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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Elaborar e reelaborar as histórias do Brasil: o que se conta dos últimos 200 anos?

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 03.05.2022
Segundo o historiador Jacques Le Goff (1924-2014), no livro História e Memória, ao tratar da relação entre monumento e documento para o ofício do historiador, “[...] O documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder”. Assim, nos 200 anos ...

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Segundo o historiador Jacques Le Goff (1924-2014), no livro História e Memória, ao tratar da relação entre monumento e documento para o ofício do historiador, “[...] O documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder”. Assim, nos 200 anos da independência do Brasil e, por consequência, do surgimento das primeiras ideias de nação, pensar as 10 obras literárias mais importantes é recortar em meio a dois séculos de produção cultural, representantes que podem contar um pouco de nossa historiografia e formação enquanto sociedade.

Passando por diferentes áreas do conhecimento, desde a análise sociológica até o romance ficcional, estes livros e seus autores e autoras nos ajudam a desenhar os caminhos que nos trouxeram ao agora brasileiro, bem como quais podemos tomar daqui em diante. É sobre o passado e o futuro que constrói e se anuncia no presente do país.

Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis (1839-1908), se anuncia como o romance que inaugura a segunda fase da prosa machadiana, inovando na linguagem e no conteúdo, ao narrar as memórias de um morto, escritas após a morte. Um dos grandes romances da literatura brasileira, escrita por um negro que teve ao longo da história seus registros fotográficos embranquecidos, mas que tem sua memória e origem resgatadas pelo esforço de rever as heranças coloniais e seu peso na constituição do racismo estrutural brasileiro.

Perpassando pelo anos 1920 e pela efervescência do modernismo paulista, em Macunaíma (1928), de Mário de Andrade (1893-1945), o personagem principal, meio negro e meio indígena, evoca elementos de um imaginário acerca dos indígenas brasileiros e é colocado em meio a São Paulo urbana e industrializada. Essa mistura que desenha o que eram os grandes centros urbanos na passagem das oligarquias cafeeiras para a industrialização em oposição a um passado de herança indígena mesclando drama e comédia de desencontros. Anos depois, Jaider Esbell (1979-2021), artista índigena reivindica Macunaima, entidade que dá origem ao seu povo macuxi e que é estereotipada pelo escritor modernista. O passado e o presente se confrontam para seguir com a construção da linha histórica brasileira que se tensiona e evolui.

Os anos 1930, em meio ao modernismo nas artes, também inaugura a moderna historiografia brasileira através de importantes documentos que se propõem, nos primeiros anos da República, a elaborar como se constituiu a sociedade brasileira até então. Gilberto Freyre (1900-1987) inova e é pioneiro na construção da chamada antropologia histórica em seu clássico Casa Grande & Senzala (1933). O autor é ainda curador da série Documentos Brasileiros, da Editora José Olympio, que lança Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), responsável pela elaboração de uma síntese histórico-sociológica sobre a mesma. Ambos figuram entre os mais importantes ensaios, baseados em estudos da cultura, como podemos entender as relações sociais, políticas e econômicas através de nossas heranças coloniais e como isso desenha uma experiência de democracia própria.

O romance de 1930, vertente do modernismo influenciado pelas obras sociológicas de Holanda e Freyre, especialmente, vai lançar sua narrativa sobre o interior do país. Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos (1892-1953), anuncia a viagem de Fabiano e sua família para fugir da seca do sertão nordestino em busca de melhores condições de vida. Sem voz, o personagem vive sob a imposição de poderosos e donos de terras, herança oligárquica também presente nas análises sociológicas de 1930. Em Grande Sertão: Veredas (1956), Guimarães Rosa (1908-1967) conta através de Riobaldo, ex-jagunço, como a seca e os jogos de poder através da posse da terra moldam as relações neste espaço. Responsável por neologismos e experimentalismos, Rosa busca em meio ao seu romance, recriar a palavra e a visão sobre o interior: da terra e dos homens.

