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Literatura

José Américo de Almeida

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 20.01.2020
10.01.1887 Brasil / Paraíba / Areia
10.03.1980 Brasil / Paraíba / João Pessoa
José Américo de Almeida (Areia, Paraíba, 1887 – João Pessoa, Paraíba,1980). Romancista, jornalista, cronista, político. Com a morte do pai, é educado por um tio padre. Conclui os primeiros estudos no Seminário e no Liceu Paraibano, na capital do estado. Matricula-se na Faculdade de Direito do Recife e, em 1908, obtém o título de bacharel. Trabal...

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José Américo de Almeida (Areia, Paraíba, 1887 – João Pessoa, Paraíba,1980). Romancista, jornalista, cronista, político. Com a morte do pai, é educado por um tio padre. Conclui os primeiros estudos no Seminário e no Liceu Paraibano, na capital do estado. Matricula-se na Faculdade de Direito do Recife e, em 1908, obtém o título de bacharel. Trabalha como promotor público na cidade de Sousa, no sertão paraibano. Depois, é nomeado Procurador-Geral do Estado.

Escreve a novela Reflexões de uma Cabra (1921), sua estreia na ficção, e o estudo A Paraíba e Seus Problemas (1923). A convite do governador João Pessoa (1878-1930), torna-se Secretário-Geral do Estado da Paraíba. Como Secretário de Segurança da Paraíba, envolve-se com a Guerra de Princesa, conflito que mobiliza tropas estaduais contra coronéis nordestinos. Publica A Bagaceira (1928).

É um dos articuladores regionais do movimento que desemboca na Revolução de 1930 e na subida de Getúlio Vargas (1882-1954) ao poder. No novo governo, assume o cargo de Ministro de Viação e Obras Públicas. Anos depois, deixa o Ministério e publica os romances O Boqueirão (1935) e Coiteiros (1935). Volta à vida pública em 1937, como candidato à Presidência da República.

Seus planos são frustrados pelo golpe de 1937, a que se segue a instauração do Estado Novo, com a permanência de Vargas no poder. Em 1945, concede entrevista ao jornalista Carlos Lacerda (1914-1977), do Correio da Manhã, na qual critica o estadista gaúcho no governo e se coloca a favor de novas eleições. O episódio é considerado marco simbólico da derrocada do Estado Novo. É eleito senador pela Paraíba em 1947. No período democrático, também participa da fundação da União Democrática Nacional (UDN). Tempos depois, abandona a UDN e funda o Partido Libertador, elegendo-se Governador da Paraíba. Reconciliado com Getúlio Vargas, que volta ao poder, ocupa novamente o posto de Ministro de Viação e Obras Públicas. Após o suicídio de Vargas, retoma o cargo de governador. É um fundadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Em 1967, é eleito para a Academia Brasileira de Letras. Em fins de 1960, distante da vida pública, inicia a redação de suas memórias.

Análise

A obra de José Américo de Almeida, em especial o romance A Bagaceira, nasce num contexto em que a vida intelectual brasileira é sacudida por acontecimentos históricos. Entre eles, a luta política que culmina com a Revolução de 1930 e a subida de Getúlio Vargas ao poder. José Américo está ligado a esse processo como “tenente civil” e um dos líderes do movimento pró-revolução na Paraíba. 

Diante da efervescência política, o que caracteriza parte da produção literária dos anos 1930 é a conduta engajada de seus escritores, tanto à esquerda quanto à direita, e a recusa ou adesão às conquistas modernistas de 1922. Tudo isso, aliado à sensibilidade para a realidade e para os problemas sociais do país. Tais aspectos manifestam-se com força na prosa regionalista de 1930, da qual José Américo de Almeida e seu romance A Bagaceira são precursores.

Publicado em 1928, o livro é bem recebido pela crítica. Tristão de Ataíde (1893-1983), uma das “vozes legitimadoras” da imprensa da época, saúda-o como marco histórico para as letras nacionais: “Até minutos antes a literatura brasileira estava vazia desse livro. E de agora em diante já não pode viver sem ele”. Valoriza suas diferenças frente ao romance nordestino da seca. Para Ataíde, A Bagaceira traz fôlego novo para a literatura do Nordeste, colocando-a em sintonia com o modernismo paulista. A recepção do livro não é unânime. Agripino Grieco (1888-1973), outro nome atuante na imprensa, chama atenção para o “artificialismo” da prosa de José Américo, distante do falar do povo e da renovação sugerida por Ataíde. 

A Bagaceira narra a história de um triângulo amoroso envolvendo uma filha de retirantes, um senhor de engenho e seu filho. A paixão entre os dois jovens e a presença do patriarca são o estopim de uma tragédia. O triângulo funciona como campo fértil para o desenrolar do conflito entre pai e filho. Enquanto o primeiro opera o engenho sob os códigos cruéis do coronelismo, o segundo, bacharel modernizado e liberal, está disposto a mecanizar a lavoura e melhorar as condições de vida de seus trabalhadores.

A Bagaceira não é considerada pela historiografia literária uma das grandes obras do romance de 1930, como Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos (1892-1953). Ainda assim, é importante ao definir, nas palavras de Alfredo Bosi (1936), “uma direção formal (realista) e um veio temático: a vida nos engenhos, a seca, o retirante, o jagunço” para a ficção de 1930. 

Para Luís Bueno, autor de estudo sobre a produção regionalista, A Bagaceira ocupa um “entrelugar” formal e ideológico. Está a meio caminho dos modelos passadistas (de vocabulário rebuscado e herança naturalista) e das propostas estéticas do modernismo (a oralidade, a prosa fragmentária e a aversão ao pitoresco regional).

Segundo Luís Bueno, um dos as pectos que diferencia A Bagaceira de seus antecessores, é a figuração de uma estrutura social baseada na exploração do homem do campo e na presença autoritária do senhor de engenho – algo inédito na prosa regionalista. Há também contribuições formais no modo como José Américo representa os retirantes, dando a eles maior grau de complexidade e construção (ao contrário do retrato naturalista, que os reduz ao limite da indistinção e “animalização”). Além disso, contribui pela prosa que ameniza a distância entre o discurso direto das personagens populares e o discurso do narrador onisciente. Se no romance naturalista anterior, existe uma separação nítida entre essas duas vozes (a popular e a culta), em A Bagaceira a oralidade adotada pelo narrador dilui as fronteiras discursivas, que tornam o livro menos retórico e mais ao gosto dos modernistas. Vale notar que esses procedimentos não impedem a irrupção de preciosismos dignos da pena parnasiana de um Coelho Neto (1864-1934).

Obras 1

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Espetáculos 1

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Fontes de pesquisa 6

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  • ALMEIDA, José Américo de. A Bagaceira. Editora José Olympio: Rio de Janeiro, 1987.
  • ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. Modernismo e regionalismo no Brasil: entre inovação e tradição. Tempo social, São Paulo, v. 23, n. 2, novembro de 2011.
  • BUENO, Luís. Uma História do Romance de 30. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Campinas: Editora da Universidade de Campinas, 2006.
  • CANDIDO, Antonio. A revolução de 1930 e a cultura. A educação pela noite. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2006.
  • LAFETÁ, João Luiz. 1930: a crítica e o modernismo. Rio de Janeiro: Editora 34, 2000.
  • O POVO. José Américo: um jovem de 90 anos. O Povo, Fortaleza, 8 fev. 2000. Disponível em: http://www.opovo.com.br/app/acervo/entrevistas/2012/09/21/noticiasentrevistas,2922002/jose-americo-um-jovem-de-90-anos.shtml. Acesso em: 13 maio 2015

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