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Enciclopédia Itaú Cultural
Dança

Carimbó

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 26.09.2022
Manifestação musical, coreográfica e festiva típica do estado do Pará. Fruto da confluência de elementos das culturas indígena, africana e ibérica, combina canto, dança de roda, instrumentos de percussão, palmas e o estalar de dedos. Uma forma de lazer profundamente integrada ao cotidiano, ocorre tanto em eventos sociais seculares quanto nas cel...

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Manifestação musical, coreográfica e festiva típica do estado do Pará. Fruto da confluência de elementos das culturas indígena, africana e ibérica, combina canto, dança de roda, instrumentos de percussão, palmas e o estalar de dedos. Uma forma de lazer profundamente integrada ao cotidiano, ocorre tanto em eventos sociais seculares quanto nas celebrações religiosas. É compreendido como síntese da identidade paraense.

Sua história é construída por múltiplas vozes, que se apresentam sobretudo como relatos de experiências próprias ou baseadas na memória herdada e legitimada pelo grupo social. Não há, portanto, uma narrativa unilinear a respeito de sua procedência. De modo geral, é reconhecido como resultado da interação dos indígenas brasileiros com os africanos traficados para a região amazônica no século XVII e os colonizadores europeus, tendo se desenvolvido em comunidades remanescentes de quilombos.

Tradicionalmente, as festas de carimbó se realizam nos meses de dezembro e janeiro, entre o ciclo natalino e a passagem do ano, e durante as celebrações religiosas em homenagem a santos católicos, como São Benedito, o padroeiro dos negros, entre outros. Também acontecem associadas ao entrudo, como é conhecida a comemoração pelo fim de um dia de trabalho na roça ou pelo término da colheita.

Com origem na expressão tupi korimbó (“pau que produz som”), o termo carimbó denomina o instrumento em torno do qual se organiza a dimensão musical da festa. Feito do tronco oco de árvores e revestido em uma de suas extremidades pelo couro de algum animal, o carimbó é um tambor sobre o qual os músicos ficam sentados, batucando com as mãos para marcar o ritmo da apresentação. Elementos centrais do conjunto, os carimbós são acompanhados por uma orquestra percussiva composta de pandeiros, milheiros, maracas e caxixis, além de palmas e o estalar de dedos. O ritmo sincopado de andamento ligeiro é entremeado pela melodia fraseada de instrumentos de sopro, como a flauta, o clarinete e o saxofone. As cordas da rabeca, do violão, do cavaquinho e do banjo fazem a sustentação harmônica.

Sobre a base sonora vibrante produzida pelos instrumentos são entoadas canções compostas geralmente por agricultores e pescadores do interior paraense, que versam sobre trabalho, amor, religião e outros temas do cotidiano, aludindo a elementos da fauna e da flora da região. As letras são marcadas pelo traço da oralidade e podem ser completamente improvisadas, como no chamado “carimbó de repente”, ou compostas em antifonia, estrutura na qual o coro responde às frases cantadas pelo solista. Também conhecida como chamado/resposta ou responsorial, a estrutura antifonal é formada pela repetição cíclica de versos mais ou menos curtos, constituindo uma característica irredutível da música popular de ascendência africana, como observou o musicólogo cubano Leonardo Acosta (1933-2016).

Ao som da música e do batuque dos tambores, homens e mulheres, organizados em roda, dançam em pares, sem fazer contato direto um com o outro. As coreografias têm como movimentos de base passos miúdos e rodopios, caracterizando-se também por uma expressão corporal fortemente encenada, por meio da qual se conta a estória cantada, com gestos que fazem referência ao movimento das marés, dos animais da floresta e de outros elementos do vasto universo das comunidades amazônicas. A indumentária é outro elemento marcante da dança: os homens vestem camisas floridas e calças de tecido, ou ternos; as mulheres usam fartos adornos, como brincos, colares e anéis, trajando camisas brancas de cambraia e longas saias rodadas, que elas seguram pela ponta, agitando incessantemente de um lado para o outro como parte da coreografia.

O carimbó se populariza fora do círculo de seus praticantes sobretudo a partir da década de 1970, com a relativa projeção alcançada por artistas como os mestres Pinduca (1937), Varequete (1916-2009), Cupijó (1936-2012) e Lucindo (1908-1988). A obra dos poetas e compositores paraenses Ruy Barata (1920-1990) e Paulo André Barata (1946) também confere notoriedade à tradição amazônica, que então ganha repercussão midiática na interpretação da cantora Fafá de Belém (1956). Bem mais tarde, entre as décadas de 2000 e 2010, a cantora e compositora Dona Onete (1938) desponta como grande expoente do ritmo. Ela conquista reconhecimento tanto nacional quanto internacionalmente, tornando-se conhecida como “rainha do carimbó”.

No intercâmbio com outros gêneros e contextos, o carimbó passa por um processo de atualização e assume novos contornos, extrapolando a condição de manifestação popular tradicional praticada em festas da comunidade para ocupar também o centro de festivais de música, além de apresentações em espaços turísticos, como aeroportos, restaurantes e hotéis. Tais circunstâncias despertam preocupação com a salvaguarda de sua dimensão identitária e de seus aspectos culturais. Em 2014, após cinco anos de uma extensa pesquisa para o levantamento de informações sobre suas referências mais representativas, o carimbó é então registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio cultural imaterial do Brasil.

Mais que um ritmo, uma dança, uma festa ou uma forma de lazer, o carimbó é símbolo da territorialidade amazônica e uma das grandes expressões da identidade paraense. Um exemplo da resistência das culturas nativas e tradicionais, por um lado, e da complexidade da atualização cultural, por outro, é uma ponte entre a tradição e a modernidade, mantendo vivo na globalidade do mundo contemporâneo o fluxo dos saberes e das práticas ancestrais.

Fontes de pesquisa 5

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  • FIGUEIREDO, Silvio José de Lima; BOGÉA, Eliana Benassuly. Hibridismo cultural e atualização da cultura: o carimbó do Brasil. Resgate: revista interdisciplinar de cultura, Campinas, v. 23, n. 2, p. 81-92, jul./dez. 2015. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/resgate/article/view/8645808. Acesso em: 27 set. 2021.
  • GUERREIRO DO AMARAL, Paulo Murilo. O carimbó de Belém: entre a tradição e a modernidade. 2003. 124f. Dissertação (Mestrado em Música) – Universidade Estadual Paulista, São Paulo, 2003.
  • HUERTAS, Bruna Muriel. O carimbó: cultura tradicional paraense, patrimônio imaterial do Brasil. Revista CPC, São Paulo, n. 18, p. 81-105, dez. 2014/abr. 2015. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.1980-4466.v0i18p81-105. Acesso em: 27 set. 2021.
  • IPHAN. Carimbó: dossiê. Belém: Iphan, jun. 2004. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Dossi%C3%AA%20de%20Registro%20Carimb%C3%B3(1).pdf. Acesso em: 27 set. 2021.
  • SALLES, Vicente; SALLES, Marena Isdebski. Carimbó: trabalho e lazer do caboclo. Revista Brasileira de Folclore, Rio de Janeiro, n. 9, p. 83-99. set./dez. 1969.

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