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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Palhaço Xamego

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 07.02.2022
1909 Brasil / São Paulo / São José do Rio Pardo
2007 Brasil / São Paulo / São Paulo
Reprodução fotográfica autoria deconhecida

Palhaço Xamego, 1942
Palhaço Xamego
Acervo da Família Xamego

Maria Eliza Alves dos Reis (São José do Rio Pardo, São Paulo, 1909 - São Paulo, São Paulo, 2007). Palhaço, atriz, cantora. Considerada a primeira palhaça negra brasileira, se apresenta com seu nome masculino palhaço Xamego numa época em que mulheres não atuam como palhaço no universo circense brasileiro.

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Maria Eliza Alves dos Reis (São José do Rio Pardo, São Paulo, 1909 - São Paulo, São Paulo, 2007). Palhaço, atriz, cantora. Considerada a primeira palhaça negra brasileira, se apresenta com seu nome masculino palhaço Xamego numa época em que mulheres não atuam como palhaço no universo circense brasileiro.

Filha de João Alves, dono do Circo Theatro Guarany, nome dado em homenagem à esposa Brígida, descendente de espanhóis e indígenas charruas. Ele era um dos raros negros dentre o grupo de empresários de sua época.

Nascida no Circo, Maria Eliza se apresenta desde a infância ao lado de sua irmã, Ephigênia, desde os 8 e 10 anos, respectivamente, ficando conhecidas como “As Cantoras Mignons”.

Entre 1930 e 1940, a atriz inicia a carreira como palhaço, em parceria com seu marido Eurico Eulálio dos Reis, formando a dupla “Xamego e Reis”, apresentando o número principal no espetáculo, na época chamado “entrada”, que tinha como trilha sonora o baião Xamego, do comporsitor Luiz Gonzaga (1912-1989).

Seu personagem desastrado prepara armadilhas para irritar o elegante e pretensioso intelectual parceiro. Sua caracterização se dá pelo uso de um creme branco na face, em contraste com triangulares e volumosas sobrancelhas tão pretas como o grosso nariz em “quilon”1. O figurino era um largo terno e colete, chapéu conhecido como “coco” e sapatos pequeninos ao estilo chapliniano2

Seu ponto forte se dá na mímica, trejeitos e modo de andar mais do que o próprio vocabulário. Chama atenção ainda na caracterização o laçarote no lugar da gravata e uma camélia branca na lapela, flor-símbolo de resistência e luta pela Abolição da Escravatura.

Além da “Entrada Xamego e Reis”, o palhaço também apresenta números na Primeira Parte com animais amestrados, ora com cachorros, ora com gatos, também acompanhados, muitas vezes, pelo baião de Luiz Gonzaga. E era corriqueira a participação de Xamego em peças teatrais, sobretudo comédias, como se assistiam em antigos circos, com os palhaços Benjamim de Oliveira (1870-1954) e Eduardo das Neves (1874-1919), na Segunda Parte dos espetáculos.

Enfim, um circense masculino a surpreender o machismo vigente, já que conforme a historiadora Ermínia Silva haviam mulheres na época, que desempenhavam papéis cômicos no Circo, como a atriz Iracema Cavalcante, em 1944. Mas não eram consideradas “palhaças”, um termo que só surge nos meios circenses, com o início das Escolas de Circo, nos anos 1980.

O declínio do Circo de Lona em São Paulo e em outros estados, agravado pela morte do viúvo João, determinaram a venda do Guarany, do qual a atriz-Palhaço passou a ser a única proprietária-responsável pela empresa, a partir da morte de seu pai em 1954 até 19583. Mas, Xamego continua exibindo-se em outros circos como Circo do Bolachinha e Circo do Penacho – e em programas televisivos como o Clube Papai Noel da TV Tupi, o Circo do Arrelia da TV Record e na TV Paulista4. Segundo Daise Alves dos Reis Gabriel, filha de Maria Eliza, o palhaço deve ter se apresentado até mais dos 70 anos de Maria Eliza.

Desde 2016, a memória de Xamego é preservada e divulgada por sua neta Mariana Gabriel, cineasta e criadora da Palhaça Birota, através de exibições do documentário Minha Avó era Palhaço!, com co-direção de Ana Minehira, e da série Guarany, Histórias do Circo dos Pretos, lançada em 2021.

Nos documentários destacam-se as lembranças da filha Daise, mãe de Mariana, que convive com o dia-a-dia circense até sua adolescência e a compor a trupe Guarany, em “números” ao lado da mãe e do seu irmão Aristeu Alves dos Reis. 

As produções cinematográficas reúnem depoimentos de pesquisadores, circenses, parentes e amigos da família, além de grupos de espectadores que formaram a plateia cativa da palhaço, a relembrar  peripécias e performances em comédias repetidas à exaustão a pedidos, nas inúmeras “praças” da periferia paulistana. 

Uma trajetória refeita pela maioria dos circos da época, com detalhados artigos de colunas como o “Mundo Circense”, publicados na década de 1950, pelo jornalista Tito Neto, em A Gazeta Esportiva.

Assim, a paulista preta Maria Eliza Alves dos Reis, figura marcante do Circo Paulista e Brasileiro vai resgatando seu legado, tanto para a atuação de artistas da palhaçaria das gerações seguintes brasileiras, quanto para a presença feminina e preta, nesse papel  até então exclusivamente masculino no país. 

Notas

1. Produto químico que traz cromo em sua composição, utilizado nas maquiagens que exigiam a cor preta.

2. Diz respeito à caracterização do ator inglês Charlie Chaplin (1889-1977).

3. Conforme registros da Prefeitura de São Paulo.

4. Conforme depoimento do músico Vagner Assunção, participante do documentário Minha Avó era Palhaço.

Obras 2

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