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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Romantismo

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 28.07.2021
O desenvolvimento do Romantismo no Brasil pode ser melhor compreendido em conjunto com o processo de emancipação política do país, que culminou com a Independência, em 1822. As idéias que dariam forma ao movimento ganham impulso a partir de 1808, quando a família real portuguesa se instala no Rio de Janeiro, declara a cidade a nova sede da monar...

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O desenvolvimento do Romantismo no Brasil pode ser melhor compreendido em conjunto com o processo de emancipação política do país, que culminou com a Independência, em 1822. As idéias que dariam forma ao movimento ganham impulso a partir de 1808, quando a família real portuguesa se instala no Rio de Janeiro, declara a cidade a nova sede da monarquia e promove melhorias que transformam o Rio em importante centro urbano. A fundação de institutos de ensino, bibliotecas, casas tipográficas e, principalmente, de órgãos de imprensa contribuiu para agilizar a circulação de informações e a fermentação de idéias no país.

Embora tenha traços próprios, como a valorização da figura literária do índio, o Romantismo no Brasil é uma derivação do Romantismo europeu, que começa a tomar forma nos primeiros anos do século XIX com a publicação da obra dos poetas ingleses Wordsworth e Coleridge. O alemão Goethe, os franceses Alexandre Dumas e Victor Hugo e o russo Pushkin são alguns dos nomes mais importantes do movimento.

Em linhas gerais, o Romantismo pode ser visto como uma rejeição aos preceitos de ordem, calma, harmonia, equilíbrio, idealização e racionalidade que eram próprios do Classicismo e do Neoclassicismo. Entre as atitudes características estão: apreciação da natureza; exaltação da emoção em detrimento da razão; exame meticuloso da personalidade humana; preocupação com o gênio, o herói, e o foco em seus conflitos interiores; nova visão do artista como criador individual supremo; ênfase na imaginação como ponto de partida para experiências transcendentes; interesse pelas origens históricas e culturais da nação; predileção pelo exótico, estranho, oculto, monstruoso, doentio e até satânico.

Contexto
No início do século XIX, o país assistiu a um fato decisivo para sua independência política e social: a chegada da corte de D. João VI. Assim que desembarcou no Rio de Janeiro, a família real adotou medidas para possibilitar a administração à distância. Entre elas, destacam-se a abertura dos portos, a fundação do Banco do Brasil, a criação dos tribunais de Finanças e de Justiça, a permissão para o livre funcionamento de indústrias, a implantação da imprensa. Ocorreram ainda as fundações da Academia Militar e da Biblioteca Real, com 60 mil volumes, que está na origem da Biblioteca Nacional. Paralelamente a isso, o florescimento do cultivo de café deslocava o eixo econômico de Minas Gerais para São Paulo, onde se concentravam as plantações. O Rio de Janeiro, porto de escoamento do produto, torna-se também capital literária e cultural do país.

A ascensão da burguesia, a emergência das profissões liberais e o desenvolvimento da instrução pública possibilitam a ampliação dos grupos letrados, que aos poucos quebram o monopólio de poder, até então concentrado nas mãos da aristocracia rural. Com a ampliação da classe média, o lazer torna-se parte importante do cotidiano da burguesia, a instrução feminina passa a ser valorizada, a educação melhora, fundam-se bibliotecas e a imprensa se torna mais atuante nos principais centros urbanos.

A curiosidade sobre o país, que então definia suas fronteiras geográficas, também aumenta. O interesse pelos estudos sobre economia, população, fauna, flora e costumes do país culmina na fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1838. As ciências naturais e os estudos históricos também se desenvolvem.

As tipografias e casas impressoras proliferam, e o livro começa a ser publicado com maior regularidade, circulando com mais facilidade pelo país. A qualificação do público e a ampliação do leitorado dão mais popularidade aos escritores que, pela primeira vez, conhecem o sucesso em vida. Imbuídos de missão civilizatória, eles atuam na imprensa, na política, na literatura e assumem a dimensão de figura pública engajada no debate das questões candentes do país. Política e letras caminham de mãos dadas. O período regencial e as revoltas que o marcaram, a prosperidade do Segundo Império, a Guerra do Paraguai e a campanha abolicionista são temas discutidos publicamente, com grande repercussão sobre a produção literária.

