Artigo da seção termos e conceitos Escola Fluminense de Pintura

Escola Fluminense de Pintura

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  

Histórico
Escola fluminense de pintura é o nome que se dá aos pintores em atividade na cidade do Rio de Janeiro no século XVIII. O termo surge em 1841, em artigo do pintor e caricaturista, crítico, historiador de arte e professor, verdadeiro homem do seu século, Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879). Acatando a sugestão que seu mestre Debret (1768-1848) lhe faz de cuidar da história das artes no Brasil1 e respondendo à necessidade de inventar uma tradição para um país recentemente emancipado,2 Porto-Alegre escreve Memória sobre a antiga escola de pintura fluminense,3 o primeiro ensaio sobre história das belas artes brasileiras que se conhece.4 Para comprovar a existência de uma "nação brasileira", anterior à criação do País propriamente dito, Porto-Alegre procura mostrar que existe uma unidade nos pintores em atividade no Rio de Janeiro do século XVIII.

A partir desse artigo, a Escola fluminense de pintura é considerada pelos autores como fato consumado da história da arte brasileira, como se pode verificar, por exemplo, nos textos do crítico Gonzaga Duque (1863-1911) e de Antônio da Cunha Barbosa e Argeu Guimarães. Para esses estudiosos, Porto-Alegre é a principal fonte. As críticas à falta de documentação só aparecem mais tarde.5

Os autores que tratam dos pintores da Escola fluminense costumam louvar sua espontaneidade, bravura e honestidade6  e deplorar a baixa qualidade principalmente de seu desenho, mas também de sua formação em geral.7 Essas apreciações são condizentes com uma ideia de progresso8 que perpassa a maior parte desses textos, salvo os mais recentes. Os primeiros pintores do Rio de Janeiro são qualificados de "primitivos", vistos como a "infância" da arte brasileira. A grande evolução vem apenas com a vinda da Missão Artística Francesa e a criação da Academia Imperial de Belas Artes (Aiba). A crítica à formação dos artistas anteriores é, ao mesmo tempo, um elogio à Aiba.

Junto com a ideia de progresso, encontra-se nos textos uma forte influência do pensamento de Hippolyte Taine (1828-1893), segundo o qual o meio, em seus aspectos geográficos, socioculturais e políticos, determina a arte produzida. Argeu Guimarães, por exemplo, diz, a respeito de Manoel da Cunha, que "tinha talento, e só não se arrojou a emprezas [sic] mais altas porque o nosso acanhado meio colonial não as permitia".9

Hoje em dia, a historiografia ainda não conseguiu preencher as lacunas referentes a essa dita escola. Continua sendo difícil dar detalhes biográficos e estabelecer ligações entre os pintores. Por causa disso, a composição do grupo varia um pouco de autor para autor. No artigo de Porto-Alegre, os membros são oito: Frei Ricardo do Pilar (ca.1635-1700), José de Oliveira (ca.1690-1769), João Francisco Muzzi (17-- -1802), João de Souza (17--? - 17--?), Manuel da Cunha (1737-1809), Leandro Joaquim (ca.1738-ca.1798), Raimundo da Costa e Silva e José Leandro (ca.1770-1834). Nos textos de Antônio da Cunha Barbosa e Argeu Guimarães, encontram-se também Manuel Dias de Oliveira (1764-1837), Antônio Alves, Francisco Pedro do Amaral (1790-1831), Francisco Solano (ca.1743-ca.1818), Domiciano Pereira Barreto e José Vidal. Em todos, os artistas seguem uma linha cronológica que se estende por mais de um século, até o início do século XIX, quando da chegada da Missão Francesa e início das aulas da Aiba. Sabe-se, ademais, que Manuel da Cunha, Leandro Joaquim, Raimundo da Costa e Silva, Manuel Dias de Oliveira e Francisco Pedro de Amaral eram mestiços.

Quanto à relação entre eles, costuma-se dizer que Frei Ricardo é mestre de José de Oliveira, o qual tem como discípulos Francisco Muzzi e João de Sousa. Este último, por sua vez, é mestre de Manuel da Cunha e Leandro Joaquim. Já Raimundo da Costa e Silva aprende com seu próprio pai. Manuel Dias de Oliveira, o Brasiliense ou Romano, viaja para a Europa e, à sua volta, tem José Leandro como aluno. Entretanto, poucas dessas ligações são comprovadas.10

Apesar das ressalvas acima, muitos comentadores identificam traços comuns nesses pintores. Porto-Alegre tem uma leitura evolutiva, que começa com Frei Ricardo, o "mais antigo", passando por José de Oliveira, o "chefe da Escola Fluminense", Francisco Muzzi, que faz cenografia, João de Sousa, da "classe dos coloristas", Manuel da Cunha e Leandro Joaquim, "de pincel suave", Raimundo da Costa e Silva, que prima "nas duas artes da escultura e da pintura", para, por fim, chegar a José Leandro, "o melhor pintor histórico e o mais fiel retratista de sua época".11 Gonzaga Duque vê neles espontaneidade, geralmente devida à relação religiosa com os temas, o que não interfere na unidade de vista e semelhança no desenho e no sentimento de cor.12

Argeu Guimarães considera que há um sucessivo aperfeiçoamento, principalmente quanto ao desenho. Diz que a pintura de devoção perde espaço aos poucos e o retrato prospera; que o modelo vivo educa e a concepção fica mais livre, nas decorações reais, nos muros dos solares e na cenografia teatral.13

A historiadora Hannah Levy vê como aspecto geral o distanciamento do estilo barroco, que se mostra no caráter estático e sóbrio das pinturas e se explica pela formação técnica deficiente.

