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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Marchinhas

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 03.03.2022
Gênero musical apreciado na celebração do Carnaval de rua e de salão em cidades brasileiras, sobretudo na primeira metade do século XX e muito vinculado à classe média. Nascido no Rio de Janeiro, esse estilo musical se difunde pelo país a partir dos anos 1930, quando ganha as rádios, os discos e o cinema na voz de cantores como Francisco Alves (...

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Gênero musical apreciado na celebração do Carnaval de rua e de salão em cidades brasileiras, sobretudo na primeira metade do século XX e muito vinculado à classe média. Nascido no Rio de Janeiro, esse estilo musical se difunde pelo país a partir dos anos 1930, quando ganha as rádios, os discos e o cinema na voz de cantores como Francisco Alves (1898-1952) e Carmen Miranda (1909-1955). Caracterizadas com frequência pela irreverência, com letras curtas e versos de teor jocoso e malicioso, as marchinhas começam a perder espaço na folia de Momo na década de 1960, início da hegemonia midiática dos sambas-enredos, mas experimentam revivescência com os bloquinhos nas primeiras décadas do século atual.

Remontando aos chorões (conjuntos de orquestras populares) e às marchas executadas por bandas marciais no século XIX, um estilo aparentado ao das marchinhas passa a integrar os cortejos carnavalescos em 1899. É quando, sob encomenda, a maestrina Chiquinha Gonzaga (1847-1935) compõe, para o desfile do cordão carioca Rosa de Ouro, “Ó Abre-alas”, primeira peça musical criada sob encomenda para a folia, num ritmo que adquire o nome de marcha-rancho, de estrutura lenta, melódica e harmônica. Em 1920, já influenciado pela sonoridade das marchas portuguesas presentes nos teatros de revista, pelo aporte dos acelerados ragtime e one-step norte-americanos e pela crescente adesão da classe média, consolida-se como o segundo gênero por excelência das festas de Carnaval ao longo de quase cinco décadas, sobrepondo os concorrentes maxixe, polca, chula e tango, mas atrás do samba.

Pelo compasso binário e proeminente marcação do tempo forte, o que leva a uma literal marcha dos foliões, a marcha-rancho torna-se conhecida com o diminutivo “marchinha”. Sua consolidação representa a tentativa elitizante dos ranchos carnavalescos do Rio da belle époque, compostos por estratos intermediários da sociedade, de se afastarem dos espontâneos “blocos de sujos”, formados por gente dos setores subalternizados e, em geral, negros da população. O emprego de flautas, violões e outros instrumentos de sopro e corda impede o acesso a quem não conta com recursos para adquiri-los e que faz farra à base de batuques. É também por essa época que os bailes de Carnaval familiares incorporam o rebuscamento de orquestras no modelo jazz-band, fato que dá ao ritmo um recorte estético definitivo. Para o historiador José Ramos Tinhorão (1928-2021), tal é o instante em que as marchinhas adquirem a “consciência de gênero musical independente”. Ao contrário do samba, outra grande expressão da música urbana brasileira daquele período, a marchinha se conserva, ao longo do tempo, vinculada aos segmentos médios da sociedade. Não à toa, as letras de diversas marchinhas dão conta de personagens de um universo menos pé no chão do que os do samba: o almofadinha, a melindrosinha, o pierrô, a colombina e o arlequim, estes últimos extraídos da commedia dell’arte italiana. Já as temáticas variam do amor e das tristezas à guerra e à bebedeira, com frequentes sátiras de cunho político. Em particular em suas primeiras etapas, há marchinhas de forte conotação misógina, muitas vezes relegando as mulheres representadas nas canções a funções domésticas e passíveis de violência física e psicológica. Um exemplo explícito é “Dá Nela”, de Ary Barroso (1903-1964), marchinha vencedora do concurso de canções carnavalescas da Casa Edison em 1930.

Entre 1920 e 1921, as marchinhas “O Pé de Anjo”, “Pois Não” e “Ai, Amor” consolidam o sucesso não apenas do gênero, mas também de três de seus principais compositores: Sinhô (1888-1930), Eduardo Souto (1882-1942) e Freire Júnior (1881-1956). A estes, acrescentam-se José Francisco de Freitas (1897-1956) e, mais tarde, Lamartine Babo (1904-1963), Braguinha (1907-2006), Alberto Ribeiro (1902-1971) e Haroldo Lobo (1910-1965). Reinando nas folias das festas de salão atravessadas por batalhas de confete, as ditas “músicas de Carnaval” logo atiçam o tino comercial das gravadoras. O cantor Francisco Alves cristaliza o formato em disco lançado pela Odeon às vésperas dos festejos de Momo de 1927, interpretando duas canções de Sinhô, entre as de outros artistas.

