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Novo Brutalismo

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 29.03.2015
Novo brutalismo é um termo empregado pela primeira vez pelo casal de arquitetos ingleses Alison Smithson (1928-1993) e Peter Smithson (1923-2003) no memorial descritivo do projeto não executado de uma casa no bairro de Soho (Londres), publicado na revista britânica Architectural Design, em dezembro de 1953. O termo é endossado e propagado pelo c...

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Histórico
Novo brutalismo é um termo empregado pela primeira vez pelo casal de arquitetos ingleses Alison Smithson (1928-1993) e Peter Smithson (1923-2003) no memorial descritivo do projeto não executado de uma casa no bairro de Soho (Londres), publicado na revista britânica Architectural Design, em dezembro de 1953. O termo é endossado e propagado pelo crítico de arquitetura inglês Reyner Banham (1922-1988), a partir do importante artigo “The New Brutalism”, publicado na revista britânica Architectural Review, em dezembro de 1955, e com o livro The New Brutalism: Ethic or Aesthetic?, publicado em 1966.

A palavra brutalismo surge pela primeira vez com o arquiteto franco-suíço Le Corbusier (1887-1965), com uma acepção original associada à expressão francesa béton brut (concreto aparente). São brutalistas os projetos de Le Corbusier posteriores à Segunda Guerra Mundial (1939-1945), tendo como marco inicial a Unidade de Habitação de Marselha (1947-1952).

O termo novo brutalismo é adotado, primeiramente, por um grupo de arquitetos ingleses no início da década de 1950, que tem o casal Smithson como representantes mais relevantes, contrapondo-se à trajetória na qual a arquitetura moderna se dirigia, e decepcionados com a aplicabilidade das questões defendidas pelas vanguardas modernas do entreguerras.1

Na publicação da casa no Soho, os Smithson pontuam os propósitos iniciais do novo brutalismo: “É nossa intenção que este edifício tenha a estrutura inteiramente exposta, sem acabamentos internos sempre que possível”.2 Nos anos seguintes, os periódicos arquitetônicos ingleses exploraram essas questões tendo como objetos de estudo a escola de Hunstanton (1950-1954), também de autoria do casal Smithson, e a exposição Parallel of Life and Art (1953), no Instituto de Artes Contemporâneas de Londres.

Em dezembro de 1955, Reyner Banham (1922-1988) escreve o artigo que organiza histórica e programaticamente o novo brutalismo, atestando ser um movimento arquitetônico de origem inglesa. Para que um edifício se encaixe nessa categorização, sintetiza os três pontos que seriam necessários: “[1] capacidade de ser lembrado como uma imagem única, [2] exibição clara da estrutura, [3] valorização dos materiais por suas inerentes qualidades tais quais encontrada”.3 O primeiro aspecto diz respeito à ideia de que a edificação deve ser uma entidade visual apreensível imediatamente, sendo que toda experiência arquitetônica de estar no edifício é uma ratificação da primeira imagem compreendida. Já contido na definição introdutória do casal Smithson, o segundo ponto defende como a estrutura deve se diferenciar visualmente dos outros elementos da construção. O último aspecto é ressaltado quando Banham afirma, no mesmo artigo, que um edifício “deve ser feito daquilo de que aparenta ser feito”.4 Mesmo que essa honestidade material já estivesse contida desde o início do movimento moderno na arquitetura, segundo o crítico inglês, grande parte dos edifícios do período das vanguardas “parecem ser feitos de cal e vidro armado, quando são feitos de concreto e aço”.5 Em comparação, a Escola de “Hunstanton parece ser feita de vidro, tijolo, aço e concreto, e de fato é feita de vidro, tijolo, aço e concreto”.6

Em 1966, Banham escreve um livro estruturado na pergunta se o novo brutalismo é uma ética ou uma estética. Constrói toda a sua argumentação crendo na “ideia de que o relacionamento entre as partes e os materiais de um edifício constitui uma moral prática – e essa segue sendo, para mim, a validade do novo brutalismo”.7 Para Banham, conserva-se o ato de fazer arquitetura – isto é, a prática construtiva – no resultado do edifício, na sua imagem. Neste pensamento filiado às ideias marxistas, o processo da construção persiste expresso na estética da construção concluída.

