Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Pintura Histórica

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 13.04.2020
Reprodução fotográfica Lula Rodrigues

Primeira Missa no Brasil, 1860
Victor Meirelles
Óleo sobre tela
356,00 cm x 268,00 cm
,

O termo se aplica à pintura que representa fatos históricos, cenas mitológicas, literárias e da história religiosa. Em acepção mais estrita, refere-se ao registro pictórico de eventos da história política. Batalhas, cenas de guerra, personagens célebres, fatos e feitos de homens notáveis são descritos em telas de grandes dimensões. Realizadas, e...

Texto

Abrir módulo

Definição

O termo se aplica à pintura que representa fatos históricos, cenas mitológicas, literárias e da história religiosa. Em acepção mais estrita, refere-se ao registro pictórico de eventos da história política. Batalhas, cenas de guerra, personagens célebres, fatos e feitos de homens notáveis são descritos em telas de grandes dimensões. Realizadas, em geral, sob encomenda, as pinturas históricas evidenciam um tipo de produção plástica comprometida com a tematização da nação e da política. Se os acontecimentos domésticos, o cotidiano e os personagens anônimos são registrados pela pintura de gênero, os grandes atos e seus heróis são narrados em tom elevado e estilo grandioso pela pintura histórica. O desafio pictórico colocado por essas telas reside na experimentação simultânea de diferentes gêneros artísticos: das paisagens e naturezas-mortas (nos panos de fundo e elementos do cenário); dos retratos e cenas de gênero (ensaiados na caracterização dos personagens e ambiências). A realização de telas com grande número de elementos, por sua vez, incita os pintores a procurarem soluções inéditas em termos de composição.

A pintura histórica adquire prestígio nas academias de arte, alçada ao primeiro plano na hierarquia acadêmica a partir do século XVII, com a criação da Real Academia de Pintura e Escultura em Paris, 1648. Verifica-se aí um estreitamento das relações entre arte e poder político, e uma associação mais nítida entre a instituição e uma doutrina particular. A paixão pela Antigüidade - revelada nos temas mitológicos e nos motivos históricos - associada à clareza expressiva e à obediência às regras definem o estilo que se converterá no eixo da doutrina acadêmica. A pintura neoclassica, que tem como centro a França do século XVIII, explora fartamente os temas históricos. Diante da Revolução Francesa, o modelo clássico adquire sentido ético e moral. A busca de um ideal estético da Antigüidade vem acompanhada de ideais de justiça e civismo, como mostram as telas do pintor Jacques-Louis David (1748 - 1825). Os retratos dos mártires da revolução realizados por ele atestam a face engajada de sua pintura (A Morte de Lepetier, A Morte de Marat e A Morte de Bara, 1793). David é também o pintor oficial de Napoleão, como mostra a série sobre o imperador realizada entre 1802 e 1807, na qual se destaca a gigantesca Coroação de Napoleão (1805-1807). Antoine-Jean Gros (1771 - 1835), seguidor da forma austera de David, inclina-se às cores e vibrações dramáticas nas batalhas napoleônicas que executa - por exemplo, A Batalha de Eylau (1808) -, o que faz dele um elemento central no desenvolvimento do romantismo francês.

Na Espanha, pinturas históricas são realizadas a partir do século XVI por diversos artistas. Cenas de batalhas são executadas pelos pintores da corte de Felipe IV, comprometidos com a representação da invencibilidade do exército espanhol em suas campanhas militares. Nesse contexto, Francisco de Zurbarán (1598 - 1664) realiza A Defesa de Cádiz e Diego Velázquez (1599 - 1660), A Rendição de Breda (1634-1635), ambas glorificando os triunfos do reinado de Felipe. Posteriormente, cenas históricas têm lugar no interior da variada produção de Francisco José de Goya y Lucientes (1746 - 1828), por meio das dramáticas telas sobre a ocupação francesa da Espanha (1808-1814), em que o pintor coloca a sua ênfase na revolta dos cidadãos de Madri contra os ocupantes (Fuzilamento, 1808). Com esses trabalhos de Goya, a dimensão heróica e celebrativa da pintura histórica encontra sua primeira contestação. Mas é na série de 65 água-fortes, Os Desastres da Guerra (1810-1814), que o pintor revela sua visão realista dos acontecimentos: as cenas de pesadelos e as figuras macabras falam das atrocidades da guerra, pelas quais são responsáveis franceses e espanhóis. A própria opção por uma "técnica menor", a gravura - procedimento que Goya dignifica -, revela o quanto a pintura histórica poderia estar comprometida com a apologia do poder.