Notas
1 SQUEFF, Letícia Coelho. Quando a história (re)inventa a arte: a Escola de pintura fluminense. In: Rotunda, nº 1, Campinas: Centro de Pesquisas em História das Artes no Brasil (CEPAB), Instituto de Artes, Unicamp 2003, p.19.
2 op. cit., p. 30.
3 PORTO-ALEGRE, Manuel de Araújo. Memória sobre a antiga Escola fluminense de pintura. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, 1841, v. 3, p. 547-557. Disponível em: <http://www.ihgb.org.br/rihgb/rihgb1841t0003.pdf>
4 SQUEFF, op. cit., p. 20.
5 LEVY, Hannah. A pintura colonial no Rio de Janeiro. In: Pintura e escultura I. São Paulo: FAUUSP: MEC-IPHAN, 1978, p. 70 e SQUEFF, op. cit., p. 31.
6 PORTO-ALEGRE, op. cit., p. 549 e BARBOSA, Antônio da Cunha. Aspecto da arte brasileira colonial. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, 1894, v. LXII, parte II, p. 108. Disponível em: <http://www.ihgb.org.br/rihgb/rihgb1898t00611.pdf>
7 BARBOSA, op. cit., p. 93; LEVY, op. cit., p. 89.
8 SQUEFF, op. cit., p. 27.
9 GUIMARÃES, op. cit., p.137.
10 LEVY, op. cit., p. 41
11 PORTO ALEGRE, op. cit., p. 550 - 555.
12 Gonzaga Duque citado por BARBOSA, op. cit., p. 108.

Fontes de pesquisa (10)

  • BATISTA, Nair. Pintores do Rio de Janeiro colonial: notas bibliográficas. In: PINTURA e escultura II. Compilacao Carlos Ott; compilação Joaquim Cardozo, Nair Batista. São Paulo: MEC/IPHAN : FAU/USP, 1978. 157 p., il. p&b. (Textos escolhidos da Revista do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 8). p.23-38.
  • LEVY, Hannah. A pintura colonial no Rio de Janeiro. In: PINTURA e escultura I. Compilação Hannah Levy, Luís Jardim. São Paulo: MEC/IPHAN : FAU/USP, 1978. 230 p., il. p&b. ( Textos escolhidos da Revista do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 7). p.35-96
  • SILVA, Áurea Pereira da. Pintura colonial no Rio de Janeiro e em são Paulo. In: PINTURA Colonial. Apresentação Ernest Robert de Carvalho Mange; texto Frederico Morais, Lélia Coelho Frota, José Roberto Teixeira Leite. São Paulo: Instituto Cultural Itaú, 1994. 51 p. , il. color. (Cadernos história da pintura no Brasil, 7).
  • ARTE no Brasil. São Paulo: Abril Cultural, 1979. 2v.
  • BARBOSA, Antônio da Cunha. Aspecto da arte brasileira colonial. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, 1898, t. LXI, parte I, p. 95 - 154. Disponível em: <http://www.ihgb.org.br/rihgb/rihgb1898t00611.pdf> Acesso em: 15 de setembro 2010.
  • GUIMARÃES, Argeu. História das artes plásticas no Brasil. Rio de Janeiro: Jornal do Commercio, 1918.
  • LEITE, José Roberto Teixeira. Negros, pardos e mulatos na pintura e na escultura brasileira do século XVIII. In: ARAÚJO, Emanoel (org.). A Mão afro-brasileira: significado da contribuição artística e histórica. São Paulo: Tenenge, 1988. p.13-54.
  • PORTO-ALEGRE, Manuel de Araújo. Memória sobre a antiga Escola fluminense de pintura. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, 1841, v. 3, p. 549-557. Disponível em: <http://www.ihgb.org.br/rihgb/rihgb1841t0003.pdf> Acesso em 15 de setembro 2010.
  • REIS JÚNIOR, José Maria dos. História da pintura no Brasil. Prefácio Oswaldo Teixeira. São Paulo: Leia, 1944.
  • SQUEFF, Letícia Coelho. Quando a história (re)inventa a arte: a Escola de pintura fluminense. In: Rotunda, nº 1, Campinas: Centro de Pesquisas em História das Artes no Brasil (CEPAB), Instituto de Artes, Unicamp 2003, p.19 - 31. Disponível em: <http://www.iar.unicamp.br/rotunda/rotunda01.pdf> Acesso em: 23 de setembro 2010.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ESCOLA Fluminense de Pintura. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo13541/escola-fluminense-de-pintura>. Acesso em: 20 de Set. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7