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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Farnese de Andrade

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 06.01.2021
26.01.1926 Brasil / Minas Gerais / Araguari
18.07.1996 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Oratório do Demônio, 1976
Farnese de Andrade
Madeira e plástico
Coleção Gilberto Chateaubriand - Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro

Farnese de Andrade Neto (Araguari, Minas Gerais, 1926 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1996). Pintor, escultor, desenhista, gravador, ilustrador. Muda-se, em 1942, para Belo Horizonte onde, entre 1945 e 1948, estuda desenho com Guignard (1896-1962), na Escola do Parque. Em 1948 muda-se para o Rio de Janeiro para tratar uma tuberculose pulmonar....

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Biografia

Farnese de Andrade Neto (Araguari, Minas Gerais, 1926 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1996). Pintor, escultor, desenhista, gravador, ilustrador. Muda-se, em 1942, para Belo Horizonte onde, entre 1945 e 1948, estuda desenho com Guignard (1896-1962), na Escola do Parque. Em 1948 muda-se para o Rio de Janeiro para tratar uma tuberculose pulmonar. Entre 1950 e 1960, trabalha como ilustrador para o Suplemento Literário do Diário de NotíciasCorreio da Manhã, o Jornal de Letras, e para as revistas Rio Magazine, Sombra, O Cruzeiro, Revista Branca e Manchete. Em 1959, começa a frequentar o Ateliê de Gravura do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ), onde se aperfeiçoa em gravura em metal com orientações de Johnny Friedlaender (1912-1992). Convive com vários artistas que frequentam o Ateliê, entre eles Rossini Perez (1932), com quem desenvolve trabalhos de 1959 a 1961. Em 1964, começa a criar obras com materiais descartados, coletados nas praias e nos aterros. Posteriormente utiliza armários, oratórios, gamelas, ex-votos, adquiridos em antiquários e depósitos de materiais usados. Fotografias antigas também estão presentes em sua obra. Desde 1967, utiliza resina de poliéster, envolvendo materiais perecíveis. No Salão Nacional de Arte Moderna de 1970, recebe o prêmio de viagem ao exterior. Parte para a Espanha, instala um estúdio em Barcelona e lá permanece até 1975.

Análise

Farnese de Andrade faz gravuras abstratas, trabalhando com formas regulares e cores fortes. Para criar as matrizes utiliza materiais encontrados nas praias, como pedaços de madeira cheios de sulcos.  Desde 1964, cria objetos ou assemblages com cabeças e corpos de bonecas, santos de gesso e plásticos, todos corroídos pelo mar, coletados nas praias e nos aterros. Passa a comprar materiais como redomas de vidro, armários, oratórios, nichos, caixas e imagens religiosas em lojas de objetos usados, de antiguidades e depósitos de demolição. Utiliza ainda, com freqüência, velhos retratos de família, herdados de um tio fotógrafo, e postais. Em 1965, realiza a série de desenhos Eróticos e inicia os Obsessivos.

Em 1967, começa a realizar trabalhos com resina de poliéster, sendo considerado um pioneiro da técnica no Brasil. O poliéster, translúcido e maleável, serve para envolver e dessa maneira, segundo o artista, eternizar materiais perecíveis como figuras de gesso. Envolve também fotografias em cápsulas de resina, tornando-as assim tridimensionais como outros materiais. Na década de 1970, utiliza gamelas como suporte para as obras e ex-votos antigos, que começa a colecionar. Farnese não projeta seus trabalhos, que vão surgindo espontaneamente, entre o gesto manual e a elaboração mental. Carregados de erotismo, de sensualidade e de religiosidade, parecem impregnados de atmosfera opressiva. Contêm referências pessoais como em Mater (1990); Patêr (1992/1995); Lembranças do Recife (1993/1995), Os Dias Felizes (1976/1994) e Araguary - 26/1/1926 (1975/1984). Seus temas mais constantes são relacionados à noção de vida, fecundação, germinação, nascimento e também de morte, indicada pela fragmentação dos corpos, como em Hiroshima 1966-1972 (1970), ou pela justaposição de vários bonecos calcinados pelo calor de uma vela, simbolizando os mortos pela bomba atômica.

Afastado do meio de arte, o artista coleciona as próprias obras, que se acumulam em seu ateliê, e são constantemente recriadas, o que se dá pela alteração das peças ou pela revisitação de certos temas, como a anunciação à Virgem Maria. Para o crítico Frederico Morais, seus objetos são object-trouvés [objetos encontrados] que atuam em nosso inconsciente e parecem estar associados a algumas lembranças, mas sobretudo fazem parte de uma autobiografia que o artista construiu. Assim, aproximam-se mais do surrealismo e da pintura metafísica, do que do dadaísmo.

A singularidade de seu trabalho, para o historiador Rodrigo Naves, está na carga afetiva, gerada tanto pela presença dos objetos antigos e rudimentares, com características altamente pessoais, marcados pelo uso e pelo tempo, envelhecidos, como por conter referências biográficas. Em vez de montagem de objetos e imagens, sua obra pode ser vista como uma colagem de tempos, remetendo a um passado que não mais nos pertence e ainda pesa sobre o presente.