É ainda sobre relações de poder e território que se ancora Quarto de despejo (1960), de Carolina Maria de Jesus (1914-1977), o diário de uma favelada, como revela seu subtítulo, narra através de sua escritora a desigualdade nos grandes centros entre as décadas de 1950 e 1960, quando assistimos através de seus relatos o surgimento das primeiras favelas na capital paulistana, deixando ainda mais evidente as diferentes sociais que constituem a cidade que acumula o maior fluxo de capital do país. Entre as linhas de Carolina e a cobertura midiática da pobreza, se apresenta o cotidiano de grande parte da população dos grandes centros urbanos, especialmente formada por negros e negras.

Assim como em Quarto de Despejo, vemos como complexas são as relações que derivam de nossa herança colonial, como demonstra Ana Maria Gonçalves (1970) em Um defeito de cor (2006). Ao dar voz a Kehinde, uma mulher negra, a autora subverte a lógica branca e eurocêntrica da história. Durante uma extensa ficção baseada em uma longa pesquisa histórica e documental, Ana Maria Gonçalves desenha a história brasileira com base na escravização de negros e negras que são trazidos de diferentes partes da África, escancarando as feridas deixadas pelo regime e pela violência física e simbólica na sociedade brasileira e reverberadas no século XXI.

No percurso pelo passado, chegando ao presente das relações que se constituem em nosso país, encontra-se A queda de Céu (2015), de Davi Kopenawa (1956), e o esforço de reafirmar os indígenas como agentes do presente e de sua própria história, a partir da experiência de Kopenawa de como se deu o contato de seu povo, os yanomamis, com o homem branco. Seu presente enquanto líder para resgatar as sociabilidades de seu povo e mostrar como a Queda do Céu - o apocalipse climático, econômico e social - podem ser evitados através da cosmologia indígena e da relação desses povos com a natureza.

No mesmo ano em que Kopenawa lança seu manifesto contra o fim do mundo, a antropóloga Lilia Schwarcz (1957) e a historiadora Heloisa Starling (1956) escrevem o que o historiador Bóris Fausto (1930) chama de uma “biografia não autorizada do um complexo personagem chamado Brasil”2. Brasil: uma biografia (2015), analisa uma trajetória de construção do Brasil desde a chegada dos colonizadores portugueses até o fim da Ditadura Militar (1964-1985)3. Esse percurso narra de forma franca, sem exaltações mas também sem ignorar os avanços enquanto nação, constituindo um importante inventário dos contextos que permeiam  todas as obras que nos acompanhou nesse desenho do Brasil.

Produtos de cultura são documentos de suas épocas e de como nos constituímos enquanto sociedade. O contexto de seus autores, metodologias e narrativas mostram como podemos elaborar o que é o Brasil. E o que ele pode ser.

A Enciclopédia Itaú Cultural durante seus mais de 20 anos de presença online reafirma seu compromisso de contar como essas histórias se encontram na narrativa brasileira de ser nação. Acesse e conheça.

Nota

1. LE GOFF, Jacques. História e memória. 4a. ed. Campinas: Unicamp, 1966. p. 545.

2. BRASIL: uma biografia. Lilia Moritz Schwarcz. Livros de sua autoria. 01 jan. 2020. Disponível em: https://www.liliaschwarcz.com.br/conteudos/visualizar/Brasil-uma-biografia37. Acesso em: 27 abr. 2022.

3. Também denominada de Ditadura Civil-Militar por parte da historiografia com o objetivo de enfatizar a participação e apoio de setores da sociedade civil, como o empresariado e parte da imprensa, no golpe de 1964 e no regime que se instaura até o ano de 1985.

*As informações para redação deste texto foram retiradas dos verbetes de obras e pessoas nele citadas.

Bruna Ferreira da Silva
historiadora e pesquisadora da Enciclopédia Itaú Cultural

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