O Romantismo na literatura européia começa a ganhar corpo por volta da década de 1790, com a publicação das Lyrical Ballads, dos poetas ingleses William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge. Escrito em 1800, o prefácio de Wordsworth à segunda edição de Lyrical Ballads, em que descrevia a poesia como o fluxo espontâneo de sentimentos poderosos, transformou-se no manifesto do Romantismo inglês no campo da poesia. William Blake era o terceiro poeta importante da fase inicial do movimento na Inglaterra. A primeira fase do Romantismo na Alemanha foi marcada por inovações tanto de conteúdo quanto de estilo e por uma preocupação com o místico, o subconsciente e o sobrenatural. Uma série de autores talentosos, como Friedrich Hölderlin, o jovem Johann Wolfgang von Goethe, Friedrich Schlegel e Friedrich Schelling pertence a esse período inicial. Na França revolucionária, Chateaubriand e Madame de Stäel foram os iniciadores do Romantismo, principalmente em razão de seus escritos históricos e teóricos.

Compreendida pelo período de 1805 a 1830, a fase seguinte do Romantismo europeu foi marcada pela aceleração do nacionalismo cultural e uma nova atenção às origens nacionais, como atestam o interesse repentino pelo folclore nativo (dança, música e poesia) e a revalorização de trabalhos esquecidos do período medieval e da Renascença. Essa apreciação pela história foi transformada em ficção por Walter Scott, considerado o inventor do romance histórico. Na mesma época, a poesia romântica inglesa atingia seu ápice com o trabalho de John Keats, Percy Bysshe Shelley e Lord Byron, este último especialmente relevante para a compreensão da produção poética da segunda geração do Romantismo brasileiro, pela sua influência sobre escritores como Fagundes Varela (1841 - 1875) e Álvares de Azevedo (1831 - 1852).

A partir da década de 1820, o Romantismo havia se desenvolvido a ponto de abarcar as literaturas de quase toda a Europa. Nessa fase, o movimento fica menos universal e ganha expressão principalmente pelo exame da herança histórica e cultural de cada país e pela exploração das paixões e conflitos de indivíduos excepcionais. Um breve panorama de autores influentes do período na Europa teria de conter os nomes de Thomas De Quincey, William Hazlitt e as irmãs Brontë, na Inglaterra; Victor Hugo, Alfred de Vigny, Alphonse de Lamartine, Alfred de Musset, Stendhal, Prosper Mérimée, Alexandre Dumas pai e Théophile Gautier, na França; Alessandro Manzoni e Giacomo Leopardi, na Itália; Aleksandr Pushkin e Mikhail Lermontov, na Rússia; José de Espronceda e Ángel de Saavedra na Espanha.

O Romantismo brasileiro deve ser compreendido em conjunto com o processo de emancipação política. A intenção de criar uma literatura independente e diferente da portuguesa deveria equivaler, no plano cultural, ao que a proclamação da independência representou no plano político. Assim, Portugal deixa de ser a principal referência literária, função que passa a ser exercida por França e Inglaterra. Embora identificado com o período de 1836 a 1880, as origens do movimento romântico brasileiro remontam ao contexto europeu e aos anos de transição entre os séculos XVIII e XIX, quando panfletos e sermões ganham destaque como veículos de idéias novas e a atividade jornalística começa a se adensar. Rica de contatos com a cultura européia do tempo, essa atividade teve papel crucial para a articulação do que alguns críticos chamam de "pré-Romantismo" e para a definição das linhas ideológicas do Primeiro Reinado e da Regência. Frei Caneca (1779-1825), Visconde de Cayru (1756-1835), Monte Alverne (1774-1823), José Bonifácio (1763-1838), além de Hipólito da Costa e Evaristo da Veiga, são alguns dos nomes mais influentes nesse momento de transição.

Convém ainda ressaltar que o Romantismo, com letra maiúscula, deve ser diferenciado do romantismo, com minúscula. O primeiro termo designa o movimento literário. O segundo, um comportamento social e afetivo sem época determinada. E o formato romance, embora tenha se desenvolvido no período, origina-se na Europa no século XVII. É, pois, anterior ao Romantismo.

Estilo - características gerais
O Romantismo é a atitude ou orientação intelectual que caracterizou diversos trabalhos de literatura, pintura, música, arquitetura, crítica e historiografia da civilização ocidental durante o período que vai do fim do século XVIII até meados do século XIX. O Romantismo pode ser visto como uma rejeição aos preceitos de ordem, calma, harmonia, equilíbrio, idealização e racionalidade que eram próprios do Classicismo em geral e do Neoclassicismo do século XVIII em particular. Até certo ponto, foi também uma reação contra o Iluminismo e o racionalismo que dele deriva. A ênfase no individual, subjetivo, irracional, imaginativo, pessoal, espontâneo, emocional, visionário e transcendental é comum a grande parte das produções artísticas do Romantismo.

