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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Samba

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.01.2021
A palavra samba, de origem bantu, designa no Brasil contemporâneo um conjunto de expressões musicais que constituem a principal vertente da música popular do país. Consolida-se como gênero sonoro e ritmo de dança nas primeiras décadas do século XX, no Rio de Janeiro, com base na mistura de manifestações sociais e culturais de origem africana e a...

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A palavra samba, de origem bantu, designa no Brasil contemporâneo um conjunto de expressões musicais que constituem a principal vertente da música popular do país. Consolida-se como gênero sonoro e ritmo de dança nas primeiras décadas do século XX, no Rio de Janeiro, com base na mistura de manifestações sociais e culturais de origem africana e afro-baiana com estilos em voga na então capital federal, como o lundu, o choro, a polca e o maxixe.

O samba se alastra por boa parte do território nacional por meio da matriz urbana carioca, contudo, apresenta, em sua gênese, elementos desenvolvidos nas áreas rurais do Recôncavo Baiano, como a chula, em cuja raiz estão os batuques de umbigada. Trata-se de rodas de canto e dança, acompanhadas por palmas, trazidas e aperfeiçoadas por escravizados da região dos atuais Congo e Angola desde o século XVIII.

O termo “samba”, até então uma alusão a festas populares e diversão, passa a denominar as rodas de batuque no Rio de Janeiro, que ocorrem em terreiros das casas de quituteiras negras migrantes da Bahia e associadas ao candomblé, conhecidas como “tias” baianas. Em tais encontros ganha força, nas primeiras décadas do século XX, um gênero musical chamado partido-alto, com versos improvisados pelos participantes, estribilho fixo e tambores. 

Na residência de uma dessas “tias” baianas, Hilária Batista de Almeida (1854-1924)1, é criada a primeira canção registrada como samba, “Pelo Telefone" (1916), que entra para a história como escrita pelo músico Donga (1890-1974). Registros fonográficos anteriores já trazem no selo a categorização “samba”, contudo tais músicas se assemelham ao maxixe, com flautas e violões. 

Outras baianas desempenham papel relevante na formação do samba urbano carioca. Uma delas, a mãe de santo “tia” Perciliana Maria Constança, é mãe de um dos primeiros expoentes do samba, João da Baiana (1887-1974), que grava o samba “Batuque na Cozinha” (1917), de origem desconhecida. Ainda jovem, João vivencia uma experiência que ilustra a dificuldade da aceitação das expressões musicais negras pelas elites da Primeira República: é preso por andar com um instrumento de percussão – o pandeiro –, num flagrante esforço das autoridades de “desafricanizar” a cultura. Ao lado dos músicos Pixinguinha (1897-1973) e Donga, filhos de outras “tias” baianas, João da Baiana compõe a chamada “Santíssima Trindade” do samba.

Na década de 1920 o gênero se transforma, abandonando o teor orquestral do maxixe e tornando-se batucado, “africanizado”, distanciando-se de obras como as do pianista Sinhô (1888-1930), o “Rei do Samba”. Instrumentos como tamborim, cuíca, surdo e pandeiro adentram o samba gravado em estúdio pela canção “Na Pavuna” (1929), do compositor Almirante (1908-1980). Isso influencia os músicos do bloco carnavalesco Deixa Falar, do bairro Estácio de Sá, considerado, não sem controvérsia, a primeira escola de samba. Bide (1902-1975), Marçal (1902-1947) e Ismael Silva (1905-1978) levam o samba para a rua, facilitando o deslocamento dos foliões, com instrumentos de percussão. Os dois primeiros escrevem uma série de sambas, o mais famoso “Agora é Cinza” (1933), com fortes traços de melancolia, característica central do gênero. A popularização do rádio contribui para a difusão do samba, que cai no gosto da classe média carioca.

