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Artes visuais

J. Borges

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 30.06.2017
1935 Brasil / Pernambuco / Bezerros
José Francisco Borges (Bezerros, Pernambuco, 1935). Artista popular, xilogravador e poeta. Filho de agricultores, frequenta a escola aos 12 anos, apenas por dez meses. Realiza diversas atividades: é marceneiro, mascate, pintor de parede, oleiro etc. Em 1956, compra um lote de folhetos de cordel e começa a atuar como vendedor em feiras populares....

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Biografia

José Francisco Borges (Bezerros, Pernambuco, 1935). Artista popular, xilogravador e poeta. Filho de agricultores, frequenta a escola aos 12 anos, apenas por dez meses. Realiza diversas atividades: é marceneiro, mascate, pintor de parede, oleiro etc. Em 1956, compra um lote de folhetos de cordel e começa a atuar como vendedor em feiras populares. Em 1964, escreve seu primeiro folheto, O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina, que é ilustrado pelo artista Dila (1937), de Caruaru, e publicado pelo folheteiro Antonio Ferreira da Silva, que acompanhava J. Borges nas feiras do interior.

O folheto é um sucesso e vende cinco mil exemplares em apenas dois meses. Na segunda publicação, O Verdadeiro Aviso de Frei Damião sobre os Castigos que Vêm, J. Borges não encontra um clichê1 para a ilustração da capa do folheto e, por economia, produz sua primeira xilogravura, inspirada na fachada da igreja de Bezerros. Com esse trabalho, tem início sua carreira como xilogravador. Em pouco tempo, ele adquire máquinas tipográficas e passa a editar folhetos.

A partir de 1970, começa a receber diversas encomendas de gravuras, o que fortalece sua obra e estimula a autonomia de suas gravuras em relação ao cordel. J. Borges continua escrevendo e produzindo cordéis por vinte anos e cria a gráfica Casa de Cultura Serra Negra, em Bezerros, na qual ensina o ofício a seus filhos. A xilogravura lhe dá projeção nacional e internacional: ele ilustra livros, como o Palavras Andantes, do escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015), lançado pela LP&M, em 1993; participa de diversas exposições; e ministra oficinas e workshops sobre cordel e xilogravura. A partir da década de 1980, seu trabalho recebe prêmios que atestam a importância de sua contribuição como artista popular. Entre eles, o prêmio de gravura Manoel Mendive, na 5ª Bienal Internacional Salvador Valero Trujillo, Venezuela, em 1995; medalha de honra ao mérito da Fundação Joaquim Nabuco, Recife, em 1990; medalha de honra ao mérito cultural, do Palácio do Planalto, Brasília, em 1999; e o Prêmio Unesco, em 2000. Em 2006, J. Borges passa a receber bolsa vitalícia concedida com a Lei do Registro do Patrimônio Vivo2 e é criado o Memorial J. Borges, em Bezerros, que assume as funções de ateliê, oficina e galeria. 

Análise

Apesar de ter iniciado sua carreira como cordelista, é pelas xilogravuras que J. Borges se destaca. É considerado pelo escritor Ariano Suassuna (1927-2014) o melhor gravador popular do Brasil. Autodidata, J. Borges desenha direto na madeira e muitas vezes as imagens são feitas de memória. O fundo da matriz é talhado ao redor da figura que recebe aplicação de tinta, tendo como resultado um fundo branco e a imagem impressa em cor.

As xilogravuras de J. Borges não apresentam uma preocupação rigorosa com perspectiva ou proporção, o artista costuma assinar na matriz e, em geral, seus trabalhos não possuem tiragem limitada. Os principais temas de sua obra podem ser separados em quatro grupos. O primeiro diz respeito às personagens fantásticas do imaginário regional, como a mula sem cabeça. No segundo grupo, se encontram personagens famosas de folhetos de cordel, como o Pavão Misterioso. No terceiro estão personagens e temas emblemáticos da cultura nordestina: Lampião, Padre Cícero, a seca, a festa de São João etc. E, por fim, o quarto grupo apresenta temas do cotidiano, como os bares, as brigas de galo, as cerimônias ecumênicas e a política. 

