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Literatura

Otto Lara Resende

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 18.02.2021
01.05.1922 Brasil / Minas Gerais / São João del Rei
28.12.1992 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Otto Oliveira de Lara Resende (São João del Rei, Minas Gerais, 1922 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1992). Romancista, contista, cronista, jornalista. Conclui os estudos primários e ginasiais no internato Instituto Padre Machado, colégio religioso fundado pelo pai, em São João del Rei. 

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Otto Oliveira de Lara Resende (São João del Rei, Minas Gerais, 1922 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1992). Romancista, contista, cronista, jornalista. Conclui os estudos primários e ginasiais no internato Instituto Padre Machado, colégio religioso fundado pelo pai, em São João del Rei. 

Muda-se para Belo Horizonte e, em 1943, inicia carreira no jornalismo ao lado dos colegas Fernando Sabino (1923-2004), Hélio Pellegrino (1924-1998) e Paulo Mendes Campos (1922-1991). Trabalha para O Diário e coordena o suplemento literário da Folha de Minas. Nos jornais, publica seus primeiros contos. Bacharel em Direito pela Faculdade de Ciências Sociais e Jurídicas, transfere-se para Rio de Janeiro em 1946. Na então capital federal, colabora em periódicos como Diário de Notícias, O Globo, Diário Carioca e Correio da Manhã e assume cargo burocrático na Secretaria Geral de Finanças do Distrito Federal. Como redator do jornal Última Hora, escreve para editorias e publica críticas de cinema. Estreia com o livro de contos O Lado Humano (1952). É diretor da revista Manchete. Lança Boca do Inferno (1957), livro de contos. Inicia a redação de seu primeiro e único romance, O Braço Direito. Muda-se para Bruxelas, onde trabalha no serviço diplomático de cultura. Retorna ao Brasil em 1959. 

Advoga na Procuradoria do Distrito Federal e, com a transferência da capital federal para Brasília, em 1960, assume o cargo de Assessor Técnico da Presidência da República. Publica O Retrato na Gaveta (1962), contos, e finalmente O Braço Direito (1963). Participa da fundação da TV Globo e trabalha para o Jornal do Brasil, onde permanece até 1973. Na TV Globo, é apresentador de noticiário noturno. Vai a Lisboa como adido cultural. De volta ao Brasil, publica As Pompas do Mundo (1975), contos. 

É eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1979.  Aposentado pelo serviço público, desliga-se da TV Globo. Em 1991, inicia atividade cronística na Folha de S.Paulo. Em 1993, uma nova edição de O Braço Direito, é publicada.  

Otto Lara Resende faz parte de uma geração de escritores mineiros para quem a experiência modernista, suas obras, conquistas e autores, Mário de Andrade (1893-1945) e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) à frente, exerce papel fundamental na concepção de novos caminhos expressivos. Com experiência jornalística, parte dessa geração, composta por nomes como Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino, colegas de Otto nas redações mineiras ou cariocas, estreia na literatura na década de 1950. Nesses anos, segundo Antonio Candido (1918), o outrora restrito “idioleto” do modernismo, com suas soluções antiacadêmicas e desafiadoras, torna-se “fato natural da ficção”, processo formal integrado à prática da escrita.    

Comparada às manifestações anteriores, o que caracteriza a obra  desses escritores é o “rigor” da forma. Autores como Clarice Lispector (1920-1977) e Guimarães Rosa (1908-1967) reorientam a literatura para maior consciência da escrita. É dentro deste contexto que Fernando Sabino, Lygia Fagundes Telles (1923), Dalton Trevisan (1925) e Otto Lara Resende lançam os primeiros livros. Tal geração cresce sob o impacto da Segunda Guerra Mundial e da ditadura do Estado Novo (1937-1945), fatos históricos que têm consequências sobre suas visões de mundo.

Formada por um romance, quatro livros de contos, duas novelas e considerável conjunto de crônicas, a obra de Otto Lara Resende destaca-se pela unidade temática e formal. A força de sua literatura reside, dentre outros aspectos, na prosa moderna e límpida, de gosto clássico. Por meio dela, o autor mineiro dá forma a uma “matéria sórdida”, habitada por personagens sombrios, histórias marcadas pelo dilaceramento religioso ou temas como o parricídio, a castração, o incesto, o suicídio, a incomunicabilidade, os rituais de passagem da infância e a orfandade. Sem cair nas armadilhas do melodrama, o narrador de Otto Lara Resende guarda distância em relação à matéria que descreve. Sua voz oscila, usando as palavras de Augusto Massi (1959), “entre a revelação de um crime e o pudor de um segredo” –, estratégia que coloca o leitor na incômoda posição de "testemunha silenciosa”.

Sem par na ficção brasileira moderna, a obra de Otto Lara Resende não se acomoda às classificações literárias. Guarda parentesco com o romance católico brasileiro, no que diz respeito aos motivos do universo religioso, comum a obra de Cornélio Pena (1896-1958), Lúcio Cardoso (1912-1968) e Octavio de Faria (1908-1980) e afasta-se dele ao optar por um tratamento formal diverso. A prosa enxuta e objetiva, avessa ao espiritualismo, molda a “matéria escura” de que são feitas suas histórias. Em Otto, o mergulho nos impasses da consciência católica, da culpa e do pecado, combina-se com o absurdo digno das histórias do tcheco Franz Kafka (1883-1924) ou do francês Albert Camus (1913-1960).

A esse universo sombrio, esculpido com lucidez, não faltam referências à “mineiridade”, aos cenários, personagens e lembranças de uma provinciana São João del Rei.

Tais características manifestam-se no conjunto de sua obra. Primeiro de seus livros, O Lado Humano, revela as qualidades da prosa do escritor numa série de narrativas que compõem um retrato irônico da classe média carioca. Do Rio de Janeiro, o escritor mineiro regressa ao solo da terra natal em Boca do Inferno, coleção de contos habitada por meninos atormentados, numa visão nada edificante da infância. Já no romance O Braço Direito, constrói o diário íntimo de um inspetor de órfãos, o qual, segundo Antonio Candido, é um “narrador tacanho”, figura patética e dolorosa, que se exprime de maneira convencional e que vive reverenciando os poderosos. Opressão religiosa e econômica, ecos da escravidão, conservadorismo e hipocrisia são alguns dos temas da crítica social contida nos livros de Otto Lara Resende.

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Fontes de pesquisa 8

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  • AMBIRES, Juarez Donizetti. Imagens da infância e da adolescência em Otto Lara Resende. São Paulo: Porto de Ideias, 2010.
  • CANDIDO, Antonio. A nova narrativa. In: CANDIDO, Antonio. A educação pela noite. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006. p. 241-260.
  • CANDIDO, Antonio. Drummond prosador. In: CANDIDO, Antonio. Recortes. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2006.
  • MARTIN, Carlos Frederico Barrere. A via crucis da consciência em O braço direito de Otto Lara Resende. Tese (Doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.
  • MASSI, Augusto. Narrador de tocaia. In: RESENDE, Otto Lara. Boca do Inferno (posfácio). São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
  • MEDEIROS, Benício. Otto Lara Resende: a poeira da glória. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1998.
  • SANTOS, Tatiana Longo dos. Três Ottos por Otto Lara Resende. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.
  • SILVERMAN, Malcolm. O Mundo Misantrópico de Otto Lara Resende. In: Moderna Ficção Brasileira 2. Tradução João Guilherme Linke. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1981.

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