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Dança

Danças Populares

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 17.12.2020
Esse termo reúne questões importantes para o entendimento das práticas artísticas e ideológicas que permeiam a dança no Brasil, como brasilidade, autenticidade, corporalidade e alteridade. Ao mesmo tempo, refere-se a segmentos específicos de produção artística. 

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Histórico

Esse termo reúne questões importantes para o entendimento das práticas artísticas e ideológicas que permeiam a dança no Brasil, como brasilidade, autenticidade, corporalidade e alteridade. Ao mesmo tempo, refere-se a segmentos específicos de produção artística. 

As acepções relacionam-se à diversidade do termo “popular” e às diferentes formas de apresentação da dança nos contextos aos quais o termo popular se refere. Cabe apresentar essa variedade para especificar a dança popular. 

O termo “popular” designa, comumente, produção do povo, de artefatos materiais a modos de vida. Também significa algo produzido para o povo ou tendo o povo como referência. Significa, ainda, algo conhecido por muitas pessoas, massivo. Esses três significados coexistem, permeados pela ambiguidade do que se entende por “povo”. O conceito de povo evoca uma classe social menos favorecida e, ao mesmo tempo, os cidadãos de uma nação sem distinção de classe. 

Diante das percepções possíveis, o termo dança popular pode se referir a: danças que acontecem em contextos tradicionais e comunitários; danças encenadas que têm como referência danças tradicionais e comunitárias; e ainda, danças conhecidas de um grande público. Esses usos são detalhados a seguir. Não se tratam de categorias estáticas, pois os diferentes contextos e práticas tornam seus limites permeáveis.

Danças populares, como danças tradicionais e comunitárias. A literatura específica, até meados do século XX, refere-se a essas danças como folclóricas. Durante o século XX, em função de estudos do folclore e a visão eurocêntrica de cultura, o termo passa a ser utilizado em disciplinas das ciências humanas e artes. Neste caso, denota a mudança na compreensão da cultura popular, pois busca evidenciar a diversidade que o termo engendra, afirmando que há tantas danças populares quantos grupos culturais. Mário de Andrade (1893-1945), ao estudar as artes populares brasileiras, identifica um conjunto de danças dramáticas, folguedos, que se diferencia dos bailados, danças sem desenvolvimento dramático. A nomenclatura não se consolida pela diversidade de danças e das transformações nos folguedos estudados. Observa-se que essas categorias não dão conta da complexidade das artes em questão. No renascimento ocidental, as artes são segmentadas em teatro, dança, música e artes plásticas. Nos contextos tradicionais, as danças recusam essa segmentação. São parte de uma expressão artística que utiliza o mesmo nome para a dança, a música e o acontecimento cultural onde ocorrem. Por exemplo, o termo “coco” refere-se às músicas, danças e à reunião de coquistas e brincadores: “vou para o coco”. 

Atribui-se a danças populares características como: tradição, aceitação coletiva, dinamismo e funcionalidade, termos que devem ser discutidos para cada uma das modalidades. Danças de tradição recente, como o frevo e o samba carioca, evidenciam a dinâmica da criação popular e alertam para a hierarquização conceitual como categoria separada ou estágio primitivo da arte. A ideia de arte primitiva pode ser vislumbrada quando se diz que uma dança deve evoluir para se transformar em arte brasileira equiparada a outra, de outra tradição cultural.

Contrária a cultura popular que entende tradição como perenidade estática, as danças populares, numa visão atual, são compreendidas como dinâmicas e equiparadas, de forma não hierárquica, a outras formas de expressão artística e cultural. 

Danças populares, como danças massificadas. Quando dança popular refere-se a algo conhecido e vivenciado por milhares de pessoas, faz-se referência a massificação cultural. São formas de dançar ou trechos coreográficos que se apresentam por meio de grupos musicais de grande inserção na mídia. No entanto, não se deve fixar uma visão negativa ou redutora das expressões culturais massificadas. Danças de tradição recente que se popularizam pelos meios de comunicação, como o samba carioca, o forró e o funk, podem ser incluídas nessa definição. Um dos precursores de danças de moda é Luiz Gonzaga (1912-1989), difundindo, por meio do baião, sua versão das danças e músicas da infância e adolescência no Nordeste. 

Danças populares, como segmento artístico autoral. Quando o termo dança popular refere-se a espetáculos ou grupos de dança, faz-se menção a um segmento que se apoia em tradições populares e comunitárias para direcioná-las a outros contextos de criação e recepção. Neste caso, a dança não separada dos demais elementos e os grupos são chamados pelo nome da tradição: grupo de Ciranda, grupo de Coco, ou simplesmente Maracatu, Cavalo Marinho.

