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Enciclopédia Itaú Cultural
Dança

Coco

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 26.10.2022
O coco dançado, coco de roda ou samba de coco é uma expressão cultural afro-brasileira que reúne música instrumental, canto, poesia e dança e está tradicionalmente presente nas regiões Nordeste e Norte do Brasil. Suas performances são realizadas em rodas em locais variados, como em ruas, praças, terreiros de religiões de matriz africana e interi...

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O coco dançado, coco de roda ou samba de coco é uma expressão cultural afro-brasileira que reúne música instrumental, canto, poesia e dança e está tradicionalmente presente nas regiões Nordeste e Norte do Brasil. Suas performances são realizadas em rodas em locais variados, como em ruas, praças, terreiros de religiões de matriz africana e interior das casas de rezas de algumas comunidades indígenas nordestinas.

Há evidências de que o coco se origina como música de trabalho. Segundo mestras e mestres do coco, a manifestação deriva do manuseio rítmico da quebra do fruto, que teria sido mimetizado e secularizado por gestos do corpo, como as mãos encovadas em palmas rítmicas e os quadris girando em movimentos que descrevem um coco. A brincadeira do coco também se configura como música de trabalho em diferentes atividades, como na construção de casas. Em todos os casos, há ênfase no trabalho coletivo, tanto o da performance do coco quanto daqueles que evoluem para uma roda de coco, de modo que ele está sempre relacionado à produção e manutenção de vínculos comunitários.

O coco é dançado em roda e tem a umbigada como movimento constante. Essa coreografia é basicamente executada em pares. Entretanto, em diferentes cocos, há variedades coreográficas ligadas a diferenças estilísticas e a exigências do texto, o que o caracteriza como uma arte que produz sentido por uma trama complexa entre canto, poesia, dança e música. Em algumas regiões, o coco é dançado com sandálias de madeira, que atuam também como instrumento de percussão que conectam intimamente o ritmo dos instrumentos musicais às formas coreográficas de dançarinas e dançarinos. Algumas figuras estão ligadas metaforicamente a determinadas atividades de trabalho, como o pisado do coco rebatido, ou trupé, que mimetiza o movimento corporal de pisar o barro que será moldado para a construção de determinados tipos de casas. Uma das principais representantes desse estilo é a banda pernambucana Samba de Coco Raízes de Arcoverde, cujos membros marcam o ritmo acelerado com seus tamancos de madeira sobre pequenos tablados.

O repertório do coco é constituído tanto por peças existentes previamente quanto por improvisos. Em ambos os casos, devido à singularidade das performances, cada coco é único, um acontecimento derivado de um contexto específico. Tem uma composição orgânica entre os elementos artísticos, de modo que não há hierarquia entre ritmo, melodia, dança e texto. O ritmo tradicional do coco, com forma binária baseada em uma célula sincopada característica que se repete indefinidamente, captura todos os coquistas para a performance. Uma vez integrados, os participantes produzem alterações por meio de acentuações variadas e de improvisos no texto, nos instrumentos ou na dança. Tal dinâmica de repetição e variação é reforçada pela estrutura melódica, na qual predominam relações intervalares pouco direcionadas à constituição de grandes momentos de tensão e resolução, recurso que permite a manutenção de um tempo circular.

Os instrumentos musicais mais utilizados no coco são a zabumba, o pandeiro e o ganzá, que encerram a formação do terno, encontrado em diversas manifestações culturais. Em algumas regiões é comum a presença ainda do bumbo, da caixa (ou tarol) e da puíta (tambor de fricção). O canto pode ser entoado no padrão responsorial, em que um solista lança um verso que é respondido pelo coro em uníssono, ou pela embolada, na qual dois cantores solistas se intercalam em versos de igual medida métrica, podendo ser executados em forma de disputa.

Embora as rodas de coco se formem de modo espontâneo, sem necessariamente estarem vinculadas a outras manifestações, frequentemente são performadas no interior de festividades de cunho profano ou sagrado. Há, por exemplo, cocos em festas juninas, que incluem a performance de sambas que versam sobre os santos comemorados nesse ciclo festivo, como São João, São Pedro e Santo Antônio. Os cocos também estão presentes em alguns templos da jurema sagrada e demais religiões de matriz africana, quando podem figurar como pontos ou cânticos sagrados, como é o caso do coco apresentado pelo Grupo Bongar e pela Banda Cultural Coco de Umbigada, ambos vindos de terreiros de candomblé localizados em Olinda (PE).

Como o jongo, o congo, o caxambu, o congado e outras expressões artísticas afrobrasileiras, o coco é uma atividade que agrega a criatividade dos praticantes para a produção de obras coletivas. É importante ressaltar o trabalho das mestras e dos mestres que, por meio da tradição oral, não apenas mantêm vivo o coco em suas comunidades como também formam as gerações seguintes nessa arte. Cabe destacar o trabalho das mestras pernambucanas Selma do Coco (1930-2015)Lia do Coco (1948-2021) e Cila do Coco (1939).

O coco ainda dá provas de sua vivacidade em obras de artistas contemporâneos, como a compositora, cantora e percussionista pernambucana Alessandra Leão (1979) e os grupos, também de Pernambuco, Pandeiro do Mestre e Comadre Fulozinha. 

Entre tantas outras manifestações culturais existentes no território brasileiro, o coco afirma a resistência dos povos tradicionais. Por meio das rodas de dança e da música, ele atravessa séculos preservando os modos de vida das populações quilombolas e indígenas, que igualmente se apropriam e introduzem elementos novos ao gênero tal como o conhecemos atualmente. Por esses motivos, o coco é um elemento da memória se fazendo e refazendo incessantemente

Fontes de pesquisa 3

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  • ARAÚJO, Ridalvo F.; QUEIROZ, Sônia. Coco dançado e candombe mineiro: tradições performáticas banto-brasileiras. Boitatá. n. 18, jul-dez 2014. Disponível em: https://www.uel.br/revistas/uel/index.php/boitata/article/view/31746. Acesso em 1 nov. 2021.
  • BARRETO, Janaina Lucene Mendonza. Coco de roda Novo Quilombo: da roda ao centro, imagens e símbolos de uma tradição. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal da Paraíba/ Universidade Federal de Pernambuco/ Programa Associado de Pós-Graduação em Artes Visuais. João Pessoa, 2017. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/bitstream/tede/9773/3/Arquivo%20Total.pdf. Acesso em 1 nov. 2021.
  • SOBRINHO, Paulo Fernandes Rosa. Sentidos e sonoridades múltiplas na música do coco do Recife e região metropolitana. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Pernambuco. CFCH, Antropologia, 2006. Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/1057. Acesso em 1 nov. 2021.

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