Durante o regime nacionalista de Getúlio Vargas (1930-1945), o samba alcança paragens distantes. O Estado estimula a “mestiçagem” conciliatória do gênero. Há um branqueamento, representado no sucesso de compositores e intérpretes como Noel Rosa (1910-1937), autor de clássicos como o bem-humorado “Com que Roupa?” (1930) e o desenganado “Eu Sei Sofrer” (1937); Francisco Alves (1898-1952), que grava o samba-exaltação “Aquarela do Brasil” (1939), de Ary Barroso (1903-1964); e Carmen Miranda (1909-1955), maior responsável pela divulgação fora do país. Todos expoentes da denominada Era de Ouro, que inclui Wilson Batista (1913-1968), Cartola (1908-1980) e Aracy de Almeida (1914-1988).

Nas décadas seguintes, o samba se desdobra, mantendo-se a espinha dorsal da música popular. Surgem o samba-canção, a bossa nova, o samba-jazz, o samba-rock, o pagode. Nos anos 1930, nasce o samba-enredo, que responde pela mais bem-sucedida trajetória do gênero, incorporando-se ao Carnaval. 

O samba também se desenvolve fora do Rio de Janeiro: em Salvador, em vozes como as dos cantores Dorival Caymmi (1914-2008) e Riachão (1921-2020); em São Paulo, com artistas tão variados quanto Mário de Oliveira Ramos, o Vassourinha (1923-1942), Adoniran Barbosa (1910-1982), o grupo Demônios da Garoa (1943) e o compositor Paulo Vanzolini (1924-2013); em Porto Alegre, com o cantor Lupicínio Rodrigues (1914-1974). Entre os nomes de projeção do samba mais recentes estão Paulinho da Viola (1942), Beth Carvalho (1946-2019) e Zeca Pagodinho (1959).

Desde sua origem, o samba carrega e expõe as profundas contradições da sociedade brasileira. A histórica tensão entre diferentes classes sociais e grupos raciais, sintomas de um país desigual, parece encontrar no samba uma válvula de escape que permite não só denunciar e chorar injustiças, mas também divertir como se não houvesse Quarta-Feira de Cinzas.

 

Nota:

1. Conhecida como Tia Ciata, Hilária é uma das lideranças da comunidade negra nas imediações da Praça Onze, a “Pequena África”, no Rio de Janeiro. Para lá, acorre muita gente pobre expulsa de cortiços nas obras que tentam transformar o centro da cidade numa Paris tropical.

Fontes de pesquisa 9

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  • DINIZ, André. Almanaque do samba: a história do samba, o que ouvir, o que ler, onde curtir. 4ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
  • LOPES, Nei. Dicionário escolar afro-brasileiro. 2 ed. São Paulo: Selo Negro, 2015.
  • LOPES, Nei. O amplo e diversificado universo do samba. In: MORI, Elisa; STROETER, Guga (org.). Uma árvore da música brasileira. São Paulo: Edições Sesc, 2020, pp. 91-107.
  • MOURA, Roberto. Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro. 2 ed. Rio de Janeiro: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 1995.
  • NETO, Lira. Uma história do samba: as origens. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
  • ROCHA, Fabiana Ferreira. A participação feminina na origem do samba carioca: das rodas de batuque de Tia Ciata às Modinhas de Chiquinha Gonzaga. Anais do 3º Encontro de Pesquisa em História: Historiografia e Fontes Históricas, 2015, p. 10-22. Disponível em: https://unisagrado.edu.br/custom/2008/uploads/wp-content/uploads/2016/09/2.-FABIANA-FERREIRA-ROCHA.pdf. Acesso em: 24 set. 2020.
  • SIMAS, Luiz Antonio. O corpo encantado das ruas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019.
  • SOUZA, Caio do Valle. 100 anos de samba e a origem negra da música latina. Calle 2, São Paulo, 9 dez. 2016. Disponível em: http://calle2.com/100-anos-de-samba-e-a-origem-negra-da-musica-latina/. Acesso em: 21 maio 2020.
  • VELLOSO, Mônica Pimenta. As tias baianas tomam conta do pedaço: espaço e identidade cultural no Rio de Janeiro. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 3, n. 6, 1990, p. 207-228.

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