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Enciclopédia Itaú Cultural

Gerson King Combo

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 11.11.2022
1943 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
2020 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Gerson Rodrigues Côrtes (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1943 – idem, 2020). Cantor, compositor. É um dos artistas mais importantes da cena de soul e funk na música brasileira. A mensagem de orgulho negro nas letras, as composições baseadas no ritmo dançante, a performance de palco com passos de dança inspirados no cantor e compositor estadunide...

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Gerson Rodrigues Côrtes (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1943 – idem, 2020). Cantor, compositor. É um dos artistas mais importantes da cena de soul e funk na música brasileira. A mensagem de orgulho negro nas letras, as composições baseadas no ritmo dançante, a performance de palco com passos de dança inspirados no cantor e compositor estadunidense James Brown (1933-2006) e a indumentária extravagante (com capa, chapéu, terno e óculos escuros) são marcas de sua persona artística. 

O interesse pela música e pela dança surge nos anos 1960. Aprende coreografias e conhece discos de bandas da soul music estadunidense, como Diana Ross & The Supremes e Four Tops, por intermédio de seu irmão mais velho, o compositor Getúlio Côrtes (1938), autor de sucessos da jovem guarda como “Negro gato”. Lidera o grupo The Drinkers, entre 1960 e 1964, que se apresenta com regularidade no programa de rádio Hoje é dia de rock. Torna-se dançarino, coreógrafo e contrarregra no programa Jovem Guarda, da TV Record, apresentado pelos cantores Roberto Carlos (1941), Erasmo Carlos (1941) e Wanderléa (1946).

Lança as primeiras gravações como intérprete em dois compactos de vinil, em 1968 e 1969, com músicas do irmão Getúlio. Na mesma época, participa de um show de Wilson Simonal (1938-2000) como uma espécie de dublê do cantor carioca: Gerson faz backing vocals, dança e canta algumas músicas do repertório.

Em 1970, lança o primeiro álbum. Gerson Combo e a turma do soul embarca na tendência da soul music que começa a se formar no Brasil, com os trabalhos de artistas como o cantor Tim Maia (1942-1998) e o músico Dom Salvador (1938), pianista com longeva carreira nos Estados Unidos e um dos fundadores do grupo Dom Salvador e Abolição. O repertório traz clássicos da música brasileira como “Quero voltar para a Bahia”, de Paulo Diniz (1940), “Na baixa do sapateiro”, de Ary Barroso (1903-1964), e “Xote das meninas”, de Luiz Gonzaga (1912-1989) e Zé Dantas (1921-1962), em arranjos influenciados pela soul music. A característica principal do trabalho é a ênfase no ritmo, nas linhas de baixo e na voz grave e rouca do intérprete.

Nos primeiros anos da década de 1970, o artista lança mais alguns compactos e participa de gravações de bandas como Fórmula 7, Som Três e Orquestra Som Bateau. O segundo disco, Gerson King Combo, é lançado em 1977, no período em que o movimento Black Rio efervesce no Rio de Janeiro. Atento à crescente cena de bailes de subúrbio que reúnem milhares de jovens negros para dançar o soul e o funk, as gravadoras brasileiras apostam em artistas do país que trabalham com esse tipo de música. No mesmo ano são lançados os LPs Maria fumaça, da Banda Black Rio, e Pra que vou recordar, de Carlos Dafé (1947), considerados clássicos do gênero no Brasil.

Gerson assume um personagem, se autodeclara o rei do funk e adota o “king” ao nome artístico. O trabalho de 1977 é completamente baseado na influência de James Brown. Na contracapa do LP, inclusive, consta um telegrama assinado pelo cantor estadunidense, em que parabeniza Gerson pela obra. Com a banda União Black de apoio na maior parte das músicas, os arranjos funcionam como uma engrenagem em que todos os instrumentos trabalham quase exclusivamente pelo ritmo. Fraseados de metais e levadas de guitarras de poucos acordes são elementos que reforçam o diálogo entre baixo e bateria.

É a partir deste trabalho que Gerson canta, principalmente, sobre o orgulho de ser negro. Em “Mandamentos black”, um de seus grandes sucessos, ele faz uma declamação que diz: “assuma sua mente, brother / e chegue a uma poderosa conclusão / de que os blacks não querem ofender a ninguém, brother / o que nós queremos é dançar / dançar, dançar e curtir muito soul”. As palavras soam como uma convocação ao povo negro e, ao mesmo tempo, sintetizam o fenômeno cultural que acontece no Rio de Janeiro no período ao enfatizar a gíria “brother” e o culto à dança como afirmação da negritude. O discurso de exaltação presente em sua obra inspira artistas de rap. Marcelo D2 (1967), por exemplo, cita versos de “Mandamentos black” na música “Qual é”.

Músicas como “Hereditariedade”, “Uma chance” e “God save the king” seguem a mesma estrutura, tanto na sonoridade como no conteúdo lírico. É o caso também de “Funk brother soul”, um dos clássicos do terceiro disco, Gerson King Combo II, de 1978, em que ele canta sobre como dançar o funk, acompanhado de uma base instrumental suingada. Nesse LP, no entanto, o artista apresenta um repertório com mais baladas românticas e melódicas como “Hey você” e “Na trilha do coração”.

Nos anos 1980, sua produção se restringe a poucos singles lançados em compactos. No fim dos anos 1990, volta aos palcos a convite de artistas como Paula Lima (1970) e Fernanda Abreu (1961). Retoma a carreira com repertório autoral, acompanhado da banda Supergroove, e grava mais dois discos: Mensageiro da paz (2001) e Soul da paz (2009).

Entre os nomes do movimento Black Rio, Gerson King Combo é o que mais enfatiza a mensagem do orgulho negro e inspira o discurso de artistas do rap. Os três discos lançados nos anos 1970 lhe garantem um lugar entre os principais nomes do funk brasileiro, ao lado de Tim Maia, Tony Tornado (1930) e Banda Black Rio. Ainda que com inspiração explícita em James Brown, Gerson encontra uma identidade brasileira e adapta o discurso estadunidense de luta pelos direitos civis à realidade do subúrbio do Rio de Janeiro.

 

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