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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Mestre Vitalino

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 11.02.2021
10.07.1909 Brasil / Pernambuco / Caruaru
20.01.1963 Brasil / Pernambuco / Caruaru
Reprodução fotográfica Romulo Fialdini

Cachorro com Teju
Mestre Vitalino
Cerâmica policromada
9,00 cm x 2,50 cm

Vitalino Pereira dos Santos (Ribeira dos Campos, Caruaru, Pernambuco, 1909 – Alto do Moura, Caruaru, Pernambuco, 1963). Ceramista popular e músico. Conhecido como Mestre Vitalino, o artista se notabiliza por suas peças de cerâmica que trazem figuras inspiradas nas crenças populares, em cenas do universo rural e urbano, no cotidiano, nos rituais ...

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Vitalino Pereira dos Santos (Ribeira dos Campos, Caruaru, Pernambuco, 1909 – Alto do Moura, Caruaru, Pernambuco, 1963). Ceramista popular e músico. Conhecido como Mestre Vitalino, o artista se notabiliza por suas peças de cerâmica que trazem figuras inspiradas nas crenças populares, em cenas do universo rural e urbano, no cotidiano, nos rituais e no imaginário da população do sertão nordestino brasileiro. 

Filho de lavradores, ainda criança, começa a modelar pequenos animais de seu repertório rural, como bois e cavalos, com as sobras do barro usado por sua mãe na produção de utensílios domésticos para serem vendidos na feira de Caruaru. 

Nos anos 1920, Mestre Vitalino cria a banda Zabumba Vitalino, da qual é o tocador de pífano principal. Na década de 1930, possivelmente influenciado pelos conflitos armados do período, modela seus primeiros grupos. As cenas que remetem à ordem e ao crime no sertão brasileiro são recorrentes em sua produção. Entre bandidos e soldados, policiais, ladrões de cabra e de galinha, destacam-se as figuras dos cangaceiros Lampião, Maria Bonita e Corisco. 

Nos anos 1940, começam algumas transformações na vida de Mestre Vitalino. Muda-se para o povoado Alto do Moura e, em 1947, sua atividade como ceramista, até então desconhecida do grande público, é apresentada na 1ª Exposição de Cerâmica Pernambucana, organizada pelo desenhista e educador Augusto Rodrigues (1913-1993), no Rio de Janeiro. A partir dessa exposição, segue-se uma série de eventos que contribuem para torná-lo conhecido nacionalmente.

Boa parte dos trabalhos de Mestre Vitalino se refere aos três principais ritos de passagem do ser humano: nascimento, casamento e morte. O tema do casamento aparece com frequência, em trabalhos como Casamento no Mato, O Noivo e a Noiva, e Noivos a Cavalo. Os enterros também são composições reveladoras dos hábitos e do cotidiano da região. Comparando-se as obras Enterro na Rede, Enterro no Carro de Boi e Enterro no Caixão, por exemplo, percebe a diferença de status dos mortos, de acordo com o modo como são transportados. Somam-se a esses trabalhos as diversas procissões criadas pelo artista; cenas do imaginário popular, como em A Luta do Homem com o Lobisome (sic), O Vaqueiro que Virou Cachorro e Diabo Atentando o Bêbado; e aspectos sociais da região, como a seca e a migração, reproduzidos em obras como Retirantes (1960)

Outro tema frequentemente representado por Mestre Vitalino é o trabalho. Suas obras costumam expressar a divisão entre atividades laborais e tipos masculinos – vaqueiros e lavradores – e femininos – lavadeiras e rendeiras. O artista também modela profissões do contexto urbano, como dentista, médico, barbeiro e costureira, em parte para atender às demandas do mercado. Retrata, ainda, seu próprio trabalho, como em Vitalino Cavando Barro, Vitalino Queimando a Loiça e Vitalino e Manuel Carregando a Loiça, e produz ex-votos

