Artigo da seção pessoas Jorge Mautner

Jorge Mautner

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deJorge Mautner: 17-01-1941 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia
Henrique George Mautner (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1941). Compositor, cantor, instrumentista, escritor, poeta, romancista, ensaísta, tradutor. É filho de refugiados da Segunda Guerra Mundial, Anna Illich, iugoslava, e Paul Mautner, austríaco judeu de Viena. A mãe, traumatizada pela guerra, e os afazeres do pai, que atua no Brasil na resistência judaica, fazem com que, até os sete anos, Mautner fique sob os cuidados de sua babá Lucia. Com ela, uma mãe de santo (Yalorixá), frequenta os terreiros de candomblé, em meio a cânticos e batuques.

Em 1948, a separação dos pais faz com que Mautner se mude para São Paulo. A mãe  se casa com o violinista Henri Müller. O padrasto, primeira viola da Orquestra Sinfónica de São Paulo, ensina-o a tocar violino e leva-o aos bastidores dos programas da Rádio Nacional da capital paulista. Na rádio, ele tem contato com Aracy de Almeida (1914-1988), Nelson Gonçalves (1919-1998), Blecaute (1919-1983), Jorge Veiga (1910-1979), Tonico (1917-1994) e Tinoco (1920), Elizeth Cardoso (1920-1990), Inezita Barroso (1925-2015), Marlene (1922-1914) e Emilinha Borba (1923-2005).

Nos anos 1950, período em que estuda no Colégio Dante Alighieri, escreve seu primeiro livro, Deus da Chuva e da Morte, pelo qual recebe o Prêmio Jabuti de Literatura, em 1962,  e as primeiras composições musicais: “Iluminação”, “Olhar Bestial”, “O Vampiro”(1958). Nesta época, Mautner lança o Partido Kaos e, de 1963 até o golpe militar de 1964, publica coluna diária no jornal Última Hora intitulada “Bilhetes do Kaos”. Nela, comenta sua visão de mundo baseada na trilogia sexo, sangue e futebol. Em 1963, lança seu segundo livro, Kaos. Adere ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), convidado pelo crítico Mario Schenberg (1914-1990) para participar de uma célula cultural do Comitê Central com José Roberto Aguilar (1941). Em 1965, publica os livros Narciso em Tarde Cinza e O vigarista Jorge que, apesar do título, não é autobiográfico, encerrando a Trilogia do Kaos. No ano seguinte, grava um compacto contendo as canções “Radioatividade” e “Não, Não, Não”. O conteúdo provocador de sua obra leva-o a ser incluído na Lei de Segurança Nacional. Exila-se nos Estados Unidos e, em 1967, trabalha com o escritor americano Robert Lowell (1917-1977). Conhece Paul Goodman (1911-1972), teólogo da nova-esquerda do anarquismo pacifista, de quem recebe influências sobre ecologia. Nos Estados Unidos, escreve músicas em parceria com a compositora e pianista Carla Bley (1938), entre as quais “Olhos de Gato”. De volta ao Brasil em 1968, trabalha no filme de Neville D’ Almeida (1941), Jardim de Guerra, escrevendo roteiro e argumento. O filme é censurado e filmado em Londres, em 1970, com participação de Caetano Veloso (1942) e Gilberto Gil (1942). No Brasil, escreve no periódico O Pasquim e inicia longa parceria musical com Nelson Jacobina (1953-2012).  Entre as músicas mais conhecidas dessa parceria está “Maracatu Atômico”, gravado por Gilberto Gil em 1974 e, por Chico Science (1966-1997) e Nação Zumbi, em 1996.

Análise
Jorge Mautner, o profeta do Kaos, como ele próprio se define, é um artista que se diferencia dos músicos rotulados como Música Popular Brasileira (MPB). Para Caetano Veloso que, assim como Gilberto Gil, chama-o de mestre, seu processo de criação é mais livre. Caetano ressalta que a música O Vampiro (1958), bem antes do movimento tropicalista, já aponta para as inovações estéticas desse movimento em meados dos anos 1960. Isso é perceptível na poética de suas letras, explorando imagens da cultura pop e do consumo, e na estética musical que funde elementos do rock com a música brasileira. Segundo Caetano, na autobiografia Verdade Tropical (1997), a inventividade e as ideias de Mautner foram determinantes para os tropicalistas consolidarem sua oposição à esquerda nacionalista dominante na MPB da época.

