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Congada

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 10.09.2021
Congada – ou congado, congo, baile de congo, ticumbi, reisado, para citar alguns nomes entre muitos outros que recebe nas diversas regiões do Brasil em que se manifesta – é uma atividade artística, religiosa e política de matriz bantu. Em geral, é praticada por comunidades remanescentes de quilombos, exibindo tramas complexas dramatizadas por re...

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Congada – ou congado, congo, baile de congo, ticumbi, reisado, para citar alguns nomes entre muitos outros que recebe nas diversas regiões do Brasil em que se manifesta – é uma atividade artística, religiosa e política de matriz bantu. Em geral, é praticada por comunidades remanescentes de quilombos, exibindo tramas complexas dramatizadas por reis, rainhas, secretários, mestres, guerreiros, que entrelaçam episódios míticos e políticos, do tempo passado e contemporâneo. Faz parte da devoção das irmandades afro-brasileiras a santos católicos, tais como Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia, São Baltazar e Nossa Senhora das Mercês, aos quais são dedicados cantos, danças e ritmos de tambores. 
 
Os grupos de congadeiros são denominados ternos, bandas, guardas, batalhões e cortes de Congo, Moçambique, Marujos e Catopés (ou Catupés) e se distinguem quanto à organização, à indumentária, aos instrumentos musicais, aos ritmos e às dramatizações rituais. Tais elementos fazem referência a povos e tradições africanas e afro-diaspóricas específicas. 
 
As dramatizações remetem a histórias dos santos, cortejos e rituais de entronização do rei de Congo, relações entre diferentes reinos e conflitos pelo trono. Conforme uma das versões mais recorrentes em Minas Gerais, negros escravizados avistam uma imagem de Nossa Senhora do Rosário nas águas do mar (ou no cume de uma pedra ou no deserto). Em seguida, brancos a resgatam e entronizam em uma capela construída por escravizados, mas na qual negros são proibidos de entrar. Porém, a imagem volta ao mar. Uma guarda de Congo, ricamente adornada, canta e dança para a Santa, que é então avistada, mas não deixa as águas. Apenas a humilde guarda de Moçambique, com pés descalços e tambores, consegue atrair a santa.
 
A referência das congadas a ritos políticos repercute nos séculos XX e XXI. Na composição entre versos fixos e improvisados, emergem composições de crítica social, variando entre aberta ou codificada. Nas comunidades remanescentes de quilombos do Sapê do Norte, no estado do Espírito Santo, é frequente a denúncia do racismo e das pressões territoriais sofridas cotidianamente por aquela população. No baile de congo a São Benedito, ou ticumbi, dramatiza-se um conflito entre as nações Congo e Bemba pelo protagonismo no festejo a São Benedito, em que os primeiros são vitoriosos.
 
Em geral, e ainda que variando consideravelmente, as congadas apresentam estruturas organizacionais complexas. Além disso, em algumas regiões, fazem parte de um complexo maior de manifestações culturais, como é o caso das congadas na Festa de Nossa Senhora do Rosário em Catalão, no estado de Goiás. Nesse contexto, diversos ternos de congo atuam separadamente, como nas visitas às casas da comunidade, e em um grande aglomerado na congada. Ali, para além das organizações internas de cada um dos ternos, erige-se outra organização, abarcando todos os praticantes. A festa é compatibilizada em contextos que vão do espaço interno da igreja à rua, variando também o protagonismo entre as autoridades católicas e as autoridades congadeiras. No entanto, é ampla a participação conjunta, seja nas missas e novenas, seja nos cortejos da santa e na congada.
 
É importante ressaltar que, apesar das referências diretas à África, elas passam por elaborações na experiência do sequestro em terras africanas e posterior processo de escravização no Brasil. Assim, sobressaem nas histórias narradas formas de celebração das nações africanas como um contraponto à subalternidade vivida no cativeiro. Por meio da criatividade dos congadeiros, costurando versos tradicionais, novas composições e improvisos, une-se o passado histórico das lutas contra a escravidão e pela liberdade às vivências contemporâneas das comunidades negras.
 
Fontes documentais dão testemunho da ocorrência da coroação de reis e rainhas congos desde, pelo menos, 1674, em Recife. Tais registros vinculam esses eventos à devoção afro-brasileira de santos católicos organizados por irmandades ou confrarias religiosas sob a supervisão eclesiástica. No entanto, é bastante variado o grau de abertura das autoridades da Igreja à devoção negra dos santos católicos. Se em algumas paróquias, sobretudo aquelas tradicionalmente sensíveis à religiosidade de matriz africana e ao catolicismo popular, as congadas são bem-vindas, em outras ainda há restrições ou proibições.
 
A congada é reconhecida como um importante meio de desenvolvimento das tradições afro-diaspóricas no Brasil. Sua permanência e reverência à ancestralidade expressa o conhecimento e a luta política do povo negro por meio da tradição oral, da oralitura e dos saberes artísticos, espirituais e filosóficos.

Fontes de pesquisa 7

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  • BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A Festa do Santo Preto. Rio de Janeiro: Funarte; Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 1985.
  • CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura oral no Brasil. São Paulo: Global, 2006.
  • COSTA, Patrícia Trindade Maranhão. As Raízes da Congada: a renovação do presente pelos filhos do rosário. Tese (Doutorado) Departamento de Antropologia. Universidade de Brasília, Brasília, 2006.
  • MARTINS, Leda Maria. Afrografias da Memória: o reinado do Rosário no Jatobá. São Paulo: Perspectiva; Belo Horizonte: Mazza Edições, 1977.
  • NASCIMENTO, Aline Meireles. Reis em devoção, o Ticumbi de Conceição da Barra: Ritual, memória e tradição. Dissertação (Mestrado) Centro de Artes, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2018.
  • SANTOS, Vanilda Honória dos. Apontamentos de Antropologia Filosófica afrodiaspórica das Congadas no Brasil. Revista Ítaca - UFRJ, Rio de Janeiro, n. 36, 2020. Especial Filosofia Africana. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/Itaca. Acesso em: 26 jul. 2021.
  • SILVA, Rubens Alves da. A performance congadeira na missa das sete e as religiões afrobrasileiras no sertão de Minas Gerais. In: SILVA, Rubens Alves da. A atualização de tradições: performances e narrativas afro-brasileiras. São Paulo: LCTE Editora, 2012.

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