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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Literatura Negra

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 10.11.2022

Ursula, 1859
Maria Firmina dos Reis

O termo literatura negra é comumente utilizado para contemplar produções literárias de autoria negra. Embora com menor incidência e destaque, além de significativa resistência por parte de críticos negrose, o termo também é utilizado para designar obras literárias que versem sobre as experiências, saberes e práticas da população preta brasileira...

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O termo literatura negra é comumente utilizado para contemplar produções literárias de autoria negra. Embora com menor incidência e destaque, além de significativa resistência por parte de críticos negrose, o termo também é utilizado para designar obras literárias que versem sobre as experiências, saberes e práticas da população preta brasileira. Esse tipo de categorização, no entanto, é fonte de muitas críticas e não encontra respaldo na crítica literária atual. Considerado por estudiosos, escritores e pesquisadores como um conceito que evoca multiplicidade e contínuo movimento, inclusive com possibilidade de outras nomenclaturas, o termo abrange uma diversificada e vasta produção que se inscreve na história do cânone literário brasileiro desde, pelo menos, o século XIX.

O entendimento sobre o que é a literatura negra, quais obras a constituem, os limites de tais definições e as questões pertinentes aos temas e à autoria passam por mudanças e ressignificações no decorrer do século XX. Nesse intervalo de tempo, há uma reivindicação de pertencimento e legitimidade, por parte de autoras/es e críticos negras/os que se dedicam a estabelecer tal produção literária como parte fundamental do conhecimento produzido e da estrutura social e cultural sobre a qual a sociedade brasileira é erguida. Antes disso, no entanto, a criação que parece se encaixar no rótulo de literatura negra – muito embora não seja assim denominada à época de sua produção – é a produção literária que trata de temas, personagens e enredos afro-brasileiros, a despeito da autoria – maciçamente masculina e branca – e da perniciosa estigmatização da experiência negra no Brasil. Autores contemporâneos entre si ou separados cronologicamente por algumas décadas e/ou movimentos literários, tais como Bernardo Guimarães (1825-1884), Castro Alves (1847-1871), Adolfo Caminha (1867-1897), Aluísio de Azevedo (1857-1913), Olavo Bilac (1865-1918) e Jorge Amado (1912-2001), são alguns dos que abordam em suas obras o sujeito negro, visto a partir do prisma da estereotipia. Fundamental destacar em contraposição, neste contexto, a obra de Machado de Assis (1839-1908), que, embora nunca tenha se declarado como um homem negro e tampouco tratado explicitamente de temas afeitos à negritude em suas obras, é uma figura basilar para a discussão acerca de uma produção literária que não está alheia ao contexto de hierarquia racial em que se insere.

Simultaneamente à publicação de obras que retratam a pessoa negra como coadjuvante e parte emudecida do cenário local, há uma expressão literária que trata as experiências de negritude por outro viés. Uma criação literária de autoria negra, engajada na representação de sujeitos negros complexos e humanizados, sendo produzida por nomes fundamentais para a história do Brasil e da literatura brasileira. É o caso do advogado abolicionista e escritor Luiz Gama (1830-1882), que em 1859 publica o livro de poemas Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859), e da escritora Maria Firmina dos Reis (1822-1917), autora de Ursula (1959), primeiro romance publicado por uma mulher no Brasil. A obra de Firmina acumula não só ineditismo por sua autoria – uma mulher negra – como também pelo fato de ser um texto literário pioneiro, de tom abertamente abolicionista e publicado em 1859, quase três décadas antes da assinatura da Lei Áurea (1888).

O debate em torno do conceito de literatura negra traz ambivalências que são discutidas por distintas vozes, em diferentes tempos e lugares de enunciação. Na primeira metade do século XX, figuras como Solano Trindade (1908-1974) e Ruth Guimarães (1920-2014) sinalizam a disputa em torno do que se entende por literatura negra. Já nas décadas de 1960 e 1970, notadamente com a publicação de Quarto de despejo (1960), de Carolina Maria de Jesus (1914-1977), e a criação do periódico Cadernos negros (1978-), pelo selo Quilombhoje, os contornos dessa definição se tornam mais nítidos por serem mais demandados por atores de dentro do campo literário. A partir do impulso da publicação dos Cadernos negros, a década de 1980 traz à tona a movimentação promovida por manifestos, a exemplo de Criação crioula, nu elefante branco (1985) produzido a partir do 1º Encontro de Poetas Ficcionistas Negros Brasileiros, em 1985, em São Paulo, capitaneado pela escritora Miriam Alves (1952) e pelos poetas Arnaldo Xavier (1948-2004), Oswaldo Camargo (1936) e Luiz Silva (1951).

Nos primeiros anos do século XXI, a escritora Conceição Evaristo (1946) adiciona mais uma camada às teorizações sobre a literatura negra ao cunhar o conceito de “escrevivência” como a literatura produzida por mulheres negras a partir de suas experiências, do cotidiano e das memórias construídas por essa inscrição no mundo. Contemporâneo de Evaristo, o professor e crítico

Eduardo Assis Duarte (1950) aponta para uma diferenciação entre os termos literatura negra e literatura afro-brasileira, com destaque para o segundo termo que, segundo ele, abarca com mais complexidade essa produção literária. Cinco elementos denotam o conceito proposto por Duarte, ainda em construção: temática, autoria, ponto de vista, linguagem e público, desde que traduzam, em alguma medida, vinculação a um projeto cultural e político afrocentrado.

Por se tratar de uma definição que busca contemplar obras distribuídas em um extenso período cronológico e diferentes contextos políticos e sociais da história do país, o termo literatura negra funciona como um operador teórico em movência, que é ressignificado para borrar fronteiras na medida em que essa produção literária também transita e se modifica no decorrer do tempo.

Obras 3

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Fontes de pesquisa 5

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  • CUTI (Luiz Silva). Literatura negro-brasileira. São Paulo: Selo Negro, 2010.
  • DUARTE, Eduardo de Assis. Por um conceito de literatura afro-brasileira. In: Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Vol. 4, História, teoria, polêmica. Eduardo de Assis Duarte (org.). Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.
  • EVARISTO, Conceição. A escrevivência e seus subtextos. In: DUARTE, Constância Lima; NUNES, Isabella Rosado (Orgs.). Escrevivência: a escrita de nós – reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo. Rio de Janeiro: Mina Comunicação e Arte, 2020.
  • LITERAFRO: o portal de literatura afro-brasileira. Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2018. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/. Acesso em: 12 ago. 2021.
  • MIRANDA, Fernanda R. Silêncios PrEscritos: estudos de romances de autoras negras brasileiras (1859-2006). Rio de Janeiro: Malê, 2019.

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