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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Arte Degenerada

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 10.01.2021
Em 19 de julho de 1937 é aberta na cidade de Munique, na Alemanha, a exposição que marca o ápice da campanha pública do regime nazista contra a arte moderna: a mostra internacional "Entartete Kunst" [Arte Degenerada]. Organizada pelo presidente da Câmara de Artes Plásticas do reich, Adolf Ziegler, a exposição reúne cerca de 650 obras entre pintu...

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Em 19 de julho de 1937 é aberta na cidade de Munique, na Alemanha, a exposição que marca o ápice da campanha pública do regime nazista contra a arte moderna: a mostra internacional "Entartete Kunst" [Arte Degenerada]. Organizada pelo presidente da Câmara de Artes Plásticas do reich, Adolf Ziegler, a exposição reúne cerca de 650 obras entre pinturas, esculturas, desenhos, gravuras e livros, provenientes de acervos de 32 museus alemães, consideradas artisticamente indesejáveis e moralmente prejudiciais ao povo pelo governo nacional-socialista alemão (1933-1945), liderado por Adolf Hitler (1889-1945). Os nazistas classificam como "degenerada" (entartet) toda manifestação artística que insulta o espírito alemão, mutila ou destrói as formas naturais ou apresenta de modo evidente "falhas" de habilidade artístico-artesanal. Em termos visuais, é degenerada toda obra de arte que foge aos padrões clássicos de beleza e representação naturalista, em que são valorizados a perfeição, a harmonia e o equilíbrio das figuras. Nesse sentido, a arte moderna, com sua liberdade formal de cunho fundamentalmente antinaturalista, é considerada "degenerada" em sua essência.

A classificação de algumas manifestações artísticas como degeneradas, em oposição a obras "sadias" (em alemão gesund), é anterior à fundação do próprio Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP) [Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães] e remonta a movimentos culturais racistas na Alemanha do fim do século XIX. Como termo técnico oriundo da biologia, entartet é utilizado para descrever determinados animais ou plantas que foram tão modificados a ponto de não serem reconhecidos mais como parte de uma espécie. A transposição para a esfera da cultura se dá em estudos pseudocientíficos, como o Entartung [Degeneração ou Corrupção], de Max Nordaus (1897-1991), publicado em 1892, no qual o autor defende a superioridade da cultura tradicional alemã ao mesmo tempo que difama as obras dos simbolistas e dos pré-rafaelitas, procurando provar o quanto são degeneradas ou decadentes, segundo os parâmetros de uma arte considerada espiritualmente "saudável". Com o florescimento da arte moderna na Alemanha no decorrer da década de 1920, teses como a de Nordaus têm a popularidade renovada. São desenvolvidos estudos para provar as relações entre raça e estilo artístico, que servem para consolidar a posição da pintura de gênero realista alemã do século XIX como a expressão mais nobre da raça ariana.

Em 1928, utilizando-se das ideias de Nordaus, o arquiteto e teórico racista Paul Schultze-Naumburg (1869-1949) publica o livro Kunst und Rasse [Arte e Raça], no qual aparece pela primeira vez a associação da arte moderna com o termo entartet. O autor coloca lado a lado fotografias de pessoas com deficiências física ou intelectual e pinturas de importantes artistas modernos como o italiano Amedeo Modigliani (1884-1920), e os alemães Karl Schmidt-Rottluff (1884-1976) e Otto Dix (1891-1969), a fim de provar visualmente o caráter "degenerado" da produção moderna. Assim, quando Hitler passa a governar o país, em 1933, o uso dos adjetivos "degenerado" e "sadio" já está suficientemente estabelecido no meio cultural como norma de diferenciação entre a arte de vanguarda e a arte tradicional.

A campanha nazista contra a arte moderna começa com a tomada de poder. Em 1933, Hitler fecha a Bauhaus e promove a primeira exposição difamatória da arte moderna nas cidades de Karlsruhe e Mannheim. Segue-se a cassação de diversos curadores, diretores de museus e artistas-professores, como Willi Baumeister (1889-1955) e Otto Dix. Os artistas começam a emigrar. Livros são queimados em praça pública e inicia-se um verdadeiro processo de expropriação arbitrária pelos nazistas dos acervos dos museus: mais de 16.500 obras de arte consideradas degeneradas são confiscadas, muitas das quais são destruídas ou perdidas. Obras de valor – como Auto-Retrato (1888), do pintor holandês Vincent van Gogh (1853-1890), ou Acrobata e Jovem Arlequim (1905), do espanhol Pablo Picasso (1881-1973) – são vendidas num leilão em 1939 na Galeria Fischer, em Lucerna, Suíça, e revertidas em divisas para os nazistas. O comportamento político ou religioso dos artistas passa a não importar, sendo perseguidos todos aqueles identificáveis com qualquer corrente oposta às diretrizes artísticas nacionalistas e de cunho realista estabelecidas pelo governo. Na mencionada exposição de 1937, em Munique, são apresentados trabalhos tanto dos expressionistas alemães quanto do artista francês Henri Matisse (1869-1954), do suíço Paul Klee (1879-1940), dos russos Marc Chagall (1887-1985), Wassily Kandinsky (1866-1944), e outros. Lasar Segall (1891-1957), que emigra para o Brasil em 1923 e naturaliza-se brasileiro, é representado com seis trabalhos, dos quais apenas dois podem ser vistos ainda hoje. Sucesso absoluto de público (mais de 2 milhões de visitantes), a exposição viaja por diversas cidades alemãs e austríacas até 1941.

A exposição Arte Degenerada é um marco do regime nazista contra a arte moderna. A arte degenerada difama grandes nomes da arte moderna, simbolista, expressionista, que têm boa parte de suas produções destruídas pelos nazistas. 

Exposições 3

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Fontes de pesquisa 4

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  • BARRON, Stephanie (org.). Entartete Kunst: Das Schicksal der Avantgarde im Nazi-Deutschland. Los Angeles: Los Angeles County Museum of Art, 1991. Munique: Deutsches Historisches Museum, 1992.
  • CHILVERS, Ian (org.). Dicionário Oxford de arte. Tradução Marcelo Brandão Cipolla. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
  • OSBORNE, Harold. Guía del arte del siglo XX. Tradução Jesús Fernández Zulaica, Mario Hernández, Consuelo Luca de Tena, Aurelio Martínez Benito, Fabiola Salcedo, Angeles Toajas, Pablo Valero. Madri: Alianza, 1990.
  • THOMAS, Karin. DuMonts Kunstlexikon des 20. Jahrhunderts - Künstler, Stile und Begriffe. Köln: DuMont, 2000.

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