A preocupação com o passado e com as origens, assim como a interferência no tempo presente, marcam a visão de mundo romântica. O impacto da Revolução Francesa e o mito napoleônico se refletem nos temas históricos e nas cenas de batalhas, explorados pelos pintores. Théodore Géricault (1791 - 1824) retoma a história em telas como A Jangada da Medusa (1819). O quadro trata de um acontecimento contemporâneo (um naufrágio ocorrido em 1817), narrando, em tom épico, o embate entre vida e morte, assim como as relações hostis entre o homem e a natureza. Eugène Delacroix (1798 - 1863) se detém sobre a história política desde o início de sua carreira (O Massacre de Quios, 1824, A Grécia Sobre as Ruínas de Missolongi, 1827). Mas é o célebre A Liberdade Guia o Povo (1850) que evidencia o compromisso do pintor com a história de seu tempo; a tela registra a insurreição de 1830 contra o poder monárquico. A liberdade, representada pela figura feminina que ergue a bandeira da França sobre as barricadas, converte-se em alegoria da independência nacional.

Marcas neoclássicas e românticas se fazem sentir na pintura histórica exercitada pelos pintores acadêmicos brasileiros. A produção inscrita no interior da Academia Imperial de Belas Artes - Aiba possui fortes vínculos com o governo imperial de Dom Pedro II (1825 - 1891), para o qual os artistas criam uma iconografia nacional - A Coroação de D. Pedro II, de Porto Alegre (1806 - 1879). Os nomes de Pedro Américo (1843 - 1905) e Victor Meirelles (1832 - 1903) associam-se diretamente à pintura histórica no país. Pedro Américo tem no desenho, e na preocupação com a execução das figuras, um dos traços característicos de sua pintura. A Guerra do Paraguai serve de modelo para as narrativas épicas de suas telas, por exemplo, aquelas realizadas em 1871: Batalha do Campo Grande, Batalha do Avaí e Passagem do Chaco. Nota-se aí uma atenção aos detalhes, minuciosamente descritos: os trajes militares, os cavalos, a fisionomia dos personagens. O uso de fotografias como apoio para realização de suas telas históricas revela a preocupação de Pedro Américo em diminuir a distância entre uma arte celebrativa e a documentação histórica. Victor Meirelles também se deteve no registro da história nacional, na representação do império e na guerra do Paraguai. Do ponto de vista da composição, observam-se afinidades de sua pintura com o espírito romântico. Dentre suas principais obras estão: A Primeira Missa no Brasil (1860), A Batalha dos Guararapes (1879), Passagem do Humaitá e Combate Naval do Riachuelo (ambas de 1882). A expressividade da cor e a atenção às paisagens estão entre as marcas do pintor. O tom grandioso e o ímpeto da ação aparecem como elementos fortes de suas narrativas visuais, que, longe de assinalarem a crueldade da guerra, visam enobrecê-la.

Obras 6

Abrir módulo

Fontes de pesquisa 6

Abrir módulo
  • BROWN, Jonathan. Pintura na Espanha: 1500-1700. Tradução de Luiz Antônio Araújo. São Paulo: Cosac & Naify, 2001, 283 pp. il. p&b. color.
  • GUIMARÃES, Argeu. Auréola de Vitor Meireles. S.l.: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro: Conselho Federal de Cultura, 1977. 202 p.
  • ROSEMBERG, Liana Ruth Bergstein. Pedro Américo e o olhar oitocentista. Prefácio Maria Cecília França Lourenço. Rio de Janeiro: Barroso Edições, 2002. 200 p., il. p&b color.
  • SALGUEIRO, João Vicente. Vitor Meireles e Pedro Américo. In: SOUZA, Wladimir Alves de. Aspectos da arte brasileira. Rio de Janeiro: Funarte, 1981. pp. 32-47.
  • SCHWARCZ, Lilia Moritz. As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Cia. das Letras, 1998. 623 pp. il. p&b.color.
  • SOUSA-LEÃO, Joaquim de. O Quadro da Coroação de D. Pedro II: por Manuel de Araújo Porto Alegre. Rio de Janeiro: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1975. 16 p., il. p&b.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: