Artigo da seção termos e conceitos Fotografia documental

Fotografia documental

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  

Fotografia documental é um gênero da fotografia atrelado à noção do real, uma imagem que atua como registro de determinado evento, situação, local, indivíduo ou grupo. A estética documental parte da realidade para compor testemunhos sobre um tema social e histórico, descrever condições humanas ou territoriais e constituir uma imagem realista crítica. 

A origem da expressão fotografia documental é atribuída ao historiador da arte americano Beaumont Newhall (1908-1993), porém o termo documental designado a um gênero aparece anteriormente na literatura cinematográfica, utilizado para identificar um tipo de narrativa fundada na realidade. No cinema, o termo permanece praticamente imutável, ao passo que na fotografia ele se transforma de acordo com o próprio percurso histórico e as diferentes relações estabelecidas com o real.

O primeiro discurso sobre a fotografia1 aborda a verossimilhança, que “procede da sua própria natureza técnica, (...) que permite fazer aparecer uma imagem de maneira ‘automática’, ‘objetiva’, quase ‘natural’, (...) sem que a mão do artista intervenha diretamente”2. Por causa dessa considerada ausência de gênio, a fotografia é colocada em oposição à obra de arte e inicialmente assume a função de conservação do passado, auxiliar das ciências, visualização dos territórios e documentação dos elementos do mundo. “O lar conceitual e epistemológico perfeito para a fotografia do século XIX (...) foram os trópicos, e foi no Império brasileiro, (...) que a fotografia atuou como elemento fundamental no projeto de uma nação moderna”3

A partir da década de 1850, com o incentivo de Dom Pedro II, são desenvolvidos projetos fotográficos com a exclusiva intenção de retratar as paisagens brasileiras, organizados em Álbuns-Atlas iconográficos como o Brazil Pittoresco (1861), do fotógrafo francês Victor Frond (1821-1881); Doze Horas em Diligência: Guia do Viajante de Petrópolis a Juiz de Fora (1872), do alemão Revert Henrique Klumb (1825-1886); Memorando Pitoresco de Pernambuco (1859), do francês Auguste Stahl (1824-1877); Rio de Janeiro et ses Environs (1868), do suíço Georges Leuzinger (1813-1892); Vistas de Petrópolis e Rio de Janeiro (1885), de Marc Ferrez (1843-1923); e o Álbum Comparativo de São Paulo de 1862 e 1887 (1887), de Militão Augusto de Azevedo (1837-1905).

Antes do anos 1920, o termo fotografia documental não constitui um gênero estético e é considerado a negação da obra de arte. Por volta da década de 1930, esses dois pólos inconciliáveis se encontram deliberadamente associados em inúmeros projetos de fotógrafos que compõem fotografias realistas com pretensões artísticas. Assim, a fotografia documental se distancia da relação de fidelidade com o real e passa a ser considerada transformadora da realidade, abarcando em si a noção de honestidade moral em relação ao tema de trabalho. 

No Brasil, a autonomia de expressão da imagem fotográfica acontece num duplo movimento, de um lado pelos esforços das associações de fotoamadores (os fotoclubes) e, de outro, pela consolidação do fotojornalismo durante os anos 1950. Nota-se essa relação nos trabalhos do fotógrafo húngaro Thomas Farkas (1924-2011), integrante do Foto Cine Clube Bandeirante, que desenvolve novos ângulos de captura como parte da experiência moderna proposta pelo grupo e passa a aplicar esse ponto de vista nos temas sociais, como a série sobre a vida dos moradores dos bairros populares do Rio de Janeiro e as fotografias dos trabalhadores candangos construindo a cidade de Brasília. Outro movimento importante para a fotografia documental no Brasil são os projetos etnográficos dos franceses Marcel Gautherot (1910-1996) e Pierre Verger (1902-1996), que influenciam gerações de fotógrafos, como a suíça Claudia Andujar (1931), a inglesa Maureen Bisilliat (1931), Milton Guran (1948), o espanhol Miguel Rio Branco (1946), Mario Cravo Neto (1947-2009) e Luiz Braga (1956).

A partir da década de 1970, com a expansão do mercado das artes e o desenvolvimento da noção indicial da imagem fotográfica, o termo fotografia documental passa definitivamente para o campo artístico. Um exemplo são os trabalhos de Sebastião Salgado (1944), cujas séries fotográficas são pensadas para serem expostas nos centros de artes, museus, galerias e edições de artista. Começa também um movimento de renovação da fotografia documental, em que artistas-fotógrafos propõem outras estratégias para abordar temas sociais e históricos, como a captura dos restos e rastros  dos eventos ou a apropriação das imagens dos arquivos. Outros propõem a revisão do próprio termo, como os fotógrafos João Castilho (1978), Pedro David (1977) e Pedro Motta (1977), que empregam o conceito de documentário imaginário para designar o tipo de fotografia presente na série Paisagem Submersa (2002-2007).

A relação intrínseca com a noção do real e o desenvolvimento tecnológico faz com que a definição do gênero fotografia documental permaneça em transformação. A legitimação artística, porém, fixa algumas operações desse gênero, que caminha na contramão da urgência. Trata-se, então, de um tipo de escrita autoral composta de um grupo de imagens desenvolvidas com base em um tema histórico e social preciso. 

O resultado imagético é um conjunto de fotografias ao mesmo tempo realistas e críticas, cuja abordagem estética se entrelaça com o posicionamento de quem a executa. Assim, o documental se serve das faculdades artísticas para vivificar os fatos descritos nas fotografias e propor um debate sobre assuntos caros para a sociedade contemporânea.

Notas

1. Relatório de François Arago (1786–1853) sobre o Daguerreótipo, lido na sessão da Câmara do Deputados, no dia 3 de julho de 1839, em Paris, França.

2. DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico. Campinas: Papirus, 1993.  p. 27.

3. BRIZUELA, Natalia. Fotografia e Império: paisagens para um Brasil moderno. São Paulo: Companhia das Letras; Instituto Moreira Salles, 2012. p. 18.

Fontes de pesquisa (12)

  • BAPTISTA, Eugênio Sávio Lessa. Fotojornalismo Digital no Brasil: A Imagem na Imprensa da Era Pós-Fotográfica. 2001. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Cultura) Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2001.
  • BAQUE, Dominique. La photographie plasticienne, l’extrême contemporain. Paris: Éditions du Regard, 2004.
  • BRIZUELA, Natalia. Fotografia e Império: paisagens para um Brasil moderno. São Paulo: Companhia das Letras; Instituto Moreira Salles, 2012.
  • COTTON, Charlotte. La photographie dans l’art contemporain. Paris: Thames & Hudson, 2005.
  • DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico e outros ensaios. São Paulo: Campinas: Papirus, 1993. 362 p., il. p&b.
  • ÉLOGE du vertige. Photographies de la collection Itaú, Brésil. São Paulo: Itaú Cultural, 2012.
  • EVANS, Walker. The hungry eye. New York: Thames & Hudson, 1993
  • LUGON, Olivier. Le style documentaire: D’August Sander à Walker Evans, 1920-1945. Paris: Éditions Macula, 2011.
  • NEWHALL, Beaumont. The history of photography. New York: The Museum of Modern Art, 1982.
  • NEWHALL, Beaumont. Documentary approach to photography. Parnassus, [s.l.], 1938.
  • POIVERT, Michel. La photographie contemporaine. Paris: Flammarion, 2002.
  • ROUILLE, André. La photographie. Paris: Éditions Gallimard, 2005.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • FOTOGRAFIA documental. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo14342/fotografia-documental>. Acesso em: 25 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7