A constância da caixa em sua obra, em forma de oratório, armário, gaveta, gamela ou ampola, poderia ser interpretada como uma representação do inconsciente e do corpo materno, algo que encerra e separa do mundo aquilo que é precioso ou frágil. Para a pesquisadora Helouise Costa, a fotografia pode ser incluída entre esses materiais como elemento constitutivo e receptáculo simbólico das inquietações do artista. Invertida, fragmentada, desvinculada de seu contexto, subvertida de sua função original de preservar a memória, a fotografia serve dessa forma para reinventar o passado. O artista rompe as fronteiras entre artes plásticas e fotografia e constrói com ela outras narrativas, como lhe convém. 

A poética de Farnese de Andrade, pautada no inconsciente, contrasta com as de outras tendências do período, como a construtiva. O artista foi isolado pela geração dos anos 1960, considerado politicamente alienado e subjetivo demais. Entretanto, sua obra aproxima-se da produção dos anos 1980 e 1990, principalmente pelo peso da individualidade e auto-expressividade que transmite.

Obras 13

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Reprodução Fotográfica Romulo Fialdini

Metamorfose

Materiais diversos

Exposições 187

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Feiras de arte 1

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Fontes de pesquisa 27

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  • ANDRADE, Farnese de. A casa e a inteligência de Farnese. Curadoria Uiara Bartira. Rio de Janeiro: [s.n.], 1997.
  • ANDRADE, Farnese de. Farnese de Andrade. Rio de Janeiro: MNBA, 1989.
  • ANDRADE, Farnese de. Farnese de Andrade. São Paulo: Galeria de Arte São Paulo, 1985.
  • ANDRADE, Farnese de. Farnese: objetos. São Paulo: Galeria Ipanema, 1978.
  • ANDRADE, Farnese de. Imagens aprisionadas: a foto-objeto em Farnese de Andrade. Curadoria Helouise Costa. São Paulo: Espaço Porto Seguro de Fotografia, 2000.
  • ANDRADE, Farnese de. Objetos e esculturas. Rio de Janeiro: AM Niemeyer Artinteriores, 1986.
  • ANDRADE, Farnese. Farnese de Andrade. São Paulo: Cosac & Naify, 2002. 1 DVD anexo.
  • ARAUJO, Olivio Tavares. Farnese de Andrade: encantamento urgente e radical. Revista do MAM, São Paulo, ano 1, n.2, dez. 1999. p. 9-15.
  • ARTE no Brasil. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
  • AYALA, Walmir. Dicionário de pintores brasileiros. Organização André Seffrin. 2. ed. rev. e ampl. Curitiba: Ed. UFPR, 1997.
  • BRASILIDADE: coletânea de artistas brasileiros. Goiânia: Galeria de Arte Marina Patrich, 1997.
  • CHAIMOVICH, Felipe. A beleza será convulsiva: a contemporaneidade de Farnese de Andrade. Revista do MAM, São Paulo, ano 1, n.2, dez. 1999. p. 25-32.
  • CHIARELLI, Tadeu. Farnese de Andrade no MAM. Revista do MAM, São Paulo, ano 1, n.2, dez. 1999. p. 6-8.
  • DAIBERT, Arlindo. Caderno de escritos. Organização de Julio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1995.
  • DICIONÁRIO brasileiro de artistas plásticos. Organização Carlos Cavalcanti e Walmir Ayala. Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1973-1980. 4v. (Dicionários especializados, 5).
  • GRAVURA: arte brasileira do século XX. São Paulo: Itaú Cultural: Cosac & Naify, 2000.
  • GULLAR, Ferreira (et. al). 150 anos de pintura no Brasil: 1820-1970. Rio de Janeiro: Colorama, 1989.
  • LEITE, José Roberto Teixeira. 500 anos da pintura brasileira. [S.l.]: Log On Informática, 1999. 1 CD-ROM.
  • LOUZADA, Maria Alice do Amaral. Artes plásticas Brasil 1999. São Paulo: Júlio Louzada, 1999. v. 11.
  • MEICHES, Mauro P. Farnese de Andrade: obsessão de um pensamento. Revista do MAM, São Paulo, ano 1, n.2, dez. 1999. p. 22-24.
  • MORAIS, Frederico. Farnese de Andrade. Galeria: Revista de Arte, São Paulo, v. 7, n. 29, p. 54, maio/jun. 1992.
  • MOSTRA DE GRAVURA CIDADE DE CURITIBA, 9., 1990. IX Mostra de Gravura Cidade de Curitiba. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 1990.
  • MOSTRA do acervo. São Paulo: Sudameris Galleria, 1996. p.07.
  • NEMER, José Alberto. ícones da utopia. Belo Horizonte: Fundação Palácio das Artes, 1992.
  • PONTUAL, Roberto. Entre dois séculos: arte brasileira do século XX na coleção Gilberto Chateaubriand. Rio de Janeiro: Edições Jornal do Brasil, 1987.
  • RIBEIRO, Marília Andrés (org.); SILVA, Fernando Pedro da (org.). Um século de história das artes plásticas em Belo Horizonte. Belo Horizonte: C/Arte, 1997. (Centenário).
  • TRIDIMENSIONALIDADE: arte brasileira do século XX. São Paulo: Itaú Cultural: Cosac & Naify, 1999.

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