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Artes visuais

Carimbó

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 13.01.2021
Gênero musical, dança e expressão artística de origem amazônica, em particular no nordeste do estado do Pará, o carimbó conta com matrizes africanas, indígenas e europeias historicamente desenvolvidas por setores sociais marginalizados, entre os quais comunidades pesqueiras, rurais e suburbanas. 

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Gênero musical, dança e expressão artística de origem amazônica, em particular no nordeste do estado do Pará, o carimbó conta com matrizes africanas, indígenas e europeias historicamente desenvolvidas por setores sociais marginalizados, entre os quais comunidades pesqueiras, rurais e suburbanas. 

A hipótese é de que o nome advém do tupi curi m’bó: em português, pau oco escavado. “Curimbó” – ou korimbó – também designa o grande tambor tocado nas apresentações do ritmo, com o músico “batedor” envolvendo-o com as pernas, sentado nele. Maracas, milheiros, cavaquinho, rabeca, banjo, clarineta e flauta podem completar o repertório orquestral que embala danças em roda ou de casais em passos curtos, em canções com temas relacionados ao cotidiano de trabalho na lavoura e na pesca e à fauna e à flora.

Menções a carimbó, ligando-o a festas, folguedos e apresentações de afrodescendentes, já são publicadas no século XIX, mas de modo depreciativo e persecutório. Entre 1848 e 1880, o Código de Posturas Municipais de Belém1 estipula a proibição, sob o risco de multa, de “batuques ou sambas” e também de “tocar tambor, carimbó, ou qualquer outro instrumento que perturbe o sossego durante a noite”. 

Posteriormente, nas três primeiras décadas do século XX, o termo designa não apenas instrumentos sonoros, mas também a dança e a música marcadas por percussão e improviso nos cordões carnavalescos dos subúrbios de Belém, capital paraense, em bairros como Pedreira e Umarizal. Descendente de escravizados, o violonista Antônio Teixeira do Nascimento Filho, o Tó Teixeira (1893-1982), compõe, para o cordão “Pretinhos de Moçambique”, uma canção com o título de “Carimbó” já em 1908.

Antes atacadas e menosprezadas pelas elites econômicas e políticas, as variadas expressões sociais, culturais, artísticas e religiosas vinculadas ao carimbó paulatinamente ganham a apreciação de outras camadas da sociedade paraense a partir dos anos 1920. Porém, a aproximação se dá em perspectiva de folclorismo, com intelectuais, literatos e jornalistas em constante esforço e disputa para construir certa “autenticidade” do gênero, muitas vezes de maneira a fixá-lo como exótico e capaz de expressar a suposta “síntese das três raças” que marca a sociedade brasileira de modo harmonioso. 

De qualquer forma, o carimbó, oriundo das festas populares de vizinhança, dos cordões carnavalescos e das celebrações juninas, assim como de terreiros afrorreligiosos, ao adquirir cada vez mais contornos de representatividade cultural, enfim penetra a indústria musical e midiática. Na década de 1970, o mercado fonográfico paraense grava discos de carimbó que projetam artistas como Mestre Verequete (1916-2009), Ely Farias, Alípio Martins (1944-1997), Candango do Ypê, Pinduca (1937) e Populares de Igarapé-Miri.

Nas comunidades interioranas e suburbanas do Pará, boa parte do patrimônio do carimbó permanece centrado na transmissão de saberes e práticas através da oralidade, entre as gerações. Outro aspecto relevante é sua dimensão devocional, bastante associada à figura de São Benedito, santo negro do catolicismo celebrado por comunidades afrodescendentes em diversas regiões do país. 

Embora não haja possibilidade de se rastrear o local “exato” da gênese do carimbó, diversos mitos de origem preservados na memória social de comunidades espalhadas pelo estado dão conta de suas raízes em comunidades negras, em contato com culturas ameríndias da Amazônia e ibéricas. Outro caráter fundamental das expressões memorialísticas do carimbó é a preocupação com o registro da trajetória de pessoas comuns, em geral os mestres e as tias, que, ao longo do tempo, colaboram para sua reprodução, suas festas, sua realização. Alguns desses expoentes no Pará são Mestre Lucindo (1908-1988) e Mestre Cantídio, em Marapanim; Tia Pê, em Vígia; e Américo Gago, em Irituia.

A formação de carimbó mais frequente é a que reúne o “cantador” – responsável pelos versos principais, em seguida respondidos por quem está presente –, o “tirador” – o que dá início ao canto –, o “batedor” – que toca o tambor – e os “dançadores” – quem dança o carimbó. Nas últimas décadas, tem-se recorrido a uma diferenciação entre o carimbó de raiz, tradicional, e o carimbó moderno, urbano, praticado em Belém e que assimila guitarras elétricas, baixos e baterias, visto por parte da crítica e de pesquisadores como mais comercial do que o primeiro, praticado em comunidades menores do interior. 

A Zona do Salgado, na costa nordeste do Pará, e a Ilha do Marajó costumam, com frequência, ser representadas midiaticamente na posição de polos do carimbó, porém é importante ressaltar que o gênero musical e a dança estão espalhados por todo o estado do Pará – e até do vizinho Maranhão –, com variações. Em 2014, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registrou o carimbó como patrimônio cultural imaterial brasileiro, após pesquisa feita com cerca de 200 grupos carimbozeiros paraenses em atividade.

Fortemente vinculado a certa identidade paraense, o carimbó expressa a força narrativa dos “de baixo” na interpretação da sociedade em que se inserem, seja nas comunidades pesqueiras, seja nas agricultoras ou nas periferias de um grande centro urbano como Belém. Atravessa o século XX para se consolidar como uma das principais expressões artísticas populares do país.

 

Nota:

1. Cf. COSTA, Antonio Maurício Dias da. A produção da “música cabocla”: a polifonia formadora do Carimbó nas representações de literatos, jornalistas e folcloristas no Pará (1900-1960). História (São Paulo), Franca, v. 34, n. 1, p. 247, jan./jun. 2015.

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