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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Fotografia artística

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 10.11.2022
A fotografia artística é um gênero com forte caráter subjetivo, que expressa ideias ou emoções sem necessariamente ter obrigação ou compromisso de retratar a realidade.

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A fotografia artística é um gênero com forte caráter subjetivo, que expressa ideias ou emoções sem necessariamente ter obrigação ou compromisso de retratar a realidade.

Inventada nos anos 1820 pela combinação de duas ciências – a óptica e a química –, a fotografia percorre um longo caminho antes de alcançar o reconhecimento de sua natureza artística. Somente em 1859 é aceita no Salão de Paris, principal evento artístico francês, realizado anualmente desde o final do século XVII pela Academia de Belas Artes no Museu do Louvre.

No Brasil, a primeira exposição de fotografia acontece em 1842, na Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro, evidenciando o reconhecimento vanguardista da fotografia como forma de arte. Embora fortemente influenciado pelos cânones europeus, o imperador Dom Pedro II acolhe a fotografia com entusiasmo, e a trajetória nacional da nova expressão artística tem início ainda no século XIX. Em 1867, os fotógrafos Joaquim Feliciano Alves Carneiro (s.d.-1887) e Gaspar Antonio da Silva Guimarães (s.d.-1874) realizam retratos em dupla exposição de Dom Pedro II e da imperatriz Teresa Cristina de Bourbon (1822-1889). Nesses retratos, os personagens interagem com seus duplos, inaugurando uma fotografia de caráter ficcional, sem finalidade utilitária de representação oficial, rompendo com o princípio da veracidade dominante na época.

Na virada do século, Valério Vieira (1862-1941) lança mão da técnica da fotocolagem para criar composições cênicas lúdicas e inovadoras. A obra Os trinta Valérios (1900) apresenta a imagem de um sarau com trinta personagens representados a partir de autorretratos do artista.

O início do século XX é marcado pela expansão do movimento pictorialista, quando a fotografia é influenciada pela pintura do inglês J. M. W. Turner (1775-1851) e do francês Claude Monet (1840-1926). No Brasil, a consolidação desse movimento se dá nos fotoclubes do Rio de Janeiro (1910), de Porto Alegre (1916) e sobretudo no Photo Club Brasileiro (1923), na capital fluminense, cujos membros, representantes de uma classe burguesa emergente, têm a oportunidade de exibir sua cultura e seus dotes artísticos.

Paralelamente a essa tendência e sob a influência da Semana de Arte Moderna de 1922, que reivindica o reconhecimento da identidade cultural do Brasil como identidade mestiça, Mário de Andrade (1893-1945) produz uma rica documentação fotográfica intitulada Turista aprendiz, na qual dialoga com as vanguardas europeias em obras de títulos sugestivos como Futurismo pingando e Amor e Psiquê no Solimões (1927). Jorge de Lima (1893-1953), influenciado pela obra do artista alemão Max Ernst (1891-1976), produz fotomontagens de inspiração metafísica, com forte apelo surrealista.

Uma nova aventura criativa emerge no Foto Cine Clube Bandeirante, em São Paulo, nos anos 1940 e 1950. Trata-se da fotografia modernista, de natureza experimental, abstracionista, marcada pela ruptura definitiva com o caráter romântico do pictorialismo. Fundado em 1947, o Museu de Arte de São Paulo (Masp) contribui com a efervescência do movimento ao incluir mostras de fotografia em seu programa. A escola modernista reflete também o desenvolvimentismo implantado por Juscelino Kubitschek (1902-1976), que prestigia a nova arquitetura brasileira, protagonizada por Oscar Niemeyer (1907-2012).  Em São Paulo, a partir de 1951, as bienais de arte trazem produções das vanguardas internacionais. É nesse contexto que despontam artistas fundamentais como os fotógrafos José Yalenti (1895-1967), Geraldo de Barros (1923-1998) e José Oiticica Filho (1906-1964).

Durante o regime militar, a fotografia torna-se mais conceitual1 e incorpora novos suportes para potencializar o impacto de obras de forte conotação política. É o caso de Bólide, Homenagem a Cara de Cavalo (1966), de Hélio Oiticica (1937-1980), e Repressão outra vez o saldo (1968), de Antônio Manuel (1947). Em 1971, Boris Kossoy (1941) lança o livro Viagem pelo fantástico, série de contos fotográficos inspirados pelo realismo mágico da literatura latino-americana e pelo cinema, especialmente o suspense. Mesclando fotografia documental e encenação, Anna Bella Geiger (1933) reflete sobre o seu lugar no mundo na obra Brasil nativo/Brasil alienígena (1977).

Com o surgimento de galerias especializadas na década de 1980, a fotografia artística amplia suas fronteiras e integra a fotografia documental e o fotojornalismo, valorizando a contribuição de José Medeiros (1921-1990), Claudia Andujar (1931) e Sebastião Salgado (1944), assim como Otto Stupakoff (1935-2009) e Klaus Mitteldorf (1953), atuantes na fotografia de moda e publicidade.

O século XXI traz para o centro do debate questões sensíveis da história nacional por meio de expressões artísticas híbridas ou experimentais. Eustáquio Neves (1955) constrói obras por meio de procedimentos químicos e sobreposição de imagens para discutir o lugar histórico da população negra na sociedade brasileira. Rosana Paulino (1967) reflete sobre a condição da mulher negra ao utilizar técnicas populares e tradicionais, como a costura e o bordado, para realizar uma ressignificação de retratos de mulheres escravizadas do século XIX.

Em seu percurso histórico, a fotografia liberta-se do estigma tecnológico ligado à sua origem e se desenvolve plenamente como linguagem artística. No Brasil, se renova continuamente, conquistando posição de destaque na produção artística contemporânea com a força de sua identidade cultural, complexa e plural.

Notas

1. Referência à arte conceitual, vanguarda surgida na Europa e nos Estados Unidos no fim da década de 1960, para a qual o conceito ou a atitude mental tem prioridade em relação à aparência da obra. O mais importante para a arte conceitual são as ideias, a execução da obra ficando em segundo plano.

Fontes de pesquisa 10

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  • BASTOS, Teresa; CARVALHO, Victa de; FATORELLI, Antonio (org.). Escritos sobre fotografia contemporânea brasileira. Rio de Janeiro: {Lp} press, 2020. (Coleção Midiateca, 3 – A Transgressão na Fotografia).
  • COSTA, Helouise; SILVA, Renato Rodrigues da. A fotografia moderna no Brasil. São Paulo: Cosac Naify, 2004.
  • EDINGER, Claudio. História da Fotografia Autoral e a Pintura Moderna. São Paulo: Ipsis, 2019. 376 p.
  • FIGUIER, Louis. La photographie au salon de 1850. Paris: Hachette, 1860.
  • FREUND, Gisèle. Photographie et société. Paris: Editions du Seuil, 2017.
  • KOSSOY, Boris (coord.). Um olhar sobre o Brasil: a fotografia na construção da imagem da nação: 1833-2003. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
  • KOSSOY, Boris. Dicionário Histórico Fotográfico Brasileiro. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.
  • MAGALHÃES, Angela; PEREGRINO Nadja Fonsêca. Fotografia no Brasil: um olhar das origens ao contemporâneo. Rio de Janeiro: Funarte, 2004.
  • ROUILLE, André. La photographie. Paris: Éditions Gallimard, 2005.
  • VASQUEZ, Pedro Karp. O Brasil na fotografia oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.

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