Artigo da seção termos e conceitos Música concreta

Música concreta

Artigo da seção termos e conceitos
Música  

Análise

Gênero musical acusmático1, no qual a música pré-gravada é difundida sem presença de músicos ou cantores em tempo real. É criado em 1948 pelo francês Pierre Schaeffer (1910-1995), engenheiro eletrotécnico da Radiodifusão Televisão Francesa (RTF). O desenvolvimento desse estilo é possível graças às tecnologias de captação, manipulação e reprodução eletroeletrônicas.

Sua origem remonta à Revolução Industrial, que produz gama inédita de ruídos, gerados tanto pelo novo maquinário (máquinas à vapor, motores, buzinas, propulsores de avião) quanto pela efervescência sonora das grandes cidades.

Na virada do século XX, tal cenário sonoro incita o imaginário de diversos artistas, como os italianos Ferruccio Busoni (1866-1924), Luigi Russolo (1885-1947) e Francesco Pratella (1880-1955), o francês Edgard Varèse (1883-1965) e o estadunidense John Cage (1912-1992). Esses músicos propõem a utilização musical de máquinas e assumem a vanguarda da apropriação do ruído, encarado na época apenas como ornamento musical. 

A música concreta sistematiza essas experimentações ao propor uma música na qual o material é “o som, em seu estado nativo, tal qual o fornece a natureza, o fixam as máquinas, e o transformam suas manipulações”2. Com ferramentas para conceitualizar o ruído, a música concreta eleva-o à categoria de objeto sonoro, com propriedades morfológicas específicas: massa (com relação à dimensão espectral), dinâmica (intensidade dos diferentes componentes), timbre harmônico (cor do som), perfil melódico (evolução temporal do espectro global), perfil de massa (evolução temporal das componentes espectrais internas), grão (irregularidades da superfície do som) e allure (vibratos do som).

Os primeiros experimentos com a manipulação de sons gravados acontecem em 1948. Entre eles, os mais emblemáticos são os do “sulco fechado” e o do “sino cortado”.

Sulco fechado é uma experiência perceptiva simples. Schaeffer escuta de modo obstinado um fragmento de gravação em um disco de 78 rotações riscado acidentalmente. A repetição da mesma sequência sonora faz o artista perceber que o som dissocia-se de sua causalidade e passa a ser percebido por suas qualidades sonoras específicas.

Sino cortado é o segundo experimento, no qual Schaeffer retira involuntariamente o ataque do som produzido por um sino durante sua gravação. Repetindo-o com a técnica do sulco fechado, mas mudando sua dinâmica, o autor se dá conta que o som assemelha-se ao de um oboé. Isso lhe permite compreender que o timbre dos sons não é definido apenas pela disposição das frequências dos parciais em seu espectro3.

A partir desses experimentos, Schaeffer compõe, em 1948, as obras fundadoras da corrente: Cinq Études de Bruits4, dentre os quais Étude aux Chemins de Fer (utilizando ruídos de locomotivas a vapor), e Étude Pathétique (com ruídos de vozes, motor de barco e gamelões balineses).

Em 15 de maio de 1948, Schaeffer denomina essa nova arte de “música concreta”, em oposição à música tradicional instrumental e vocal, designada como “abstrata”. 

O artista define como “música abstrata” um processo constituído por três etapas: na primeira, a obra é concebida mentalmente; na segunda, ela é codificada graficamente em uma partitura; e, na terceira, assume concretização sonora na forma instrumental ou vocal.

Segundo o artista, a música concreta executa o oposto desse processo. Ela fabrica objetos musicais a partir de elementos sonoros pré-existentes (gravados). Na segunda etapa, esses registros tornam-se esboços da composição musical por meio de manipulação experimental desses objetos. Na terceira etapa, o processo  de composição em si, os objetos são correlacionados entre eles (por meio de abstrações) e criam o discurso da obra. 