Além dos temas, a cor é um elemento importante na obra do artista. No início, ele a obtém por meio de argilas de diferentes tons, avermelhado e branco. Depois, passa a pintar os bonecos com tintas industriais, o que lhes confere um aspecto alegre e lúdico. De acordo com a antropóloga Lélia Coelho Frota, autora de livro sobre o ceramista, a cor, nessa fase de Vitalino, não é utilizada como mero elemento decorativo, mas sim como parte integrante da própria modelagem, na medida em que confere às figuras e cenas maior dramaticidade. A partir de 1953, o artista deixa de pintar as figuras, mantendo-as na cor da argila queimada.

Em 1955, Mestre Vitalino integra a exposição Arte Primitiva e Moderna Brasileiras, em Neuchâtel, na Suíça. O Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais e a Prefeitura de Caruaru editam o livro Vitalino, com texto do antropólogo René Ribeiro e fotografias de Marcel Gautherot (1910-1996) e Cecil Ayres. Nessa época, ele conhece Abelardo Rodrigues, arquiteto e colecionador, que forma um significativo acervo de peças do artista, mais tarde doadas ao Museu de Arte Popular, depois chamado de Museu do Barro de Caruaru.

Mestre Vitalino representa um agente-chave de transformação de Alto do Moura, em Caruaru. Com seu sucesso, famílias inteiras passam a se ocupar da produção cerâmica na comunidade, o que transforma o povoado em referência nacional na área, considerado pela Unesco um dos mais importantes centros de arte figurativa das Américas. 

Em 1971, é inaugurada na região, na residência do artista, a Casa Museu Mestre Vitalino. No espaço, administrado pela família, estão expostas suas principais obras, além de objetos de uso pessoal, ferramentas de trabalho e o rústico forno a lenha em que fazia suas queimas.

Mestre Vitalino caracteriza-se por um estilo pessoal marcante, que se revela na expressividade das feições, nos gestos e posturas corporais da composição teatralizada das cenas que representa. Em certa medida, seu sucesso está relacionado também à tendência cultural da época de valorizar elementos populares, considerados originais e exemplos de brasilidade.

Independentemente das razões do sucesso de Mestre Vitalino, é certo que ele se caracteriza como um dos representantes da cultura nacional, na medida em que expressa, de maneira genuína, o homem nordestino e tudo aquilo que o constitui.

Obras 14

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Reprodução fotográfica Romulo Fialdini

Casa de Farinha

Cerâmica policromada
Reprodução fotográfica Cícero Rodrigues

Ceia

Cerâmica policromada

Exposições 15

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Fontes de pesquisa 8

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  • ARTE no Brasil. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
  • FROTA, Lélia Coelho. Mestre Vitalino. Tradução James Mulholand. São Paulo: Ed. Publicações e Comunicações, 1988. 143 p., il. color., foto.
  • GULLAR, Ferreira (et. al). 150 anos de pintura no Brasil: 1820-1970. Rio de Janeiro: Colorama, 1989.
  • LÓSSIO, Rúbia; PEREIRA, Cesar. Mestre Vitalino: cem anos de louça lúdica. Pesquisa Escolar. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 6 abr. 2009. Disponível em: http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option= com_content & view= article & id=1188%3 Mestre-vitalino-cem-anos-de-louca-lúdica & catid=48%3a Letra- & Itemid=1. Acesso em: 4 jul. 2020.
  • MASCELANI, Angela. O Mundo da arte popular brasileira: Museu da Casa do Pontal. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.
  • RIBEIRO, René. Vitalino: ceramista popular do Nordeste. Recife: Ministério da Educação e Cultura, Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, 1972.
  • RUMAN, Evelyn. Herdeiros de Vitalino: cerâmica de Caruaru. Texto Cleber Papa. São Paulo: São Paulo ImagemData. [14] p., il. color. (Brasil das artes).
  • VITALINO, Mestre. Mestre Vitalino. Rio de Janeiro, 1993. , il. color.

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