cinema da retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: Editora 34, 2002.
  • ORICCHIO, Luiz Zanin. Cinema de novo: um balanço crítico da retomada. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.
  • VLADO EDUCAÇÃO – INSTITUTO VLADIMIR HERZOG. Cinema de retomada. Memórias da Ditadura, [s.l., s.d.]. Disponível em: http://memoriasdaditadura.org.br/cinema-de-retomada/. Acesso em: 11 maio 2020.
  • XAVIER, Ismail. O Cinema brasileiro dos anos 90. Praga – Revista de estudos marxistas. São Paulo: Hucitec, n. 9, p.97-138, jun. 2000.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: