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Dança

Samba de roda

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 30.08.2022
Samba de roda é uma manifestação musical, coreográfica, poética e festiva de origem afro-brasileira, tradicional em todo o estado da Bahia, mas especialmente em Salvador e no Recôncavo Baiano. Reconhecido como uma das matrizes do samba, caracteriza-se pela disposição dos participantes em círculo e pela mistura de dança e canto com o som de instr...

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Samba de roda é uma manifestação musical, coreográfica, poética e festiva de origem afro-brasileira, tradicional em todo o estado da Bahia, mas especialmente em Salvador e no Recôncavo Baiano. Reconhecido como uma das matrizes do samba, caracteriza-se pela disposição dos participantes em círculo e pela mistura de dança e canto com o som de instrumentos e palmas. É a forma mais comum e tradicional de celebração praticada na Bahia.

O primeiro registro conhecido da palavra samba data de 1844, mas menções a elementos do samba de roda aparecem em documentos históricos desde o século XVII. É uma expressão popular com fortes traços culturais de origem africana, mas comporta também elementos resultantes de trocas interculturais com os europeus. Provavelmente, o estilo de samba mais antigo surge no contexto das festas de terreiros do Recôncavo, região onde aportam os primeiros escravizados, chegando mais tarde ao Rio de janeiro, onde dá origem ao samba carioca, com suas muitas variantes, como o samba-enredo, o samba de breque, o samba canção, o samba de partido-alto. Em 2004, é inscrito pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Livro de registro das formas de expressão. Em 2005, é nomeado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como uma das obras-primas do patrimônio oral e imaterial da humanidade.

O samba de roda pode acontecer como evento autônomo, muitas vezes previsto, ou como um atravessamento espontâneo de caráter lúdico em diversas circunstâncias, permeando diferentes expressões populares baianas. Não está ligado a uma ocasião específica nem tem data fixada no calendário, podendo se formar a qualquer momento, em qualquer lugar. Sua realização, no entanto, é certa tanto em festas e rituais religiosos do candomblé e da umbanda, quanto em celebrações católicas, que no Recôncavo são associadas às tradições afro-brasileiras.

A cena do samba de roda é composta por músicos, cantadores e sambadeiras. Essa composição não se restringe aos participantes oficiais, por assim dizer: também o público é estimulado a dançar e acompanhar a música, batendo palmas e entoando respostas em coro. A inclusão dos participantes de ocasião é fundamental para a manutenção do entusiasmo do grupo e contribui ainda para enriquecer a textura sonora e a paisagem percussiva. O caráter inclusivo, e de certo modo acidental, da sonoridade é determinado também pelos instrumentos tocados, que variam de acordo com o que está disponível, podendo ser apenas as palmas e quaisquer objetos que se tenha à mão.

Tradicionalmente, a dança se caracteriza pelo miudinho, como são conhecidos os passos curtos, rápidos e arrastados com os quais as sambadeiras se movem, praticamente sem tirar os pés do chão. Assim elas se deslocam – “correm a roda”, como se diz –, posicionando-se em frente aos músicos, numa forma de reverência, mas também de exibição. Como em outras danças de origem africana, o revezamento na posição de destaque é sinalizado com o famoso gesto da umbigada: um toque de barriga com barriga pelo qual uma sambadeira convida a outra para dançar no centro da roda.

O ritmo em compasso 2/41 é um dos aspectos mais marcantes do samba de roda, guiando uma estrutura composta na base pela repetição de um padrão rítmico produzido por instrumentos como pandeiro, prato-e-faca, chocalho e reco-reco. Sobre essa base, outros instrumentos como timbales e tambores de marcação, além das palmas e das vozes dos cantadores, vão se deslocando e produzindo suas acentuações.

As várias modalidades de samba de roda que existem no Recôncavo podem ser entendidas, segundo o dossiê do Iphan, com base em dois grandes tipos: o samba corrido e o samba chula, também conhecido como samba de parada, de viola, ou amarrado. A principal diferença de um para outro está nas regras da performance. No samba corrido, canto, toque e dança ocorrem contínua e simultaneamente, sem restrição do número de pessoas que podem sambar ao mesmo tempo no meio da roda. No samba chula, apenas um dançarino a cada vez ocupa a posição central e é obrigatória a parada do canto na hora da dança e a parada da dança na hora do canto.

A composição dos cantos também varia conforme a modalidade. No samba chula, alternam-se uma estrofe principal, que leva o nome de chula, e uma estrofe em resposta, o chamado relativo. Ambas idealmente executadas por pares de homens cantando em polifonia de terças paralelas. No samba corrido, geralmente o solista canta um ou dois versos, que são respondidos por um conjunto de participantes também com uma estrofe curta.

As letras são cantadas em língua portuguesa, com corte estrófico e rítmico português, mas a emissão vocal e o conteúdo verbal estão sempre associados à cultura negra do Recôncavo. Suas poéticas variam na forma e no conteúdo, de acordo com a região. Algumas tratam de assuntos locais e temas contemporâneos, outras de tradições folclóricas, datas festivas, eventos religiosos e de experiências próprias, sendo recorrente o tema da poligamia e da traição.

Em 1916, “Pelo telefone" se torna o primeiro samba gravado no Brasil. A composição de autoria de Donga (1890-1974), com participação de Pixinguinha (1897-1973), abre caminho para figuras como Ataulfo Alves (1909-1969), Dona Edith do Prato (1916-2009), Cartola (1908-1980), Noel Rosa (1910-1937) e Nelson Cavaquinho (1911-1986). O estilo influencia profundamente a obra de artistas como Dorival Caymmi (1914-2008), Tom Jobim (1927-1994), João Gilberto (1931-2019) e Caetano Veloso (1942), alcançando projeção no cenário da música mundial.

Síntese de múltiplos saberes, o samba de roda é ritmo, dança e tradição. Sua expressão representa as raízes da música e da cultura afro-brasileira, sendo até hoje uma parte importante da vida de pessoas não só na Bahia, mas em todo o país. Seu valor excepcional está ligado não só ao seu papel como memória, mas também como prática viva e fecunda matriz de novas formas culturais.

Notas

1. Organização rítmica dividida em partes compostas por duas pulsações principais, subdivididas em quatro unidades de menor duração.

Fontes de pesquisa 3

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