Esse imaginário adquire um aspecto documental, uma vez que se trata de um registro espontâneo e instantâneo da cultura3. No entanto, deve-se atentar também para seu valor estético. Considerar esse valor é fundamental para atualizar a compreensão da obra de J. Borges, o que contribui para arejar o entendimento de arte popular. Como defende a arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992), cultura popular é diferente de folclore: "Quando a produção popular se petrifica em folclore [...] as possibilidades da cultura autóctone são substituídas por 'frases feitas', pela 'supina repetição' e pela 'definitiva sujeição a esquemas esvaziados' ".4 Para ela, pensar a arte popular é recuperar as condições de criação dadas em um determinado contexto histórico, pois, assim, entende-se que essa criação é mais complexa do que reproduzir um objeto fazendo uso dos mesmos materiais. É necessário, portanto, libertar-se dessas predefinições sobre o que representa a cultura popular, para dar conta da abrangência e importância da obra desse artista.

Notas

1 Placa de metal, ger. zinco, gravada fotomecanicamente em relevo, obtida por meio de estereotipia, galvanotipia ou fotogravura, destinada à impressão de imagens e textos em prensa tipográfica (Houaiss, 2010).

2 "A Lei do Registro do Patrimônio Vivo (Lei nº 12.196, de 2 de maio de 2002) tem como objetivo preservar as manifestações populares e tradicionais da cultura pernambucana, assim como permitir que os artistas repassem seus conhecimentos às novas gerações de alunos e aprendizes." Veja mais em Fundação Joaquim Nabuco - Patrimônio Vivo de Pernambuco. Recife, 2011. Disponível em: http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=607&Itemid=195. Acesso em: 07 ago. 2013.

3 Simão Abrahão considera que a obra de J. Borges é um registro de uma cultura em extinção. E defende a necessidade de se atualizar a leitura dessa produção contrapondo-se à tendência de encarar esse tipo de arte como curiosidade, objeto de decoração, souvenir, pitoresco. Ver: J. Borges. Complemento das artes. Brasília: Planarte, n. 2, mai. 1981.

4 Bardi, Lina Bo. Nordeste, in Lina por escrito. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 116-18.

Encontros 1

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Exposições 31

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Festivais 3

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Fontes de pesquisa 12

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  • ABRAHÃO, Simão. J. Borges. Complemento das Artes. Brasília: Planarte, n.2, mai. 1981.
  • BO BARDI, Lina. Nordeste. ______. Lina por escrito. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 116-18.
  • BORGES, J. A arte de J. Borges: do cordel à xilogravura. Curadoria José Octavio Penteado; versão em inglês John Norman, Terrence Hill. São Paulo: SESC SP, 2005. 104 p.
  • BORGES, J. O verdadeiro aviso de Frei Damião sobre os castigos que vêm. Cordel. Ilustração: xilogravura de J.Borges, 1965.
  • BURCKHARDT, Eduardo. O artista do sertão. Época, São Paulo, 5 ago. 2002.
  • DRÄNGER, Carlos (coord.). Pop Brasil: arte popular e o popular na arte. Curadoria Paulo Klein; tradução João Moris, Beatriz Karan Guimarães, Maurício Nogueira Silva. São Paulo: CCBB, 2002.
  • J. Borges vai expor em quatro museus no EUA. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 15 abr. 2002.
  • MEMORIAL J. BORGES. Blog. Disponível em: < http://memorialjborges.arteblog.com.br/ >. Acesso em: 07 ago. 2013.
  • MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO, 2000, SÃO PAULO, SP. Arte Popular. Curadoria Emanoel Araújo, Frederico Pernambucano de Mello; tradução Grant Ellis, Izabel Murat Burbridge, John Norman, Paulo Henriques Britto. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo : Associação Brasil 500 anos Artes Visuais, 2000.
  • NEIVA, Ivany Câmara. Revisitando a Folhetaria de J.Borges - notícias do sertão. In: Intercom - Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação - XXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação - UnB - 6 a 9 de setembro de 2006. Disponível em : <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2006/resumos/R0382-1.pdf>. Acesso em: 07 ago. 2013.
  • VAINFAS, Ronaldo. Um dos destaques é artífice da xilogravura popular. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 05 nov. 1997.
  • XILÓGRAFOS nordestinos. Apresentação Homero Senna; comentário Lourival Gomes Machado. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1977. 218 p.

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