Essa nova realidade composicional, que foge à compreensão tradicional do que é música e às definições de solfejo, conduz Schaeffer a desenvolver a noção de “escuta reduzida”5 e, a partir dela, à constituição de “objetos sonoros”6. O compositor propõe uma nova teoria do solfejo musical7, centrado no objeto musical e não mais na dualidade nota/ritmo.

Em 1951, Schaeffer funda o Groupe de Recherche de Musique Concrète (GRMC), ao lado do engenheiro Jacques Poullin (1920-2014) e do compositor Pierre Henry (1927). Para enriquecer a manipulação dos sons, novos instrumentos são inventados, como o phonogène8 e o morphogène9. O centro congrega, rapidamente, um grande número de compositores, que compõem obras, como Étude (1952), do alemão Karlheinz Stockhausen (1928-2007), Timbres-Durées (1952) do francês Olivier Messiaen (1908-1992), e Le Microphone Bien Tempéré (1950-1951) do francês Pierre Henry (1927). Essa última obra, que reúne 16 peças criadas para a RTF em 1951, possui algumas das obras fundadoras da corrente, como Bidule en Ut (1950), primeira obra de Henry composta com Schaeffer. O princípio da composição baseia-se em processos de justaposição e sobreposição, pela montagem e mixagem de três cópias de uma sequência sonora. Esse segmento é manipulado em três velocidades de leitura diferentes (normal, no dobro da velocidade e na metade da velocidade), que resulta em uma espécie de fugato a três vozes10.

Em 1958, o projeto é remanejado e transforma-se no Groupe de Recherches Musicales (GRM). O grupo reúne uma nova sociedade de compositores, como Luc Ferrari (1929-2005), François-Bernard Mâche (1935), Iannis Xenakis (1921-2001), Bernard Parmegiani (1927) e, mais tarde, Ivo Malec (1925), Philippe Carson (1936-1972), François Bayle (1932) e outros.

O GRM existe até hoje, mas a música puramente concreta é cada vez menos explorada. No decorrer da primeira metade da década de 1950, ela se mescla à corrente da música eletrônica alemã11, como na peça Le microphone bien temperé, que possui sons concretos e eletrônicos.

No Brasil, a primeira obra concreta, Peça para Mi Bequadro e Harmônicos, é composta em 1961 por Jorge Antunes (1942). A estética é aprofundada por outro compositor, Rodolfo Caesar (1950). Em 1973, ele vai à França para realizar uma especialização no GRM e estuda com Pierre Schaeffer. Lá, compõe suas primeiras peças eletroacústicas: Curare I (1975), Les Deux Saisons (1975-19766) e Tutti Frutti (1976).

Notas

1. Oriundo da palavra grega άκουσμα (akousma), “aquilo que se escuta”, o termo é atribuído a Pitágoras (ca. 570 a.C. – ca. 500/490 a.C). Refere-se à forma como o matemático grego ministra seus cursos: atrás de cortinas para que apenas sua voz seja perceptível e sua figura não interfira na concentração dos alunos. Em 1955, o poeta e ensaísta francês Jérôme Peignot (1926) retoma a terminologia para definir a difusão da música eletroacústica sem suporte visual.

2. Prefácio do musicógrafo francês Serge Moreux (1900-1959) para o Primeiro concerto de ruídos, em março de 1950.

3. Na metade do século XIX, os estudos do matemático francês Joseph Fourier (1768-1830), seguidos pelos do físico alemão Georg Ohm (1789-1854), permitem que se compreenda que um som é formado pela soma de uma série de senoides. Essas podem se apresentar como múltiplas inteiras em relação à frequência fundamental  (1f0, 2f0, 3f0… nf0) – nesse caso sendo denominadas “harmônicos” –, ou como não múltiplas inteiras da frequência fundamental – sendo denominadas “parciais”. Até a metade do século XX, os estudos sobre acústica realizados pelo físico alemão Hermann von Helmholtz (1821-1894) preconizam que o timbre de um som é definido pela soma das frequências presentes em um espectro sonoro. Essa compreensão é expandida com as experiências de Schaeffer a partir da década de 1950 e, sobretudo, no fim dos anos 1960, com os estudos sobre a síntese computacional do som de trompete realizados pelos compositores francês Jean-Claude Risset (1938) e estadunidense  Max Mathews (1926-2011) no Bell Laboratories, nos Estados Unidos.