Apesar de que os pontos apresentados por Banham caracterizam a arquitetura brutalista encontrada em vários lugares no planeta, não é possível afirmar que os textos do crítico inglês sejam a gênese de projetos externos à Grã-Bretanha. Para a crítica brasileira Ruth Verde Zein, o brutalismo só se manifesta internacionalmente como tendência estética (à parte de Le Corbusier) a partir de 1957, ou no mínimo, a partir de 1953, “a ‘conexão brutalista’ é uma rede complexa sem ponto original que não seja corbusiano”.8

No Brasil, o brutalismo proveniente das obras de Le Corbusier vem a dar frutos em São Paulo, principalmente na obra de Vilanova Artigas (1915-1985), que funda a chamada escola paulista ou brutalismo paulista. O arquiteto liga-se a essa tendência em consequência de sua visão do contexto político no Brasil, fazendo uma arquitetura “propondo soluções radicais, onde os conflitos existentes na sociedade capitalista iam refletir-se por meio de oposições francas e pesadas”.9 O historiador francês Yves Bruand esclarece a posição de Artigas:

Plasticamente, esse brutalismo deve muito ao de Le Corbusier: uso quase exclusivo do concreto bruto como sai das fôrmas, rejeição da tradicional leveza brasileira para substituí-la por uma impressão de peso raramente alcançada [...]. Mas o brutalismo de Artigas vai bem mais além por suas implicações teóricas e seu radicalismo; visto sob esse ângulo, aproxima-se mais de seu homônimo britânico.10

Artigas forma uma série de discípulos, dentre eles os arquitetos Paulo Mendes da Rocha (1928) e Sérgio Ferro (1938).

Notas
1 BANHAM, Reyner. The new brutalism. Architectural Review, Londres, dezembro 1955. “The New Brutalism has to be seen against […], in particular, the growing sense of the inner history of the Modern Movement itself”. [Tradução livre do redator]
2 SMITHSON, Alison; SMITHSON, Peter. House in Soho. Architectural Design, London, dec. 1953. p. 342. “It is our intention in this building to have the structure exposed entirely, without interior finishes wherever practicable”. [Tradução livre do redator]
3 BANHAM, Reyner. The new brutalism. Architectural Review, London, dec. 1955. “1, Memorability as an Image 2, clear exhibition of structure, and 3, valuation of materials for their inherent qualities ‘as found.’”. [Tradução livre do redator]
4 Ibidem. “(...) being made of what it appears to be made of”. [Tradução livre do redator]
5 Ibidem. “appear to be made of whitewash or patent glazing, even when they are made of concrete or steel” [Tradução livre do redator]
6 Ibidem. “Hunstanton appears to be made of glass, brick, steel and concrete, and is in fact made of glass, brick, steel and concrete.” [Tradução livre do redator]
7 BANHAM, Reyner. The new brutalism: ethic or aesthetic? Londres: Architectural Press, 1966. p. 135. “(...) an idea that the relationships of the parts and materials of a building are a working morality – this, for me, is the continuing validity of the New Brutalism”. [Tradução livre do redator]
8 ZEIN, Ruth Verde. Brutalismo, sobre sua definição (ou, de como um rótulo superficial é, por isso mesmo, adequado). Arquitextos - Vitruvius, São Paulo, ano 7, n. 084.00, 1 mai. 2007.
9 BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo: Editora Perspectiva, 1981. p. 296.
10 Ibidem. p. 302.

Fontes de pesquisa 11

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  • BANHAM, Reyner. The new brutalism. Architectural Review. London, dec. 1955.
  • BANHAM, Reyner. The new brutalism: ethic or aesthetic? London: Architectural Press, 1966.
  • BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1981.
  • KAMITA, João Masao. Vilanova Artigas. São Paulo: Cosac & Naify, 2000. 127 p., il. color., p&b. (Espaços da Arte Brasileira).
  • KITNICK, Alex; FOSTER, Hal (ed.). New brutalism. October. Cambridge: MIT Press, n. 136, 2011.
  • LEMOS, Carlos Alberto Cerqueira. Arquitetura brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1979.
  • LES Libraries.FR. 1000 et un Brésils. Disponível em: https://www.leslibraires.fr/livre/1657548-1000-et-un-bresils-fernando-barata-jaildo-mar--christine-frerot-gerard-xuriguera-vincent-ros---espace-jean-legendre.
  • SMITHSON, Alison; SMITHSON, Peter. House in Soho. Architectural Design, London, dec. 1953. p. 342.
  • WISNIK, Guilherme. Vilanova Artigas y la dialéctica de los esfuerzos. 2G João Vilanova Artigas, Barcelona, Editora Gustavo Gili, n. 54, 2010.
  • ZEIN, Ruth Verde. A arquitetura da escola paulista brutalista 1953-1973. 2005. Tese (Doutorado) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) - Porto Alegre, 2005.
  • ZEIN, Ruth Verde. Brutalismo, sobre sua definição (ou, de como um rótulo superficial é, por isso mesmo, adequado). Arquitextos - Vitruvius, São Paulo, ano 7, n. 084.00, 1. mai. 2007. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.084/243. Acesso em: 24 fev. 2015.

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