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Enciclopédia Itaú Cultural
Dança

Cururu

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 21.01.2021
Manifestação popular que envolve dança e música, encontrada na região Centro-Oeste e parte do Sudeste do Brasil, nos estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo, com predominância nas áreas rurais. A dança surge de um provável resultado do encontro cultural entre povos indígenas e europeus. É tradicionalmente dançada por homens...

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Manifestação popular que envolve dança e música, encontrada na região Centro-Oeste e parte do Sudeste do Brasil, nos estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo, com predominância nas áreas rurais. A dança surge de um provável resultado do encontro cultural entre povos indígenas e europeus. É tradicionalmente dançada por homens, que em roda executam passos com sapateados e palmas. A música é apresentada por um pequeno grupo de cururueiros que, empunhados de suas violas de cocho, ganzás, tamborim, mocho e adufe, tocam canções sertanejas e entoam versos que podem ser tanto de reverência religiosa quanto de temas prosaicos lançados como desafios entre os brincantes. 

A utilização do termo cururu para designar o folguedo que mescla dança, toadas e repentes, em que se declamam versos sagrados/religiosos e profanos, ocorre formalmente pela primeira vez em descrições de viajantes e etnólogos estrangeiros, no século XIX, nas quais é relatada a existência dessa expressão cultural cabocla na região central do país. Contudo, há pesquisas acadêmicas que demonstram que a origem da dança, e de sua nomenclatura, encontra-se na etimologia do tronco linguístico tupi-guarani e em rituais indígenas anteriores à colonização europeia. Nas línguas tupis, o vocábulo cururu significa sapo ou sapo grande, o que explica uma dança cuja coreografia mimetiza o movimento do pulo do sapo.  

Assim como as múltiplas hipóteses para sua origem, as diferentes expressões do cururu apresentam especificidades de acordo com a área em que a dança se manifesta. O sociólogo, crítico literário e professor Antonio Candido (1918-2017) defende a ideia de que nas regiões de abrangência das etnias indígenas do tronco tupi-guarani, inegavelmente atravessadas pelos empreendimentos coloniais das missões jesuíticas, há uma apropriação da dança ritualística nativa pelos missionários católicos como uma maneira de atrair os povos indígenas para a catequização. Dessa maneira, acredita-se, ocorre a disseminação do cururu, a partir do médio Tietê, no estado de São Paulo, para outras áreas da região Centro-Oeste. 

A expressão do cururu mato-grossense, longamente pesquisada pelo violeiro e compositor Roberto Corrêa (1957) e homenageada em seu disco Cururu e Outros Cantos das Festas Religiosas/MT (2009), é considerada uma tradição fundante da sociedade do estado de Mato Grosso. Segundo Corrêa, é por meio do cururu que se consolida a importância de um dos mais sólidos símbolos da cultura da região, em especial em sua porção pantaneira: a viola de cocho. Instrumento fabricado artesanalmente de uma tora de madeira robusta e com formato semelhante ao recipiente utilizado para a alimentação de animais, a viola de cocho é composta de cinco ou quatro cordas e representa a engenhosidade do sertanejo em criar possibilidades para a expressão artística e cultural de sua comunidade. No ano de 2004, é reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial Brasileiro.

É pelo pequeno conjunto formado pela viola de cocho, ganzá, tamborim, mocho e adufe que se apresentam as rodas de cururu mato-grossense, em especial nos meses devotados aos santos Pedro, Antônio e João (período das tradicionais festas juninas brasileiras), mas também em comemorações como aniversários, casamentos e celebrações para cumprimento de promessas realizadas a outros santos católicos. Em ritmo feito por um compasso binário simples (2/4)1, os cururueiros iniciam a dança com uma louvação ao santo homenageado, ajoelhando-se diante da imagem ou do altar. Em seguida, a dança acontece com o grupo de homens organizado em círculo, que gira sempre no sentido horário, acompanhando a direção do braço das violas. Assim como no ritmo binário da música, o grupo executa dois passos longos seguidos de dois passos curtos e, com a frequência ditada pela espontaneidade dos dançantes, são realizados também movimentos livres e mais amplos, que segundo o pesquisador Anderson Rocha “poderiam ser considerados os solos dos cururueiros, que o fazem um de cada vez ou em duplas, às vezes se dirigindo ao centro da roda”2.

Assim como muitas das manifestações populares tradicionais existentes no país, o cururu se mantém vivo pela dedicação dos brincantes, os cururueiros, em preservar a dança como um traço identitário importante para suas comunidades. Suas diferentes expressões, encontradas em vasta extensão territorial, mostram que, ensejada por algumas variações e adaptações, o cururu é uma prática cultural perene que demarca a pluralidade e a vivacidade dos povos sertanejos brasileiros.

Notas:

1. O compasso binário simples (2/4) consiste em dois pulsos com duração equivalente a ¼ (uma semínima) cada um. Em outras palavras, cada um dos tempos do compasso binário pode ser dividido em duas notas. 

2. ROCHA, Anderson. Festa ribeirinha: cenas de um Brasil antigo nas práticas do cururu mato-grossense. 2015. 242 f., il. Tese (Doutorado em História) – Universidade de Brasília, Brasília, 2015. p. 55

Fontes de pesquisa 7

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  • CANDIDO, Antonio. Cururu. Remate de Males – Unicamp, Campinas, SP, 3 dez. 2012. p. 37-58 Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/remate/article/view/8635987. Acesso em: 21 jan. 2021.
  • CORRÊA, Roberto. Cururu e Outros Cantos das Festas Religiosas/MT. [Rio de Janeiro]: Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP), 2009. Disco/CD.
  • CORRÊA, Roberto. Site Oficial do Artista. [S.l., s.d.]. Disponível em: http://robertocorrea.com.br/. Acesso em: 1 out. 2020.
  • FERREIRA, Marta Martines (2019). Cururu e siriri – mato-grossenses – uma reflexão sobre seu processo histórico e legitimação. In: M. L. Martins & I. Macedo (Eds.), Livro de atas do III Congresso Internacional sobre Culturas: Interfaces da Lusofonia (p. 86-98). Braga: CECS, [s.d.].
  • INSTITUTO DO PATRIMÔNIO ARTÍSTICO E HISTÓRICO NACIONAL (IPHAN). Modo de fazer Viola-de-cocho. Brasília, 2009. 112 p. (Dossiê Iphan; 8).
  • ROCHA, Anderson. Festa ribeirinha: cenas de um Brasil antigo nas práticas do cururu mato-grossense. 2015. 242 f., il. Tese (Doutorado em História) – Universidade de Brasília, Brasília, 2015. Disponível em: https://repositorio.unb.br/handle/10482/19061. Acesso em: 21 jan. 2021.
  • VIANNA, Letícia. O caso do registro da viola-de-cocho como patrimônio imaterial. Sociedade e Cultura, v. 8, n. 2, 5 dez. 2007. Disponível em https://www.revistas.ufg.br/fcs/article/view/1011. Acesso em: 21 jan. 2021.

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