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Cinema

Cinema Negro

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 03.03.2022
Cinema negro é uma expressão que se refere a um movimento de resistência ao cinema brasileiro hegemônico por entendê-lo como veículo de representações que reproduzem o racismo estrutural existente em nossa sociedade. Em contrapartida, os filmes do cinema negro buscam destacar o protagonismo da população negra. O termo pode abarcar diferentes def...

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Cinema negro é uma expressão que se refere a um movimento de resistência ao cinema brasileiro hegemônico por entendê-lo como veículo de representações que reproduzem o racismo estrutural existente em nossa sociedade. Em contrapartida, os filmes do cinema negro buscam destacar o protagonismo da população negra. O termo pode abarcar diferentes definições, considerando os filmes que se centram sobre o tema racial e/ou os que são dirigidos por pessoas negras.

Historicamente, a atenção sobre presença do negro no cinema destaca o domínio da representação. Em 1965, o crítico e diretor de cinema David Neves (1938-1994) apresenta a comunicação “O Cinema de Assunto e Autor Negros no Brasil”, na 5ª Resenha do Cinema Latino-americano, em Gênova, Itália. Neves aponta a ausência de pessoas negras na direção concomitante à constância do “assunto negro”. Neves, ligado ao grupo do Cinema Novo, ignora a existência, na época, de filmes dos diretores Haroldo Costa (1930) e José Rodrigues Cajado Filho (1912-1966). Desconsiderando essa produção realizada dentro do esquema industrial, ao qual o Cinema Novo se opunha, a autoria negra não é vislumbrada por Neves, embora reconheça a temática negra como recorrente no cinema brasileiro.

Em 1979, o crítico e cineasta Orlando Senna (1940), também ligado ao Cinema Novo, em artigo publicado na Revista de Cultura Vozes, divide a história do cinema no Brasil em três fases: cinema branco (1898-1930), no qual se evita a representação do negro; cinema mulato (a partir de 1930), no qual a produção cinematográfica comercial explora a imagem colonial e estereotipada da população negra; e negro/povo, fase na qual o Cinema Novo toma essa população como metáfora do povo pobre, favelado e oprimido.

Na década de 1990, com o aumento na produção de filmes cujos diretores se autodeclaram negros e denunciam a forte desigualdade racial no meio cinematográfico, o debate é colocado em outra chave. Nesse contexto, crescem os questionamentos de imagens e representações da população negra no cinema brasileiro por parte de realizadores(as) negros(as) que mantém contato entre si. Em 2000, o 11º Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo traz uma mostra de diretores negros intitulada Dogma Feijoada. Durante o debate do evento, o cineasta Jeferson De (1968) lança o manifesto Gênese do Cinema Negro Brasileiro. Inspirado no Dogma 95 – movimento cinematográfico lançado por um manifesto publicado em Copenhague (Dinamarca), em 1995, proclamando um cinema menos comercial, fora dos moldes de Hollywood –, a versão brasileira o ironiza, estabelecendo sete mandamentos para o cinema negro: “1) O filme tem que ser dirigido por um realizador negro; 2) O protagonista deve ser negro; 3) A temática do filme  tem que estar relacionada com a cultura negra brasileira; 4) O filme tem que ter um cronograma exequível. Filmes-urgentes; 5) Personagens estereotipados negros (ou não) estão proibidos; 6) O roteiro deverá privilegiar o negro comum [...] brasileiro; 7) Super-heróis ou bandidos deverão ser evitados”1.

O manifesto afirma, portanto, a possibilidade de um cinema brasileiro feito por pessoas negras e condiciona o adjetivo negro ao cinema que apresentar um(a) diretor(a) pertencente a esse grupo racial. Os realizadores que o assinam compõem um grupo chamado de Cinema Feijoada, que, nos anos seguintes, promove mostras  e  debates  sobre  a presença do negro no cinema brasileiro. 

Em 2001, outra declaração na mesma linha é lançada no V Festival de Cinema do Recife, assinada, entre outros, pelos atores Milton Gonçalves (1934), Antonio Pitanga (1939) e Ruth de Souza (1921-2019) e pelos cineastas Joel Zito Araújo (1954) e Zózimo Bulbul (1937-2013). O Manifesto de Recife, como fica conhecido, reivindica o fim da segregação de atores, atrizes, apresentadores e jornalistas negros na indústria audiovisual com a criação de um mercado de trabalho para essas pessoas, a constituição de um fundo para o incentivo de uma produção audiovisual multirracial e a inauguração de uma nova estética para o Brasil que valorize a diversidade e a pluralidade de sua população.

Tanto o Dogma Feijoada quanto o Manifesto de Recife atestam a luta por representação e representatividade dos movimentos negros e presentes nos debates contemporâneos sobre o cinema brasileiro. Os manifestos reivindicam apoio governamental para esse cinema negro, entendido como cinema produzido por negros e negras e que expresse suas identidades e estéticas plurais.

Na atualidade, verifica-se a diversidade geracional e um aumento do número de protagonismos negros no cinema, favorecidos por organizações e festivais dedicados às produções cinematográficas dessa população. Em 2016, é fundada a Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), instituição que tem por objetivo fomentar e divulgar as realizações audiovisuais protagonizadas por negros e promover esses profissionais no mercado audiovisual. Em 2020, a Apan realiza o Primeiro Festival Internacional de Audiovisual Negro no Brasil (FIANb), facilitado pelo formato online que demanda menor investimento financeiro. Diretoras, como Viviane Ferreira (1985) e Camila de Moraes (1987), realizam longa-metragens almejados por tantas, mas alcançados por poucas mulheres negras.
       
Ainda que a própria definição de cinema negro seja carregada de debates, a expressão faz referência ao protagonismo negro no cinema brasileiro. Protagonismo em décadas anteriores entendido enquanto representação e temática, e debatido na contemporaneidade também na esfera da própria produção cinematográfica.

Notas

1. DE, Jeferson (Org.). Dogma Feijoada: o cinema negro brasileiro. São Paulo: Imprensa Oficial, 2005.

Fontes de pesquisa 8

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  • CARVALHO, Noel dos Santos. “Dogma Feijoada e Manifesto do Recife dez anos depois”. In: SOUZA, Edileuza Penha (Org.). Negritude, cinema e educação. vol. 3. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2014.
  • CARVALHO, Noel; DOMINGUES, Petrônio. A Representação do negro em dois manifestos do cinema brasileiro. Estudos Avançados, São Paulo, v. 31, pp. 377-394, jan.-abr. 2017.
  • DE, Jeferson (Org.). Dogma Feijoada: o cinema negro brasileiro. São Paulo: Imprensa Oficial, 2005.
  • NEVES, David E. O Cinema de assunto e autor negros no Brasil. Cadernos Brasileiros: 80 anos de abolição. Rio de Janeiro, n. 47, pp.75-81, maio-jun. 1968.
  • RIZZO, Sérgio. “Dogma Feijoada lança polêmica”. Folha de S.Paulo, 17 ago. 2000. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/acontece/ac1708200002.htm. Acesso em 31 jul. 2021.
  • RODRIGUES, João Carlos. O Negro e o cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Pallas, 2011.
  • SENNA, Orlando. Preto-e-branco ou colorido: o negro e o cinema brasileiro. Revista de Cultura Vozes. São Paulo, v. 73, n. 3, pp. 211-226, 1979.
  • SILVA, Carolinne Mendes da. O Negro no cinema brasileiro: uma análise fílmica de Rio, Zona Norte (Nelson Pereira dos Santos, 1957) e A Grande Cidade (Carlos Diegues, 1966). São Paulo: LiberArs, 2017.

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