Artigo da seção termos e conceitos Literatura marginal

Literatura marginal

Artigo da seção termos e conceitos
Literatura  

Na literatura, o termo marginal designa obras e autores que de alguma maneira se afastam do cânone, podendo se referir à produção literária que circula fora do circuito comercial das grandes editoras, a textos que procuram se opor às principais tendências literárias e a trabalhos relacionados a grupos cuja identidade se define negativamente em relação à cultura dominante.

No Brasil, o termo é inicialmente usado na década de 1970, em relação a poetas de ampla diversidade que, sem estarem reunidos por um programa coletivo, apresentam certas características comuns. Eles rejeitam as linhagens então predominantes, como o concretismo, a poesia-práxis e a poesia processo, e propõem uma criação não intelectualizada nem politicamente participante que, centrada no cotidiano, caracteriza-se pelo coloquialismo e pela ironia e versa sobre aspectos do dia a dia de jovens de classe média, com temas como sexo e drogas.

Procurando alternativas às formas de circulação literária controladas por empresas privadas e pelo regime civil militar então em vigor, esses poetas buscam aproximar poesia e vida. Em geral jovens, imprimem seus livros de forma artesanal, sobretudo em folhas mimeografadas, e os vendem diretamente em espaços como bares, cinemas e praias. O Rio de Janeiro é o principal centro da poesia marginal, lançando nomes que se consagram, como Ana Cristina Cesar (1952-1983), Cacaso (1944-1987), Chacal (1951), Francisco Alvim (1938) e Paulo Leminski (1944-1989).

Sua atuação se dá num contexto em que outras artes também buscam se afirmar à margem do circuito comercial, como as pequenas produções no cinema e os grupos não empresariais no teatro. Na música, tem estreita relação com o tropicalismo, que busca no cotidiano inspiração e fontes para a composição musical. 

Para a crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda (1939), cuja antologia 26 Poetas Hoje é considerada um marco no reconhecimento desses poetas, a importância do coloquial e a ruptura com o discurso acadêmico assinalam a relação de continuidade que a poesia marginal estabelece com o modernismo de 1922. 

Mais recentemente, o termo vem sendo empregado para designar a literatura produzida por grupos marginalizados – sobretudo romances em torno da vida nas periferias urbanas brasileiras, que passam a receber grande atenção de mídia e público com o interesse despertado pelo livro Cidade de Deus (1997), do escritor Paulo Lins (1958)

O principal marco da literatura marginal é a publicação de Capão Pecado (2000), de Ferréz (1975), que retrata o dia a dia na periferia paulistana, em especial no bairro do Capão Redondo, onde vive o autor. O romance, inicialmente publicado por uma editora independente, faz parte de seu declarado desejo de transformar a relação dos sujeitos periféricos com a literatura e a produção cultural, das quais permanecem historicamente afastados.

É com esse propósito que Ferréz organiza três edições da já extinta revista Caros Amigos: Literatura Marginal – a Cultura da Periferia, em 2001, 2002 e 2004, trazendo contos, poemas e letras de rap de 48 autores no total, a maioria inéditos, e todos em alguma situação de marginalidade. As publicações resultam na coletânea em livro Literatura Marginal: Talentos da Escrita Periférica (2005) e lançam autores como Sacolinha, pseudônimo de Ademiro Alves de Sousa (1983), que estreia em 2005 com o romance Graduado em Marginalidade; Allan Santos da Rosa (1976), que lança o livro de poemas Vão (2005); e Cláudia Canto (s.d.), autora de Morte às Vassouras (2002).

A revista ajuda a dar visibilidade e caráter coletivo a iniciativas em favor de uma periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor”1, como resume em uma de suas composições o poeta Sérgio Vaz (1964), organizador da cooperativa de artistas da periferia (Cooperifa), fundada em 2001, que promove, saraus semanais no bar do Zé Batidão, na zona sul da cidade de São Paulo – importante centro da literatura periférica paulista.

Definida por Ferréz como “cultura da periferia feita por gente da periferia e ponto final”2, a literatura marginal em geral retrata a vida na periferia e problemas sociais como a desigualdade, a violência, a precariedade da infraestrutura urbana e das relações de trabalho, em linguagem coloquial que rompe com a norma culta, reproduzindo a fala das periferias e as gírias do hip hop. 