4. Os sons, provenientes de fontes sonoras diversas, são captados com um microfone e gravados com um fonógrafo sobre um disco, sofrendo posteriormente manipulações simples (mudanças na velocidade de reprodução, looping e reversão das gravações).

5. Baseando-se nos estudos da redução fenomenológica do alemão Edmund Husserl (1859-1938), é um processo que isola os sons e tenta descrevê-los por suas características sonoras intrínsecas.

6. Objeto nascido a partir das observações realizadas com a escuta reduzida.

7. O solfejo, descrito no livro Tratado dos Objetos Musicais, parte de uma tipologia dos objetos que são, em seguida, analisados morfologicamente, segundo sete critérios: massa, dinâmica, timbre harmônico, perfil melódico, perfil de massa, grão e allure.

8. Concebido por Jacques Poullin, em 1951, permite, por meio do acionamento de um teclado, a transposição cromática de um som.

9. Concebido por Jacques Poullin e Abraham Moles, é um sistema de eco realizado com uma fita magnética lida por doze cabeças de leitura em um magnetofone.

10. ARTSONORES. Pierre Schaffer, Pierre Henry, Bidule en Ut, [s.p.].[online]. INA/GRM. Disponível em: http://fresques.ina.fr/artsonores/fiche-media/InaGrm00005/pierre-schaeffer-pierre-henry-bidule-en-ut.html. Acesso em: 01 de setembro de 2016.

11. Desenvolvida na Westdeutsche Rundfunk (WDR), em Colônia, Alemanha. Baseia-se na ideia da síntese sonora e tem como principal defensor o compositor Karlheinz Stockhausen.

 

Fontes de pesquisa (9)

  • ARTSONORES. Pierre Schaffer, Pierre Henry, Bidule en Ut. [online]. INA/GRM. Disponível em: http://fresques.ina.fr/artsonores/fiche-media/InaGrm00005/pierre-schaeffer-pierre-henry-bidule-en-ut.html. Acesso em: 01 set. 2016.
  • BALILLA-PRATELLA, Francesco.Manifeste des musiciens futuristes. In: LISTA, Giovanni (Ed.). Futurisme: Manifestes – Proclamations – Documents. Lausanne: L'Âge d'Homme, 1973. p. 307-311. Publicado originalmente em 1911.
  • BAYLE, François. Musique acousmatique. Propositions... positions. Paris: Buchet: Chastel, 1991.
  • BOULEZ, Pierre. Relevés d'apprentis. Paris: Éditions du Seuil, 1966. (Coleção Tel Quel)
  • CHION, Michel. La musique électroacoustique. Paris: PUF, 1982. (Coleção Que sais-je?)
  • LEONARDO Online. Pionniers et précurseurs: les théories de Pierre Schaeffer. [online]. Disponível em: http://www.olats.org/pionniers/pp/schaeffer/theorieSchaeffer.php. Acesso em: 20 nov. 2015.
  • SCHAEFFER, Pierre. À la recherche d’une musique concrète. Paris: Éditions du Seuil, 1952.
  • SCHAEFFER, Pierre. Traité des objets musicaux. Paris: Éditions du Seuil, 1966.
  • SONHORS. Du studio d’essai de la RTF au GRM: Solfège de l’objet sonore. [online]. Disponível em: http://sonhors.free.fr/panorama/sonhors7.htm. Acesso em: 20 nov. 2015.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • MÚSICA concreta. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo14330/musica-concreta>. Acesso em: 20 de Out. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7