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Artes visuais

Performance em Rede

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 09.01.2020
Em inglês também chamada de networked performance ou internet performance, esta modalidade de prática artística tem início nos anos 1990. A popularização das redes públicas e privadas de computadores faz com que artistas performáticos conectem-se em coletivos on-line para a execução de obras colaborativas. A atuação deles não se limita mais às p...

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Em inglês também chamada de networked performance ou internet performance, esta modalidade de prática artística tem início nos anos 1990. A popularização das redes públicas e privadas de computadores faz com que artistas performáticos conectem-se em coletivos on-line para a execução de obras colaborativas. A atuação deles não se limita mais às possibilidades físicas dos próprios corpos em ambientes determinados, nem aos suportes físicos da gravação em filme e vídeo. Ao interagirem em rede, tornam-se independentes, inclusive, da mediação das instituições de arte. Nesse sentido, a performance em rede guarda afinidades com vertentes da arte contemporânea, como as artes pública e processual. Não se trata da transferência dos registros performáticos da tela de vídeo para a distribuição pela internet. Tampouco refere-se à transição de suportes anaólgicos para digitais, com criação de sites e softwares específicos para transmissões ao vivo na web. Os processos da networked performance presumem uma transformação profunda nas definições modernistas e pós-modernistas da atividade performática. Ao mesmo tempo, dão sequência, no ambiente virtual, às formulações de dadaístas, surrealistas e demais vanguardas do início do século XX1. Distanciam-se dos agenciamentos institucionais e desafiam as noções de espaço público e privado.

A performance em rede remonta à década de 1960, com o desenvolvimento da teoria das interfacese a intensificação do emprego de filme e vídeo no registro das performances. Artistas como os norte-americanos John Cage (1912-1992), Andy Warhol (1928-1987), Bruce Nauman (1941), Vito Acconci (1940) e a sérvia Marina Abramovic (1946) experimentam a  dissolução fílmica da presença de seus corpos, proporcionada pela capacidade de reprodução infinita. Isso representa o primeiro estágio da descorporificação e da destemporalização levadas ao extremo pelas atuais redes performáticas. Num passo além, os performers começam, nos anos 1970 e 1980, com o progressivo barateamento dos links de satélite, a propor jogos de simultaneidades e deslocamentos no chamado “tempo real”, termo derivado dos mecanismos de comunicação militar por via remota. 

O projeto Good Morning Mr. Orwell alude à onipresença televisiva do Big Brother no romance 1984 (1948), do autor inglês George Orwell (1903-1950). Nele, a artista sul-coreana Nam June Paik (1932-2006) reúne, no primeiro dia daquele ano, cinquenta artistas de todo o mundo por meio de sinais de TV via satélite, transmitidos ao vivo para cerca de 10 milhões de espectadores da emissora pública dos EUA. É, assim, a primeira artista a implementar uma performance-instalação intercontinental. Nas décadas de 1980 e 1990, artistas como o mexicano Guillermo Gómez-Peña (1955), que emprega um satélite comercial na performance Fractal Flesh (1995), e a americana Adrianne Wortzel (1941), com a multinarrativa The Electronic Chronicles (1994-95), abrem caminho para músicos, pintores, teatrólogos e escritores na ocupação dos ambientes programáveis da internet nascente. 

Cada vez menos delimitada pelas noções modernistas de museu, espaço expositivo, corpo, e arte, a performance na era da arte digital, da net art e dos reality shows lança-se nos não lugares transitórios do espaço-tempo da rede mundial, incluindo plataformas de realidade virtual como Second Life e aplicativos do tipo ICQ, MSN e Skype, além de diversas ferramentas de live broadcasting. Para além das artes visuais, romances escritos a dezenas de mãos e concertos virtuais de orquestras sinfônicas com músicos distribuídos em países separados tornam-se acontecimentos corriqueiros com a difusão das conexões de banda larga. A definição clássica do crítico literário suíço Paul Zumthor (1915-1995) sobre a performance como uma “instância de realização plena [que] determina todos os outros elementos formais que, com relação a ela, são pouco mais que virtualidades” aponta para a irreversibilidade entrópica como característica central de sua proliferação nos ambientes virtuais. Radicalizando a subversão epistemológica dos performers do século XX, a operação em rede embaralha as posições relativas do autor, do público e da obra. Há um deslocamento incessante na duração sui generis do “tempo real” e uma fragmentação do espaço, unificados na participação simultânea dos parceiros do jogo artístico. 

A massificação de telefones celulares com câmeras, microfones e conexão em banda larga sem fio e o surgimento de aparelhos de realidade aumentada conectados diretamente ao corpo do usuário, tem ampliado o potencial da atuação performática em rede. Em portais como turbulence.org, encontram-se os recentes trabalhos concebidos e realizados em redes digitais.

No Brasil, destaca-se o pioneirismo de Guto Lacaz (1948) com sua Eletro Performance (1984), espetáculo multimídia que antecipa a interatividade dos meios digitais aperfeiçoados nas décadas seguintes. Nos anos 1990 e 2000, deve-se mencionar os nomes de Renato Cohen (1956-2003), Giselle Beiguelman (1962), Eduardo Kac (1962) e Kiko Goifman (1968) entre os principais artistas a experimentar com a interatividade multívoca da performance em rede. 
 

Notas

1. Considera-se que uma das primeiras performances registradas é o happening de lançamento do movimento Dada em 1917, em Zurique, durante a Primeira Guerra Mundial. Ele ocorre com a execução de uma espécie de musical dirigido pelo autor alemão Hugo Ball  (1886-1927) e seus colegas. Trata-se de um protesto nonsense contra o conflito mundial e a arte institucionalizada.

2. Interfaces são superfícies de contato entre elementos de um conjunto interconectado, como os dispositivos de entrada de texto, áudio e imagem e os terminais de uma rede digital. 

Fontes de pesquisa 11

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  • ALBUQUERQUE, Beatriz. Performance art + internet = comunicação + audiência. Performatus, ano 1, n. 1, novembro de 2012. Disponível em: http://performatus.net/performance-art. Acesso em: 20 nov. 2013
  • BARROS, Anna; SANTELLA, Lúcia (Orgs.). Mídias e artes: os desafios da arte no início do século XXI. São Paulo: Unimarco, 2002.
  • COHEN, Renato. Performance como linguagem. São Paulo: Perspectiva: Edusp, 1988.
  • EDUARDO KAC. Site do artista. São Paulo, 2013. Disponível em: http://www.ekac.org. Acesso em: 20 nov. 2013
  • FALCI, Carlos Henrique Rezende. Performances tecnológicas: provocações em aberto. In: IV Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom, Porto Alegre, 2004. Disponível em: http://www.portcom.intercom.org.br/pdfs/116779165282974390889972033199764820505.pdf. Acesso em: 21 nov. 2013
  • GISELLE BEIGUELMAN. Site da artista. São Paulo, 2013. Disponível em: http://www.desvirtual.com. Acesso em: 21 nov. 2013
  • GLUSBERG, Jorge. A arte da performance. São Paulo: Perspectiva: Edusp, 1987.
  • RUSH, Michael. Novas mídias na arte contemporânea. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
  • SAFATLE, Vladimir. A vida como reality show. Folha de S.Paulo, Caderno Mais!, 1 mar. 2004.
  • TURBULENCE.org. Portal de net arte com acesso a performances em rede. Disponível em http://turbulence.org/blog. Acesso em: 19 nov. 2013
  • ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. São Paulo: Educ, 2000.

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