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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Mamulengo

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 15.03.2022
O mamulengo é o teatro de bonecos praticado na região Nordeste. Uma de suas características marcantes é a informalidade das performances, que se manifesta tanto nos espaços públicos em que geralmente é praticada quanto na arte do improviso. Esses e outros dispositivos, entre eles a tradição oral, atuam para imprimir uma relação íntima entre arti...

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O mamulengo é o teatro de bonecos praticado na região Nordeste. Uma de suas características marcantes é a informalidade das performances, que se manifesta tanto nos espaços públicos em que geralmente é praticada quanto na arte do improviso. Esses e outros dispositivos, entre eles a tradição oral, atuam para imprimir uma relação íntima entre artistas, bonecos e público. 

O mamulengo faz parte do patrimônio cultural imaterial brasileiro e integra o registro do Teatro de Bonecos Popular do Nordeste, inscrito no Livro de Registro das Formas de Expressão, publicado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 2015.

Mamulengo se refere tanto aos bonecos manipulados pelos artistas quanto ao espetáculo. Frequentemente designa também atividades similares presentes em diferentes estados do Nordeste, como na Paraíba (onde é chamada de Babau), no Rio Grande do Norte (João Redondo), no Ceará, no Piauí e no Maranhão (Casimiro Coco). No Ceará e no Piauí encontra-se ainda a denominação Presepe de Calungas de Sombra e, na Bahia, simplesmente Presepe, embora essas denominações estejam ligadas também aos teatros de sombras.

O mamulengo é praticado por artistas individuais ou em trupes. Cada grupo é dirigido por um mestre, em geral o “dono” da brincadeira e dos equipamentos da companhia. O título remete à relação de mestre e aprendiz entre os praticantes e muitas vezes perpassa relações de parentesco. O aprendizado acontece na realização dos espetáculos, quando os integrantes mais jovens desenvolvem seu próprio conhecimento a respeito do ofício, por meio tanto da prática como da transmissão oral.  

Supõe-se que a origem do mamulengo esteja ligada à cultura dos autos de natal e da construção de presépios. Essas tradições, que se instauram no esforço de catequização cristã dos povos indígenas, quilombolas e sertanejos, estão ligadas a outras manifestações culturais, como a Folia de Reis. Além disso, o mamulengo incorpora elementos de outras práticas da cultura popular, como a festa bumba meu boi e o folguedo cavalo-marinho. 

O mamulengo é encenado em uma tenda chamada de “barraca”, “torda” ou “empanada”, que pode ter armação de madeira e revestimento de tecido ou simplesmente construída com um pano estendido sobre uma corda esticada. O palco para os bonecos deve ocultar os artistas que os manipulam, os bonequeiros, para potencializar a animação dos personagens. 

Em geral, os bonecos são esculpidos em madeira, geralmente o mulungu, a umburana ou a carrapateira. O método de construção também se ajusta à técnica de manipulação. A de luva, mais comum, utiliza um boneco com cabeça e mãos em madeira e o restante do corpo em tecido, para acolher a mão do bonequeiro. Outras variáveis para a composição dos bonecos são a disponibilidade dos materiais e a relação entre as características físicas e dramáticas das personagens.

Quanto à estrutura dramática, os enredos mais recorrentes encenam as aventuras de um vaqueiro negro (Baltazar, Cassimiro Coco), de Quitéria e Maria Catolé ou de Mané Gostoso e João Redondo. Essas narrativas pertencem à tradição oral e perduram por gerações de bonequeiros. No entanto, é notável a criação de enredos novos, ainda que respeitando as estruturas narrativas tradicionais. Os temas abordam religião, política, crítica social, situações profanas, sexualidade, inversão de hierarquias e disputas entre homens valentes, quase sempre explorando fins cômicos. Um traço recorrente é a ridicularização de autoridades (delegados, políticos e padres) e o elogio das peripécias de heróis provenientes das camadas populares. 

É comum que o ofício de bonequeiro esteja ligado a uma missão de cunho espiritual que se realiza na personificação dos bonecos: na performance do mamulengo, o boneco se torna vivo na mesma medida em que o artista é tomado por uma força que o conecta afetivamente ao boneco. De modo significativo, nota-se uma forte penetração da espiritualidade afro-indígena nas cenas em que pajés e pais e mães de santo realizam trabalhos de cura. 

No espetáculo do mamulengo, a participação do público é indispensável, de modo que a plateia muitas vezes completa o que as personagens apenas sugerem. Há roteiros básicos, mas eles são estruturas que se realizam de modo particular em cada performance, na qual o enredo é ditado pela relação com os espectadores. Sincronizados pelo ritmo da música do espetáculo, bonecos e plateia entram em sintonia por meio do improviso dos bonequeiros. Note-se ainda a presença do Mateus, integrante da trupe cuja função é precisamente aproximar palco e público. Mantendo-se do lado externo da tenda, ele anuncia o espetáculo, interage com a audiência e com os bonecos, ecoa algumas falas dos bonecos e atua como "consciência" das personagens. 

O ofício de bonequeiro e de mestre é perpassado por gerações por artistas e trupes, como os pernambucanos Zé Lopes (1950-2020) e Zé da Vina (1940-2021), que iniciam sua trajetória no grupo Mamulengo São José,  além de Fernando Gonçalves (1947) à frente do Teatro Só-Riso, na cidade pernambucana de Olinda, bem como Chico Simões e seu grupo Mamulengo Presepada, fundado na década de 1980. As gerações mais novas têm representantes como o grupo Água de Cacimba, fundado em 2019 por Mariana Acioli e Allan de Freitas.

O mamulengo tem atravessado o tempo. Sua capacidade de transitar nos contextos rurais e urbanos, na tradição e na inovação, e sua estrutura baseada igualmente na forma e no improviso fazem dessa atividade um exemplo da genialidade dos artistas populares e da criatividade nos agenciamentos coletivos em inúmeras comunidades do Nordeste e de outras regiões do país.

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