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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Aline Bei

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 17.08.2022
09.10.1987 Brasil / São Paulo / São Paulo
Aline Bei (São Paulo, São Paulo, 1987). Escritora, atriz. Importante voz da literatura brasileira contemporânea, demarca sua escrita por uma prosa poética em que as experiências afetivas de mulheres são esmiuçadas em seus desejos, angústias, silenciamentos e pequenos prazeres encontrados em meio às profundidades da própria existência.

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Aline Bei (São Paulo, São Paulo, 1987). Escritora, atriz. Importante voz da literatura brasileira contemporânea, demarca sua escrita por uma prosa poética em que as experiências afetivas de mulheres são esmiuçadas em seus desejos, angústias, silenciamentos e pequenos prazeres encontrados em meio às profundidades da própria existência.

Filha de uma família de classe média afetada pelas crises econômicas brasileiras que marcam o início dos anos 1990, Aline começa a escrever ainda criança como maneira de lidar com as questões que atravessam a sua infância. Conclui a graduação em letras na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e também se forma no curso de artes cênicas pelo Centro de Artes e Educação Célia Helena, em São Paulo, na primeira década dos anos 2000. Na universidade, participa como idealizadora e escritora na Revista Transa, uma publicação de caráter experimental que a permite exercitar a sua escrita.

Atua profissionalmente como atriz entre os anos finais da adolescência e o começo da idade adulta, quando decide se dedicar primordialmente à literatura. Em 2015, participa de cursos livres e oficinas de escrita, o que a aproxima do escritor Marcelino Freire (1967). No ano de 2016, vence o prêmio Toca de Literatura, idealizado por Marcelino, o que permite que o seu romance intitulado O peso do pássaro morto ganhe visibilidade e seja publicado em 2017 pela Editora Nós.

Romance de estreia, O peso do pássaro morto sinaliza a aparição de uma escritora que assume o seu projeto literário autoral, uma mescla de prosa e poesia caracterizada por um trabalho cuidadoso que funde a narrativa íntima e pessoal da protagonista com uma experimentação formal do texto literário: frases curtas, períodos espaçados na mancha da página e diagramação particular do corpo do texto. O livro sobrevoa a vida da personagem principal, uma mulher da qual não se conhece o nome, desde os oito até os 52 anos de idade. Esse sobrevoo, caracterizado pela passagem de um vasto período de tempo cronológico, é também marcado por imersões profundas em episódios definitivos na vida dessa mulher.

Traumas de infância, violência de gênero, maternidade solitária, adoecimento psíquico e grandes perdas afetivas balizam a história da personagem que consegue existir com alguma alegria apenas quando estabelece uma relação de profunda afetuosidade com seu cão, Vento. O livro alcança índice de vendas acima da média para um nome estreante devido a uma estratégia de divulgação, por meio das redes sociais, pensada e executada pela própria autora. Bem recebido por público e crítica, em 2018 é a obra que garante a Aline o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria de melhor autor com menos de 40 anos.

Em 2021, na esteira do sucesso alcançado pelo antecessor, lança o seu segundo livro, Pequena coreografia do adeus, por uma editora de grande alcance, a Companhia das Letras. O romance reitera e consolida as escolhas formais características da escrita de Aline, com destaque para as pausas e respiros que o texto apresenta, além da utilização de sinais gráficos como expressão das emoções, tão presentes na narrativa e marca autoral da construção das personagens, sobretudo das personagens femininas. Júlia Terra, protagonista e narradora do romance, apresenta a história de sua vida e das possibilidades de existência em um contexto familiar delimitado pela violência, pela falta de diálogo e pelo abandono.

A relação de Júlia com seus pais, Vera e Sérgio, e a relação do casal entre si, mediada pelo olhar da filha, são o ponto de partida para a entrada e permanência do leitor na trama. A experiência de uma relação intrafamiliar construída sobre silêncios e violências constantes faz com que Júlia tente realizar uma ruptura com a ausência de amor e busque trilhar um caminho de afetividades fora de seu círculo familiar. Tais afetos se constroem a partir de pessoas que entram em sua vida de maneira inesperada e passam a ser parte fundamental de suas relações afetivas, como a viúva Argentina e o ex-boxeador Vegas. Essas novas relações se mostram cruciais para que ela se torne a adulta consciente de si e dos vestígios dolorosos da criança que foi, sem que sucumba a eles e reproduza o sofrimento do qual foi vítima. Além disso, o texto literário fala da urgência da escrita como uma tática de sobrevivência para Júlia, que encontra em seu diário o espaço de conforto pelo reconhecimento de quem ela é.

Figura importante na trajetória de Aline, o escritor Marcelino Freire aponta um dos aspectos literários mais contundentes da obra da autora, um ritmo particular que, embora se aproxime da poesia, rompe com alguns de seus moldes e inaugura uma prosa poética singular. De acordo com Marcelino: “ela dá um batimento cardíaco ao texto"1. É justamente por esse pulsar na escrita que se pode perceber a familiaridade da autora com outras expressões artísticas, como o teatro. O texto de Aline, não coincidentemente, tem forte aproximação com o texto teatral. Em 2020, O peso do pássaro morto é transformado em monólogo – numa experiência de apresentações virtuais2 – pela Companhia Vadabordo, de São Paulo, com direção do ator e diretor Nelson Baskerville (1961) e atuação da atriz Helena Cerello (1977).

A escolha por tratar de questões pertinentes à subjetividade feminina num mundo dominado pelo patriarcado e a habilidade no manejo com palavras para narrar experiências tão particulares quanto coletivas são os traços da obra de Aline Bei. Sua obra atrai o olhar interessado da crítica especializada e do público leitor, bem como suscita uma atenta expectativa pelo caminho a ser percorrido por ela e sua produção literária.

Notas

1. Em reportagem do caderno de cultura do jornal O Globo, de 15 de outubro de 2018, Marcelino Freire analisa brevemente a estética literária de Aline Bei, após o lançamento de seu primeiro livro e da indicação ao Prêmio São Paulo de Literatura, que a obra ganharia pouco tempo depois. Nas palavras de Marcelino: “A escrita de Aline tem uma pulsação muito própria. Não é poesia o que ela faz quando quebra frases, isola palavras ou coloca maiúsculas no meio do texto. Ela dá um batimento cardíaco ao texto.” Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/livros/romance-de-estreia-de-aline-bei-conquista-fas-com-ritmo-poetico-23155573. Acesso em: 9 out. 2021.

2. Reportagem da revista Istoé, de 07 de agosto de 2020, noticia a estreia do monólogo baseado em O peso do pássaro morto, apresentado no formato de um experimento de teatro virtual pela Companhia Vadabordo. Disponível em: https://istoe.com.br/baseado-em-livro-vencedor-do-premio-sao-paulo-de-literatura-experimento-teatral-virtual-estreia-no-dia-22/. Acesso em: 9 out. 2021.

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