Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

A Enciclopédia é o projeto mais antigo do Itaú Cultural. Ela nasce como um banco de dados sobre pintura brasileira, em 1987, e vem sendo construída por muitas mãos.

Se você deseja contribuir com sugestões ou tem dúvidas sobre a Enciclopédia, escreva para nós.

Caso tenha alguma dúvida, sugerimos que você dê uma olhada nas nossas Perguntas Frequentes, onde esclarecemos alguns questionamentos sobre nossa plataforma.

Enciclopédia Itaú Cultural
Dança

Lundu

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 26.10.2022
Também grafado como lundum, landu, londu, londum ou landum, o termo se refere à manifestação musical e coreográfica originada da confluência de elementos das culturas africana e europeia ibérica, que forjam parte da identidade musical brasileira em formação no fim do século XVIII. Gestado em espaços conhecidos como batuques1, o lundu é dividido ...

Texto

Abrir módulo

Também grafado como lundum, landu, londu, londum ou landum, o termo se refere à manifestação musical e coreográfica originada da confluência de elementos das culturas africana e europeia ibérica, que forjam parte da identidade musical brasileira em formação no fim do século XVIII. Gestado em espaços conhecidos como batuques1, o lundu é dividido em dois ramos: o lundu-canção, relacionado à estrutura musical, e o lundu-dança, ligado a perícias coreográficas, com destaque para a “umbigada” ou “semba”, que mais tarde é chamada de samba. 

Também chamada de “dança dos negros” pelo historiador Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), o lundu tem origem nas danças de roda trazidas pelos escravos bantos, sobretudo angolanos e congoleses, e tem como características a prática da umbigada2 e as danças voluptuosas que ritualizam as núpcias na cerimônia matrimonial congolesa conhecida como lembamento. Além da influência banta, o lundu-dança traz movimentos coreográficos ibéricos próximos do fandango, como estalos nos dedos, alternância de mãos na testa e nas ancas, além dos movimentos nas pontas dos pés. Registros históricos apontam que o lundu-dança é acompanhado por instrumentos musicais percussivos, com eventual presença de castanholas. Não por acaso, Câmara Cascudo o chama de “tango brasileiro”. Instrumentos de cordas dedilhadas, como guitarra inglesa ou francesa, violão, rabeca e violino, bem como instrumentos melódicos, como a flauta, também estão registrados em litografias sobre o tema, como as do pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848) e do gravurista alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858).

O lundu-canção, tanto na forma cantada, como na instrumental, remonta a um conjunto estilístico do período Clássico do século XVIII, a partir de aproximações e distanciamentos de elementos galantes e rococós3. Alguns dos mais antigos lundus-canções estão reportados no livro Viagem pelo Brasil, publicado em 1823 pelos naturalistas alemães Johann Baptist von Spix (1781-1826) e o Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868). Outros registros historiográficos mais remotos, datados no final do século XVIII, são feitos a partir da aproximação do lundu-canção com o gênero musical da modinha. Os registros tanto da passagem do lundu-dança para o lundu-canção, quanto das aproximações e distanciamentos musicais entre o lundu e a modinha, partem muitas vezes de documentos etnocêntricos, de caráter evolucionista. Sob essa perspectiva, em sua relação com elementos europeus, o lundu passa por um processo de “aculturação”, tornando-se menos “selvagem” e mais “branco” e adotando uma roupagem cômica e pitoresca. Essa configuração possibilita, a partir da década de 1820, que o gênero acesse os salões da alta corte colonial nos estados do Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, sob a forma de “lundu de teatro”, uma variação do pequeno quadro cômico da Península Ibérica conhecido como entremez.

A partir de releituras feitas por abordagens etnomusicológicas, assume-se que tanto o lundu quanto a modinha são subgêneros musicais de tendências classicizantes, iniciadas no século XVIII e consolidadas no alvorecer do século XX. Assim, antes de apresentar o lundu como peça musical adaptada aos moldes europeus (como a modinha), reconhece-se a força da tradição musical africana em sua composição. O encontro transatlântico inaugura composições diversas em padrões e ciclos rítmicos, que possibilitam a consolidação do lundu como gênero musical. Tratando-se de uma espécie de “tropicalização” do estilo clássico vigente no período, a partir de elementos da cultura negra em diáspora.

Atualmente o lundu é praticado em alguns estados da região norte do país. O mais célebre é o lundu marajoara, proveniente da Ilha de Marajó, no Pará. Apresenta aspectos coreográficos comuns aos praticados originalmente, como a dança em roda, com pares que se alternam ao centro em umbigada. Os dançarinos, descalços, vestem-se com indumentárias semelhantes às da dança do carimbó: mulheres vestem saias longas e rodadas, estampadas com cores fortes, blusas curtas e enfeites no cabelo; os homens vestem calças largas e brancas, blusas de mangas compridas suspensas na altura do umbigo e estampadas com desenhos marajoaras. Os instrumentos musicais utilizados são a rabeca, o clarinete, o reco-reco, o ganzá, o maracá, o banjo e o cavaquinho.

Como signo de manifestação cultural brasileira, seja na dança, seja na música, o lundu é resultado de uma experiência transatlântica e diaspórica, que articula elementos ibéricos aos bantos. No contexto colonial, extrapola os circuitos de classes menos favorecidas e ganha destaque nacional, abrindo espaços para outras manifestações culturais, como o samba

Notas
1. Batuque é o lugar onde se dança e canta ao som de toada percussiva. Praticado sobretudo por pessoas negras, o batuque se configura como espaço fundamental para formação da cultura afro-luso-brasileira durante o período colonial.

2. Umbigada é pancada com o umbigo que o dançarino solista dá naquele que vai substituí-lo na dança de roda. 

3. Os elementos clássicos presentes no lundu aparecem na forma de compassos em anacruse de colcheia com improviso harmônico que alterna conjuntos de frases e semifrases. Situa-se dentro da tradição galante-clássica, a partir da lógica do improviso, na qual tais elementos assumem a forma de arpejos, afastando-se do estilo barroco, que se organiza a partir de baixos fixos que, por sua vez, geram acordes.

Fontes de pesquisa 7

Abrir módulo
  • CARNEIRO, Edison. O samba de umbigada. Rio de Janeiro: MEC; CDFB, 1961.
  • CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro; Ministério da Educação e Cultura, 1962.
  • KIEFER, Bruno. A modinha e o lundu, duas raízes da música popular brasileira. Porto Alegre: Editora Movimento, 1977.
  • LIMA, Edilson Vicente de. O enigma do lundu. Revista Brasileira de Música, Rio de Janeiro, v. 23, n. 2, pp. 207-248, 2010.
  • NOGUEIRA, Antonio Carlos Silva. A nômade história cultural do lundu: o batuque viajante no atlântico negro. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro. São Gonçalo, 2018.
  • SPIX, Johann Baptist von; MARTIUS, Carl Friedrich von. Viagem pelo Brasil. 3 vols. Belo Horizonte: Editora Itatiaia: 1981.
  • TINHORÃO, José Ramos. Pequena história da música popular: da modinha à canção de protesto. Petrópolis: Editora Vozes, 1974.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: