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Enciclopédia Itaú Cultural
Dança

Samba de Pirapora

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 26.10.2022
Manifestação cultural, historicamente associada à religiosidade e realizada em Pirapora de Bom Jesus, município paulista com vinte mil habitantes e quase trezentos anos de história, localizado a cinquenta quilômetros da capital. O samba de Pirapora (também chamado de samba de bumbo, samba campineiro ou samba rural paulista) é caracterizado pela ...

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Manifestação cultural, historicamente associada à religiosidade e realizada em Pirapora de Bom Jesus, município paulista com vinte mil habitantes e quase trezentos anos de história, localizado a cinquenta quilômetros da capital. O samba de Pirapora (também chamado de samba de bumbo, samba campineiro ou samba rural paulista) é caracterizado pela fusão de samba de umbigada, samba de lenço, jongo e tambu, e pela forte presença da zabumba (ou bumbo), instrumento percussivo que marca o compasso da dança, tradicionalmente praticada pelos negros escravizados trazidos pelos fazendeiros em época da festividade. 

A história de Pirapora de Bom Jesus, antigamente um bairro do município Santana de Parnaíba, é marcada pela religiosidade. Consequentemente, a história do samba de bumbo em Pirapora está intimamente relacionada a essa característica da cidade. Em 6 de agosto de 1725, é encontrada, nas margens do rio Tietê, a imagem de um santo esculpida em madeira, que logo recebe o nome de Bom Jesus de Pirapora. Diversas narrativas tentam explicar a presença da estátua no rio, e os milagres reportados por devotos são atribuídos ao santo. A cidade passa a receber pessoas de várias regiões para a festa anual dedicada ao santo padroeiro, realizada no mês de agosto.

Naquela época, são chamados de devotos e romeiros os indivíduos brancos, vindos de outras cidades para participar das atividades religiosas “oficiais” da Festa do Padroeiro ou para cumprir promessas. Os indivíduos negros, por sua vez, são chamados de piraporeanos, embora viessem igualmente de outras cidades paulistas. Eles são trazidos para a região como mão de obra escravizada por causa da crise do ciclo de açúcar no Nordeste brasileiro no século XVII e do declínio das plantações de café no Vale do Paraíba fluminense e paulista no século XIX. Além disso, em 1850, a Lei Eusébio de Queirós, que proíbe o ingresso de escravizados no Brasil, estimula o tráfico ilegal interno no país para as fazendas de café da região conhecida como Oeste paulista.

Nesse período, é grande a concentração de negros de origem cultural banta na região Sudeste do país, o que possibilitou a interação de manifestações com matrizes culturais comuns. O ponto de intersecção das diferentes modalidades do samba de bumbo é, portanto, a matriz africana. Além disso, o bumbo é o instrumento percussivo comum aos festejos. Muito presente em músicas nordestinas, ele tem origem ibérica, mas é apropriado e ressignificado pelos negros, os agentes culturais do samba de bumbo no estado de São Paulo.

No dia da festividade, além dos alojamentos reservados aos fazendeiros da região, barracões mantidos por padres são reservados aos escravizados e negros. Nesses espaços se desenvolvem os chamados “batalhões”: grupos oriundos de localidades diversas se desafiam em uma batalha de cantos improvisados, com a presença do bumbo e de outros instrumentos percussivos. 

Em 1927, entretanto, o samba no barracão é proibido pela igreja, que considera profana essa expressão cultural da população negra, em oposição à dimensão religiosa manifestada pela maioria branca da população.

Em 2007, por meio de um movimento de restauração e valorização da cultura popular local,  grupos de pesquisadores da cultura popular recolheram relatos orais de antigos sambadores e moradores da cidade de Pirapora, para reconstruir a trajetória histórica do samba na região. Desde a metade do século XX, o gênero passa por muitas ressignificações em Pirapora e passa da condição de manifestação reprimida e estigmatizada à de expressão cultural exaltada pela dimensão “étnica” e por ser considerada como “raiz” do samba paulista. 

O samba de roda de Pirapora é realizado atualmente na Casa de Samba, localizada na região central do município. O evento comemora o aniversário da cidade e recebe sambistas de diversas regiões. Em processo recente, recebe gradualmente atenção como atividade turística que dinamiza a economia local. Portanto, o resgate histórico do samba de Pirapora, assim como a manutenção de sua prática pela população local, é um importante gesto pela preservação e pela valorização da cultura popular local e da memória da região.

Fontes de pesquisa 5

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  • ANDRADE, Mário de. “O samba rural paulista”. Revista do Arquivo Municipal. São Paulo, ano IV, v. XLI, 1937.
  • BRITTO, Iêda Marques. Samba na cidade de São Paulo (1900-1930): um exercício de resistência cultural. São Paulo: FFLCH-USP, 1986.
  • CUNHA, Mario Wagner Vieira da. Descrição da Festa de Bom Jesus de Pirapora. Revista do Arquivo Municipal, São Paulo, ano IV, v. XLI, 1937.
  • MANZATTI, Marcelo Simon. Samba Paulista, do centro cafeeiro à periferia do centro: estudo sobre o Samba de Bumbo ou Samba Rural Paulista. 2005. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais)– Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2005.
  • SAMBA de roda de Pirapora. Acervo das tradições. Disponível em: http://www.acervodastradicoes.com.br/portfolio/sambapirapora/. Acesso em: 25 nov. 2021.

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