Entre as atitudes características do período, é possível listar as seguintes: o aprofundamento da apreciação da natureza; a exaltação da emoção em detrimento da razão e dos sentidos em detrimento do intelecto; o exame meticuloso da personalidade humana e de suas potencialidades mentais; a preocupação com o gênio, o herói e a figura excepcional de modo geral, e o foco em seus conflitos interiores; uma nova visão do artista como criador individual supremo, cujo espírito criativo é mais importante que a adesão a regras formais e procedimentos tradicionais; a ênfase na imaginação como ponto de partida para experiências transcendentes e para a verdade espiritual; o interesse obsessivo pelo folclore e pelas origens históricas e culturais da nação; a predileção pelo exótico, remoto, misterioso, estranho, oculto, monstruoso, doentio e até satânico.

Em boa medida, é possível dizer que o Romantismo brasileiro repete as mesmas características do Romantismo europeu. Ao serem adaptadas à realidade do país, no entanto, possibilitam o surgimento de traços peculiares. Segundo o crítico Antonio Candido (1918), essa adaptação pode ser sugerida por meio do estudo de três processos: transposição, substituição e invenção. A transposição consiste em passar para o contexto brasileiro as expressões, concepções, lendas, imagens, situações ficcionais e estilos das literaturas européias, numa apropriação que se integra e dá ao leitor a impressão de familiaridade, e ao mesmo tempo faz sentir a presença das raízes culturais. A substituição, para o crítico, é um processo mais profundo do ponto de vista da linguagem e da interpenetração cultural. Nele, o escritor brasileiro põe de lado a terminologia, as entidades, as situações da literatura européia e as substitui por outras, claramente locais, com a intenção de obter o mesmo efeito. Por exemplo: substitui-se o cavaleiro pelo índio, o fidalgo pelo fazendeiro, o torneio pela vaquejada, como no romance O Sertanejo, de José de Alencar. Pode-se falar em invenção quando o escritor parte do patrimônio europeu para criar variantes originais, como ocorre num poema de Álvares de Azevedo, Meu Sonho, no qual ele fecunda o modelo da balada macabra de tipo alemão (como a Lenora, de Bürger), deformando-o a fim de obter algo diferente.

Os três processos se fazem presentes nas diferentes fases do Romantismo brasileiro, tradicionalmente subdividido em três gerações. A primeira seria compreendida entre os anos de 1836, quando se publica o livro Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães (1811 - 1882), e 1852, quando morre Álvares de Azevedo. O segundo momento teria início a partir da publicação da obra poética desse poeta, em 1853. O ponto de transição para a terceira fase seria o ano de 1870, quando Castro Alves (1847 - 1871) publica Espumas Flutuantes. Como se vê, a divisão comumente adotada tem a poesia como parâmetro. No campo da prosa literária e da crônica jornalística, os marcos são menos nítidos. Para fins didáticos e cronológicos, no entanto, procurou-se respeitar essa divisão para os verbetes que tratam das três gerações do Romantismo.

Mídias (1)

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Ivan Teixeira - Romantismo - São Paulo na Literatura (2004)
O professor e ensaísta Ivan Teixeira fala sobre o Romantismo em São Paulo, geração literária que se reunia em torno da Faculdade de Direito e do nome de Álvares de Azevedo, mas que também atraiu para a cidade escritores como Castro Alves e José de Alencar, consolidando uma vocação literária que, num momento pós-romântico, foi marcada pela presença de Raul Pompéia. São Paulo na Literatura é uma série programas que tratam da cidade de São Paulo no imaginário da literatura brasileira. Com curadoria do jornalista e ensaísta Manuel da Costa Pinto e participação do grupo teatral Bendita Trupe, a série é formada por quatro programas -- Romantismo, Modernismo, Concretismo e Realismo Urbano. Gravado em fevereiro de 2004, no Itaú Cultural, em São Paulo/SP.

Fontes de pesquisa 8

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  • AMORA, Antonio Soares. A literatura brasileira: o romantismo. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 1967.
  • BARBOSA, Francisco de Assis. Prefácio. In: ALENCAR, José de. Ao correr da pena. São Paulo: Melhoramentos, 1956.
  • BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 1974. 571 p.
  • BROCA, Brito. Românticos, pré-românticos, ultra-românticos: vida literária e romantismo brasileiro. São Paulo: Polis; Brasília: INL, 1979.
  • CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 4. ed. São Paulo: Martins, 1971. 2 v.
  • CANDIDO, Antonio; CASTELLO, José Aderaldo. Presença da literatura brasileira. I - das origens ao realismo. ed. ver. e ampl. São Paulo: Difel, 1985.
  • COUTINHO, Afrânio (org). A literatura no brasil: era romântica. 3. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio; Niterói: UFF, 1986.
  • Romanticism. In: Encyclopaedia Britannica. Acesso em: 3 de jun. 2002.

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