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Música

Polêmica Willy Correia de Oliveira, Gilberto Mendes x Rogério Duprat, Julio Medaglia

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 28.07.2021
Em 1963, um grupo de músicos brasileiros, conhecidos como Música Nova, publica na revista Invenção um manifesto intitulado Por uma Nova Música Brasileira. Polêmico, o documento propõe a superação da técnica serial-dodecafônica, até então hegemônica na música de vanguarda, e a ruptura radical com linguagem musical tradicional, por meio do seriali...

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Em 1963, um grupo de músicos brasileiros, conhecidos como Música Nova, publica na revista Invenção um manifesto intitulado Por uma Nova Música Brasileira. Polêmico, o documento propõe a superação da técnica serial-dodecafônica, até então hegemônica na música de vanguarda, e a ruptura radical com linguagem musical tradicional, por meio do serialismo integral, da música eletroacústica e de elementos advindos dos novos meios de informação, da semiótica e das leis matemáticas das probabilidades. Ao mesmo tempo, recusa qualquer obra vinculada à estética nacionalista, retomada nos anos 1950 por alguns compositores de vanguarda de orientação comunista, como Guerra-Peixe (1914-1993) e Cláudio Santoro (1919-1989).

Entre os signatários do manifesto (Rogério Duprat (1932-2006), Gilberto Mendes (1922-2016), Willy Corrêa de Oliveira (1938), Julio Medaglia (1938), Damiano Cozzella (1929-2018)), muitos deles frequentam os cursos de verão de Darmstadt,1 na Alemanha, e conhecem as obras e as propostas de compositores como Pierre Boulez (1925-2016), Karlheinz Stockhausen (1928-2007), Luciano Berio (1925-2003), Henri Pousseur (1929-2009) e John Cage (1912-1992), dando-se conta do "atraso" da produção musical erudita brasileira em relação à música europeia. Ideologicamente são identificados com a esquerda, mas não com o stalinismo (realismo socialista), pregam um "compromisso total com o mundo contemporâneo", citando a famosa frase do poeta russo Maiakovski (1893-1930): "Sem forma revolucionária, não há arte revolucionária". Nesse espírito, são compostas obras inovadoras para a época, como Um Movimento Vivo, 1962 (Willy Corrêa de Oliveira) e Nascemorre, 1963 (Gilberto Mendes), ambas baseadas em poemas de Décio Pignatari (1927-2012).

No decorrer dos anos 1960, porém, nota-se no interior do grupo o delineamento de duas posturas distintas. De um lado, visando levar ao grande público as inovações e os experimentos da música de vanguarda, Damiano Cozzella e Rogério Duprat passam a compor arranjos para canções populares, paralelamente à produção de happenings e outras intervenções artísticas. Também produzem jingles publicitários e trilhas sonoras. Adepto do neodadaísmo de John Cage, Duprat decreta que "a música morreu" e que "não há diferença entre Stockhausen e Teixerinha",2 concluindo que, no mundo contemporâneo, não resta ao artista senão trabalhar para a indústria cultural. Menos dadaísta que seus colegas, mas igualmente preocupado com a divulgação de uma música "de qualidade" para as massas, Medaglia também se identifica com essa vertente, organizando festivais de música popular na TV Record e compondo arranjos para a indústria fonográfica e, mais tarde, para a televisão. Na visão de todos eles, a proposta contestatória do grupo Música Nova não alcança senão um pequeno grupo de iniciados na música erudita, sem atingir o público geral. Por outro lado, a canção de protesto e a música popular brasileira (MPB) em geral, que adquirem grande importância no cenário político-cultural brasileiro por meio dos festivais da canção e de musicais como Opinião, de 1964, parece ser o espaço ideal para a conquista do público e a expressão de novas ideias. Daí o envolvimento direto desses músicos com a tropicália, da qual participam ativamente como arranjadores, e com outros movimentos e artistas populares do período.

Mais afeitos ao estruturalismo de Boulez e Stockhausen, Willy Corrêa de Oliveira e Gilberto Mendes mantêm-se fiéis à proposta original do grupo, produzindo quase que exclusivamente música de concerto, com raras incursões em trilhas sonoras para filmes e peças teatrais. Acentuam, porém, o viés crítico de suas obras, valendo-se principalmente da ironia. Também passam a criticar a proximidade de seus colegas com a indústria cultural, gerando uma polêmica que toma forma em obras musicais. Na série Kitschs, 1968, para piano e fita magnética, Oliveira critica a postura de Cozzella e Duprat, ironizando a atitude do compositor que busca aplauso e reconhecimento. No Motet em Ré Menor, de 1967, mais conhecido como Beba Coca-Cola, Mendes se vale do slogan da famosa marca de refrigerante para tecer uma crítica ferina e bem-humorada ao consumismo - e, indiretamente, à linguagem publicitária que induz ao consumo. É com essa a linguagem persuasiva e facilmente inteligível que a corrente "popular" do grupo Música Nova procura atingir corações e mentes em seus arranjos fonográficos.

Longe de ser um evento isolado, a dissolução do grupo Música Nova reflete um processo mais amplo que atinge todos os campos da produção cultural brasileira nos chamados anos de chumbo. Como ressalta o sociólogo Marcelo Ridenti, ao florescimento da produção cultural no Brasil dos anos 1960, com o engajamento de artistas no campo da literatura, teatro, cinema e música, segue-se um momento de "refluxo", provocado pela perseguição ideológica da ditadura e pelo avanço agressivo da indústria cultural no Brasil, incentivada pelos militares. E os artistas que se mantêm fiéis à orientação estética do Música Nova são os que mais se envolvem na luta política nos anos 1980, durante o processo de redemocratização do país.

Notas

1. Os cursos de férias de música nova de Darmstadt são realizados todos os verões na cidade de Darmstadt, Alemanha. Desde 1946, quando o curso é criado, músicos de todo o mundo se reúnem na cidade para ministrar cursos sobre música contemporânea e também assisti-los. Nas décadas de 1950 e 1960, Darmstadt é um dos principais centros de divulgação dos movimentos musicais que surgem no mundo.

2. Apud NEVES, José Maria. Música contemporânea brasileira. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1981. p. 164.

Fontes de pesquisa 4

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  • NEVES, José Maria. Música contemporânea brasileira. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1981.
  • RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da TV. Rio de Janeiro: Record, 2000. 458 p., il. color.
  • SOARES, Teresinha Rodrigues Prada. A utopia no horizonte da música nova. Tese (Doutorado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-10072007-103613/.
  • ZERON, Carlos Alberto de M. R. Fundamentos histórico-políticos da música nova e da música engajada no Brasil a partir de 1962: o salto do tigre de papel. Dissertação (Mestrado). São Paulo, FFLCH-USP, 1992.

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