A literatura marginal identifica entre seus precursores os escritores Plínio Marcos (1935-1999) e João Antônio (1937-1996), pelos temas e personagens que retratam, e se insere numa tradição encabeçada por Carolina Maria de Jesus (1914-1977) e Solano Trindade (1908-1974), autores negros que assumem a própria marginalidade. É valorizada pela crítica por enfrentar a exclusão por meio da autorrepresentação e como um “esforço sério de interpretação dos mecanismos de exclusão social, pela primeira vez realizado pelos próprios excluídos”3.

Enquanto a poesia marginal dos anos 1970 refere-se à produção de autores de classe média que buscam alternativas literárias e comerciais para aproximar sua produção do leitor e da vida, a literatura marginal contemporânea se caracteriza principalmente pela condição social do escritor, que, historicamente excluído, aspira ao reconhecimento literário por meio de uma produção que ao mesmo tempo retrata e procura enfrentar a situação de marginalidade. 

Notas

1. VAZ, Sérgio. Literatura, Pão e Poesia. São Paulo: Global Editora, 2011.

2. FERRÉZ (2004, apud PEÇANHA, Érica. Literatura Marginal: os escritores da periferia entram em cena. 2006. pg. 30 e 195). 

3. Rocha, João César de Castro. A guerra de relatos no Brasil contemporâneo. Ou: a “dialética da marginalidade”. Letras, Santa Maria, n. 28/29, p. 58, dez. 2004. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/letras/article/view/12118. 

Fontes de pesquisa (12)

  • CARNEIRO, Vinícius Gonçalves. Reflexões quanto à literatura marginal brasileira: comparando Ferréz a sua tradição literária. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 50, p. 254-276, abr. 2017. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2316-40182017000100254&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 4 jun. 2020.
  • DALCASTAGNÈ, Regina. A auto-representação de grupos marginalizados: tensões e estratégias na narrativa contemporânea. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 42, n. 4, p. 18-31, dez. 2007. Disponível em: http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fale/article/viewFile/4110/3112.  Acesso em: 4 jun. 2020.
  • FERRAZ, Heitor. De mão em mão: a poesia marginal dos anos 70. In: FERRAZ, Heitor (org). Poesia Marginal. São Paulo: Ática, 2006.
  • HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). 26 poetas hoje. 6ª ed. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2007.
  • MARQUES, Luciana Araujo. Pacto em Capão pecado: das margens para o centro do texto, do texto para o interior do homem. 2010. Dissertação (Mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8151/tde-02082011-141504/pt-br.php. Acesso em: 4 jun. 2020.
  • MATTOSO, Glauco. O que é poesia marginal. São Paulo: Brasiliense, 1981.
  • OLIVEIRA, Rejane Pivetta de. Literatura marginal: questionamentos à teoria literária. Ipotesi, Juiz de Fora, v. 15, n. 2. Especial, p. 31-39, jul./dez. 2011.
  • PEÇANHA, Érica. Literatura Marginal: os escritores da periferia entram em cena. 2006. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Programa de Pós-graduação em Antropologia Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2006. Disponível em:  https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8134/tde-03092007-133929/publico/TESE_ERICA_PECANHA_NASCIMENTO.pdf. Acesso em: 18 set. 2020.
  • PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. Retrato de época: poesia marginal, anos 70. Rio de Janeiro: Funarte, 1981.
  • ROCHA, João Cezar de Castro. A guerra de relatos no Brasil contemporâneo. Ou: a “dialética da marginalidade”. Letras, Santa Maria, n. 28/29, p. 153-184, dez. 2004. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/letras/article/view/12118.  Acesso em: 4 jun. 2020.
  • SANTOS, Carolina Correia dos. Capão pecado e a construção do sujeito marginal. 2008. Dissertação (Mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8151/tde-09032009-174435/pt-br.php.  Acesso em: 4 jun. 2020.
  • VAZ, Sérgio. Literatura, pão e poesia. São Paulo: Global Editora, 2011.

Como citar?

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  • LITERATURA marginal. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo14336/literatura-marginal>. Acesso em: 26 de Out. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7