Mautner, com uma dezena de discos lançados e uma trajetória artística de quase meio século, tornou-se um dos nomes mais provocadores da música nacional. Embora mais conhecido pelo sucesso de “Maracatu Atômico”, é parceiro de Gilberto Gil na canção “Rouxinol”, gravada por Vânia Bastos (1956) em 1990 e de Nelson Jacobina em “Lágrimas Negras”, lançada por Gal Costa (1945) em 1974. Com Moraes Moreira (1947) compõe “Pelas Capitais” em 1979. Nos anos 1980, Zé Ramalho (1949)  e Lulu Santos (1953) regravam “Orquídea Negra”, de sua autoria. O “Relógio Quebrou”, é lançado por Gil em 1974 e “Viajante”, por Fagner (1949) em 1983.

A irreverência de sua obra, expressa a atmosfera dos anos 1970. Exemplo disso é o espetáculo musical,  Pra Iluminar a Cidade, montado no Teatro Opinião, Rio de Janeiro, e o disco do mesmo nome, lançado em 1972, no selo Pirata. O disco é  boicotado pelos lojistas, assim como seu livro Fragmentos de Sabonete (1973) e seus LPs, Jorge Mautner (1974) e Mil e Uma Noites de Bagdá(1976). Nessa mesma década,  ele participa do show e do disco idealizado e dirigido por Jards Macalé (1943)Banquete dos Mendigos, ao lado de Paulinho da Viola (1942), Edu Lobo (1943), Johnny Alf (1929-2010), Raul Seixas (1945-1989), Chico Buarque (1944). O show realizado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro MAM/RJ), em 1973, comemorava os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, um ato de resistência à ditadura militar vigente no país.

Nas décadas seguintes, Mautner grava os discos Bomba de Estrelas (1981), com parceria e participação de artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Pepeu Gomes (1952) e Robertinho do Recife (1963);  Antimaldito (1984) e O ser da tempestade: 40 anos de carreira (1999), além de publicar outros livros.  Em 2002, o seu disco Eu Não Peço Desculpa, em parceria com Caetano Veloso, ganha o prêmio Grammy Latino (2003).

Mautner lança, em 1987, com Gilberto Gil, o movimento Figa Brasil1, no show O Poeta e o Esfomeado. O manifesto do movimento proclama: "Figa Brasil é o desejo de uma alquimia que faça encontrar os que estão separados. Que faça sambar os que só escrevem, que faça escrever os que só têm sambado!". Ao propor a discussão sobre a cultura brasileira, o compositor convida as pessoas a se reunirem para refletir e dialogar. E anuncia: "Está na hora do Macunaíma elaborar seu caráter". Reconhecimento tácito da presença da pluralidade cultural do Brasil em cada um de nós. Em 2009, Mautner entra novamente na linha de frente do debate cultural brasileiro e lança o Manifesto Amalgamista, no qual ressalta as qualidades das culturas no Brasil e conclui: "Somos todos mestiços, graças a Deus!". Sua produção cultural carrega vários Brasis, unidos numa mesma língua que proclama a harmonia, a fusão e a fraternidade da miscigenação.

Aos setenta e dois anos, sua trajetória artística é narrada no documentário,  O Filho do Holocausto (2012), dirigido por Pedro Bial (1958) e Heitor D´Alincourt. Baseado no livro autobiográfico homônimo, conta a história de Mautner do nascimento até os 17 anos.

Nota
1 Manifesto Movimento Figa Brasil, publicado no Jornal da Tarde em 13 março 1987, com o título: “Um Caráter para Macunaíma”.

Outras informações de Jorge Mautner:

  • Outros nomes
    • Henrique George Mautner
    • George Mautner
  • Habilidades
    • Cantor/Intérprete
    • escritor
    • Ator
    • músico
    • Compositor
    • Poeta
    • Romancista
    • ensaísta
    • Tradutor

Midias (1)

Jorge Mautner - Álbum Itaú Cultural - Série +70 (2014)
Itaú Cultural

Exposições (3)

Eventos relacionados (1)

Fontes de pesquisa (4)

  • Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica e popular. Organização Marcos Antônio Marcondes. 2ª ed. São Paulo: Art Editora: Publifolha, 1999.
  • O FILHO do Holocausto. Direção de Pedro Bial e Heitor D'Alincourt. Rio de Janeiro: Canal Brasil, 2012. 
  • PANFLETOS da Nova Era. Site oficial do artista. Disponível em: < http://www.panfletosdanovaera.com.br >.
  • VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo, Companhia das Letras, 1997.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • JORGE Mautner. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa7106/jorge-mautner>. Acesso em: 25 de Set. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7