Esses grupos que se denominam grupo de dança popular ou grupo de dança folclórica ou grupo para-folclórico formam um segmento que abrange desde grupos escolares e amadores a profissionais. Os espetáculos visam apresentar danças tradicionais em diferentes contextos de apresentação cênica. Prezam a fidelidade em relação a movimentos, figurino e indumentária. Buscam preservar valorização das culturas regionais ou nacionais e o fortalecimento de identidades culturais locais. A transformação das danças tradicionais para espetáculos cênicos tem terminologias que informam sobre: recriação, estilização, transposição, inspiração. A crítica a esses trabalhos é a de produzir cópias modificadas e estereotipadas e, de não deixar clara a transposição de danças para o palco. Sua atuação também pode ser entendida como mediadora entre os grupos tradicionais e públicos que desconhecem ou têm preconceito em relação às culturas populares. Importante área de atuação deste segmento é a educacional para complementar a formação dos estudantes.

Nas décadas de 1970 e 1980, as políticas de cultura e turismo propiciam condições para a profissionalização desse segmento. Em 1976, a criação do Balé Popular do Recife é marco dessa profissionalização. Inicialmente criado com recursos da Prefeitura Municipal, o grupo ganha respeito no Brasil e no exterior, apresentando-se em festivais e para a cadeia produtiva de turismo. Para evidenciar sua especificidade, o Balé Popular do Recife denomina sua atividade, desde a década de 1990, Dança Brasílica. É inspirada nos folguedos populares do Nordeste, com adequações próprias. Outros grupos também introduzem procedimentos criativos e coreográficos na criação de espetáculos autorais. 

Na década de 1980, o Balé Folclórico da Bahia obtém repercussão nacional e internacional em apresentações que enfatizam a religiosidade afro-brasileira. Os grupos de dança popular que atuam fora do campo educacional desenvolvem ações criativas pontuais, diversificando os meios e modos da produção coreográfica. Assim, a reprodução das danças com fidelidade e originalidade deixa de ser o foco e observa-se a valorização e visibilidade de criação artística.

Danças populares e a dança cênica brasileira. A dança cênica brasileira, tem como marco o balé no Rio de Janeiro, quando as danças populares são assunto recorrente e polêmico. Em 1851, a bailarina italiana Maria Baderna provoca tumulto ao encenar o lundu no Teatro de Santa Isabel, no Recife. No início do século XX, a bailarina Eros Volúsia (1914-2004) ganha destaque internacional por construir coreografias com danças populares do Rio de Janeiro. Na década de 1930, o Balé Municipal do Rio de Janeiro, procura atender ao ideal de criação de um balé brasileiro, utilizando temas e elementos da cultura popular. Na década seguinte, destaca-se nesse grupo a bailarina Mercedes Baptista (1921-2014) que funda o Balé Folclórico Mercedes Baptista. 

Nos anos 1970, acontecem as primeiras tentativas de criação de uma dança armorial, cujo objetivo é construir espetáculos que unam técnicas do balé, dança moderna e danças populares. No final da década de 1970, o Balé Stagium, e, na década de 1980, o Grupo Corpo, reorientam seus projetos coreográficos, incluindo a pesquisa pela observação de movimentos próprios a grupos culturais brasileiros. Também na década de 1980, Graziela Rodrigues reflete sobre sua metodologia de pesquisa e criação e propõe uma estrutura física para o corpo brasileiro, formatando o Método bailarino-pesquisador-intérprete.

Posteriormente, multiplicam-se os artistas e as relações entre criadores de dança e cultura popular. Roberta Marques identifica três tipos de relação semântica que artistas da dança interessados em danças de tradição popular estabelecem. O primeiro, vincula a transposição dessas danças a um discurso de brasilidade, o segundo, questiona a possibilidade de um corpo brasileiro e o terceiro, investiga as danças populares como matéria criativa, sem enunciar discursos sobre brasilidade. 

A produção artística em diálogo com as culturas populares é um campo em desenvolvimento por artistas interessados nos repertórios técnicos, poéticos, ritualísticos dessas tradições e danças. Desde o fim do século XX, também aumenta o número de artistas das tradições populares em espaços teatrais restritos ou formalizando obras autorais para esses espaços.

Fontes de pesquisa 36

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