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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Tambor de Crioula

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.08.2022
Manifestação popular de matriz afro-brasileira tipicamente maranhense, reconhecida como patrimônio cultural brasileiro desde 20071. Em sua origem, é praticada tanto por divertimento quanto como celebração religiosa pelos descendentes de africanos escravizados que integram as classes menos favorecidas nos meios urbanos e rurais. Integra dança cir...

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Manifestação popular de matriz afro-brasileira tipicamente maranhense, reconhecida como patrimônio cultural brasileiro desde 20071. Em sua origem, é praticada tanto por divertimento quanto como celebração religiosa pelos descendentes de africanos escravizados que integram as classes menos favorecidas nos meios urbanos e rurais. Integra dança circular, canto e percussão de tambores. Faz parte da chamada “família do samba”, ao lado de outras expressões derivadas do batuque, como o jongo, no Sudeste, o samba de roda, no Recôncavo Baiano, o coco, no Nordeste, e algumas modalidades do samba carioca.

O tambor de crioula é uma formação em roda na qual os praticantes atuam de formas variadas, guiados pelo som polirrítmico e sincopado do batuque. Os instrumentistas são acompanhados por cantadores, que entoam cânticos sobre trabalho, sofrimento, devoção, amor e outros temas. Enquanto isso, dançantes – coreiras, como são conhecidas –, trajando turbantes e saias rodadas, realizam ligeiros rodopios e discretos passos coreográficos. No centro da roda, diante dos três tambores, uma delas dança sozinha de forma mais livre e acentuada, aos poucos se encaminhando em direção às outras, num movimento que culmina com a punga ou umbigada: um toque de barriga com barriga pelo qual a coreira solista convida uma das demais a trocar de lugar com ela para ocupar a posição de destaque no centro.

De caráter religioso, é realizado em louvor ou como pagamento de promessas tipicamente a São Benedito, o santo padroeiro dos negros, mas também a outros santos do catolicismo tradicional e a entidades cultuadas na umbanda, como informa o parecer técnico do Iphan2. Não tem local específico nem data marcada, mas costuma acontecer no interior de terreiros ou em locais abertos, associados a festas juninas e eventos carnavalescos, misturando sagrado e profano, ritual e espetáculo, devoção e divertimento. O tambor frequentemente encerra também as festas do bumba meu boi, com o qual estabelece uma relação ao modo de parentesco.

Sua origem histórica é imprecisa. Provavelmente chega ao Maranhão trazida pelos escravizados de várias regiões da África. O antropólogo maranhense Sérgio Ferretti (1937-2018) cita documentos que fazem referência à prática ainda no século XIX. Nos relatos dos mais velhos, a brincadeira, como também é compreendido o tambor de crioula, é lembrada como forma de lazer e importante ferramenta de resistência desde o tempo dos antepassados escravizados.

Os cânticos e as danças do tambor de crioula são documentados de forma sistemática pela primeira vez em 1938, durante a Missão de Pesquisas Folclóricas, organizada por Mário de Andrade (1893-1945). Nesta época, o poeta modernista é diretor do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo. A despeito do trabalho pioneiro, a manifestação maranhense passa os quarenta anos seguintes sem ser estudada, o que se pode atribuir ao desinteresse de modo geral pelas expressões populares e, particularmente, ao preconceito histórico de cunho racial.

Em 1978, uma pesquisa realizada com o apoio da Fundação Nacional de Artes (Funarte) e a supervisão do folclorista Domingos Vieira Filho (1923-1981) recupera o tema. O material reunido pela equipe composta por Ferretti e pelos técnicos da então Fundação Cultural do Maranhão dá origem ao conteúdo publicado na coleção Cadernos de folclore (1987). Nessa década, o tambor de crioula conquista espaço fora dos limites da periferia, ganhando visibilidade entre as elites intelectuais e políticas. Com o reconhecimento de seu valor cultural, torna-se também objeto de intensa exploração midiática e passa a fazer parte dos roteiros turísticos.

O cenário atual do tambor de crioula reflete as adaptações que se impuseram aos brincantes com a espetacularização da cerimônia lúdico-religiosa. Na maioria dos grupos, no entanto, seus elementos rituais estruturantes foram preservados. Uma dança de negros ao som de tambores, como definiu Ferretti, é uma importante expressão no conjunto de tradições culturais e religiosas de matriz africana que se desenvolveram no país. Símbolo da resistência dos escravizados, atualiza-se neste momento como forma de celebração pelo fim da escravidão.

Nota

1. Reconhecimento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

2. Produzido durante o processo de registro do tambor de crioula do Maranhão como patrimônio cultural brasileiro.

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