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Enciclopédia Itaú Cultural

Lazzo Matumbi

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 03.03.2022
1957 Brasil / Bahia / Salvador
Lázaro Jerônimo Ferreira (Salvador, Bahia, 1957). Cantor, compositor, arranjador musical, ativista. Expoente da música negra baiana, desde o início da carreira é reconhecido por criar diversas canções de sucesso associadas ao reggae. Figura ainda entre os criadores do samba-reggae, abordando em suas letras temas relativos à permanência da escrav...

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Lázaro Jerônimo Ferreira (Salvador, Bahia, 1957). Cantor, compositor, arranjador musical, ativista. Expoente da música negra baiana, desde o início da carreira é reconhecido por criar diversas canções de sucesso associadas ao reggae. Figura ainda entre os criadores do samba-reggae, abordando em suas letras temas relativos à permanência da escravidão no Brasil, ao racismo e à exaltação de culturas afrodiaspóricas e africanas. Antes da trajetória solo, participa do bloco afro soteropolitano Ilê Aiyê como vocalista.

Único filho de dona Minervina (c. 1926), na infância recebe poderosa influência da música – sobretudo do som dos atabaques nas rodas de samba do bairro Federação e nas festas de São João na avenida Anita Garibaldi. Nesses encontros, a mãe, além de cantar, toca pratos, enlaçando o filho afetivamente nas sonoridades da percussão. Lazzo escolhe se dedicar profissionalmente à música e, com a marcante voz grave e rouca, é admitido como vocalista do bloco Ilê Aiyê. Trabalha no grupo carnavalesco e militante de 1978 a 1980, período em que fortalece não somente seu veio artístico, mas também a consciência de pertencimento à negritude. A partir de então, torna-se ativista dos direitos humanos pela igualdade racial, ele próprio vítima de racismo: na adolescência, uma mulher o confunde com um funcionário do Conjunto Residencial Politeama, o Minhocão, edifício residencial modernista entre os mais populosos de Salvador, onde mora após a saída da casa dos pais, no município de Simões Filho.

A política nunca está ausente de sua produção artística, desde que se lança para a carreira solo, em 1981, com um show no Teatro Vila Velha e a gravação de um compacto com as canções “Salve a Jamaica” (rebatizada de “Djamila”), em homenagem ao músico jamaicano Bob Marley (1945-1981), e “Guarajuba”. Até então conhecido pelos apelidos Lazinho do Ilê e Lazinho Diamante Negro, altera o nome artístico para Lazzo Matumbi, sobrenome que remete à palavra iorubá que designa uma pedra sagrada na Nigéria.

Depois de três anos em São Paulo, retorna à capital baiana em 1986. O sucesso da música “Fricote”, do cantor conterrâneo Luiz Caldas (1963), provoca forte incômodo de Lazzo com os versos “Nega do cabelo duro / Que não gosta de pentear” e “O negão começa a gritar”. Em resposta ao teor racista desse hit, compõe “A Alegria da Cidade”, em parceria com o amigo, professor, poeta e letrista Jorge Portugal (1956-2020). Embora a interpretação do compositor seja vetada pelo produtor musical, a canção se torna o primeiro grande sucesso da carreira de Lazzo semanas depois, a cantora Margareth Menezes (1962), estrela em ascensão, ganha do artista o direito de cantá-la e gravá-la, tornando-a um sucesso nacional. Para a produção da faixa, no entanto – e em mais um episódio racista –, a gravadora exige a troca do verso original “sou a cor da Bahia” por “sou o som da Bahia”.

Em 1988, ano do centenário da abolição da escravatura, lança o terceiro disco da carreira, considerado um clássico do cancioneiro nacional, Atrás do Por do Sol1. Gravado por um selo independente, o trabalho não alcança grande repercussão na época (quando a axé music já aparece nas paradas), apesar de conter grandes sucessos do cantor, como “Me Abraça e Me Beija” (anterior à faixa homônima da Banda Eva), “Cidade do Amor” e a canção que dá título ao álbum. Compostas com alguns parceiros, como Gileno Félix (1952) e José Carlos Capinam (1941), as canções expõem os flagelos de uma sociedade cindida, mas também oferece esperança de justiça e igualdade social. É o caso de “Abolição”, com os versos: “E a lição / A lição do meu avô / Foi ser dono do meu ser / Foi saber o que eu sou”. 

Ainda nos anos 1980, encontra-se em Salvador com o cantor de reggae jamaicano Jimmy Cliff (1948), que o convida para os shows de abertura e percussões em uma turnê de três anos, passando pela Europa, e na apresentação no Rock in Rio de 1991.

Em 2021, publica o nono álbum da carreira, ÀJÒ, palavra iorubá que pode ser traduzida como “jornada” ou, nos terreiros de candomblé, “união”. Pontuado por elementos de reggae e samba, que o artista afirma ser a sua permanente fonte de inspiração rítmica, o disco tem outra parceria com Jorge Portugal em “14 de Maio”, referência ao dia posterior à abolição da escravatura e que, em larga medida, parece nunca se encerrar. O trabalho destaca os orixás e a cultura nagô em geral, temas que permeiam a discografia do cantor desde o álbum Filho da Terra (1985).

No mesmo ano, o disco Atrás do Por do Sol ganha homenagem para marcar as quatro décadas da carreira do cantor, com interpretações inéditas dos cantores Luedji Luna (1987), Francisco Gil (1995) e Anelis Assumpção (1980). Com arranjos elaborados pelo duo Rabo de Galo em conjunto com o DJ Ubunto, o álbum remete à obra celebrada: Ainda atrás do Pôr do Sol – Uma Homenagem a Lazzo Matumbi. O trabalho, permeado pela linguagem dos sound systems jamaicanos e da música eletrônica, integra projeto contemplado pelo edital Natura Musical.

Inspirado no reggae e amparado pelo groove do samba, Lazzo Matumbi constrói sua trajetória musical, dotada de criatividade e senso crítico, reverenciando sua ancestralidade, apontando as inconsistências e injustiças do tempo presente, sempre com vistas a um futuro cheio de axé, em que a igualdade de fato possa dar o tom das relações humanas.

Notas

1. Em entrevista para a revista online Vice, Lazzo comenta sobre a ausência proposital do acento circunflexo em “pôr”, mas sem deixar claro qual o motivo dessa escolha.

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