Durante a década seguinte, a cantora Carmen Miranda lança-se ao estrelato com a marchinha “Ta-hí (Pra você gostar de mim)”, de Joubert de Carvalho (1900-1977), com arranjos orquestrais de Pixinguinha (1897-1973). Em 1936, a Pequena Notável expande o público das marchinhas para o exterior no filme Alô, Alô Carnaval (1933), firmando-se como uma das mais conhecidas intérpretes do gênero. Naquele ano, Heitor dos Prazeres (1898-1966) e Noel Rosa (1910-1937) compõem um dos clássicos das marchinhas, “Pierrô apaixonado”. Outros sambistas, tais quais Barroso, escrevem marchinhas, denotando intercâmbios entre os ritmos. Destacam-se, ainda, os cantores Mário Reis (1907-1981), Aracy de Almeida (1914-1988) e Emilinha Borba (1923-2005), voz da marchinha “Chiquita bacana” (1949), de autoria de João de Barro, pseudônimo de Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, e Alberto Ribeiro. Esta dupla, por sinal, assina longa listagem de marchinhas carnavalescas exitosas, entre as quais “Yes, Nós Temos Banana”, “Balancê”, “Tem Gato na Tuba”, “Touradas em Madri” e “Pirata da Perna de Pau”. De Lamartine Babo, a mais difundida é a polêmica “O Teu Cabelo Não Nega”, de 1932, de teor racista e sexista e parcialmente plagiada da dupla Irmãos Valença, de Recife. “Aurora”, das mais tocadas marchinhas no Brasil, vem da parceria entre os compositores Roberto Roberti (1915-2004) e Mário Lago (1911-2002).

Nos anos 1960, as marchinhas enfrentam sintomático declínio no Carnaval, decênio que marca a ascensão da ditadura militar ao poder e a maior atenção midiática aos sambas-enredos. Apesar do ocaso, artistas como João Roberto Kelly (1938), Zé Kéti (1921-1999) e Vinicius de Moraes (1913-1980) buscam manter vivo o gênero, lançando potentes marchas, destacando-se “Máscara Negra” e “Marcha da Quarta-feira de Cinzas”. Caetano Veloso (1942) também contribui com a paródica “Filha da Chiquita Bacana” em 1968. Nos anos 1980, a queda do regime militar no Brasil reanima os carnavais de rua, que pouco a pouco resgatam as tradições dos blocos de marchinhas, movimento que se catalisa na década de 2010.

Surgidas como um contraponto um tanto classista às alegrias espontâneas do Carnaval de rua no início do século XX, as marchinhas ganham salões, clubes e festas e paulatinamente popularizam-se para além de suas fronteiras cariocas (e brancas), com a difusão radiofônica e da indústria fonográfica desde os anos 1930. Expressão de artistas de destaque da música brasileira, esse estilo musical se confirma, apesar de períodos de revés, como o segundo principal gênero carnavalesco do país.

Fontes de pesquisa 6

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  • ARAÚJO, Carmem; FERREIRA, Maria de Fátima de Andrade. “Marchinhas de Carnaval: um recurso no combate aos preconceitos de raça, etnia e gênero na escola”. In: XII Colóquio Nacional e V Colóquio Internacional do Museu Pedagógico, 2017, ISSN 2175-5493. Disponível em: https://core.ac.uk/download/pdf/229292664.pdf. Acesso em: 13 ago. 2021.
  • DINIZ, André. Almanaque do Carnaval: a história do Carnaval, o que ouvir, o que ler, onde curtir. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
  • ERICEIRA, Ronald Clay dos Santos. “As mulheres nas letras das marchinhas carnavalescas (1930-1940)”. Textos Escolhidos de Cultura e Arte Populares, Rio de Janeiro, v. 10, n. 2, nov. 2013. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/tecap/article/view/10218/8000. Acesso em: 13 ago. 2021.
  • NETO, Lira. Uma história do samba: as origens. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
  • OLIVEIRA, José Carlos. Especial Marchinhas 2 – Temática: Crônica Social em Forma de Música, Câmara dos Deputados, Brasília, Disponível em: https://www.camara.leg.br/radio/programas/331609-especial-marchinhas-2-tematica-cronica-social-em-forma-de-musica-1002. Acesso em: 12 ago. 2021.
  • TINHORÃO, José Ramos. Pequena história da música popular: da modinha à lambada. 6. ed. São Paulo: Art Editora, 1991.

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