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Enciclopédia Itaú Cultural
Dança

Luz del Fuego

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 15.08.2022
21.02.1917 Brasil / Espírito Santo / Cachoeiro de Itapemirim
19.07.1967 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Dora Vivacqua (Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, 1917 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1967). Atriz, bailarina, ativista. Conhecida pelas performances provocantes, que transgridem a moral conservadora de sua época, e pela defesa do modo de vida naturista e do nudismo. A defesa da liberação do corpo das mulheres dentro e fora das artes ma...

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Dora Vivacqua (Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, 1917 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1967). Atriz, bailarina, ativista. Conhecida pelas performances provocantes, que transgridem a moral conservadora de sua época, e pela defesa do modo de vida naturista e do nudismo. A defesa da liberação do corpo das mulheres dentro e fora das artes marca a cultura brasileira por seu pioneirismo.

Penúltima filha de uma família tradicional de políticos do interior do Espírito Santo, recebe educação conservadora em colégio de freiras. Desde a juventude, desafia os costumes da época e, depois de algumas internações compulsórias em hospitais psiquiátricos, foge de casa e rompe as relações com a família.

Muda-se para o Rio de Janeiro, então capital federal do país e palco das transformações de costumes de uma sociedade em processo de modernização. Em 1944, torna-se atração do Circo Pavilhão Azul, anunciada como “a mais sexy e corajosa bailarina das Américas”. Nesse primeiro momento, adota o nome artístico de Luz Divina e dança com as jiboias amazônicas apelidadas de Cornélio e Castorina.

Em 1947, deseja um nome de maior impacto e, inspirada em um batom argentino, adota o pseudônimo Luz del Fuego. Após alguns anos no circo, é contratada para trabalhar em um pequeno teatro em Copacabana. O sucesso das apresentações a leva às páginas de jornais, que a descrevem como a primeira artista brasileira a aparecer nua em um palco. 

Logo se torna a sensação do teatro de revista e uma das vedetes mais famosas da época. Realiza turnês no país e na Europa e nos Estados Unidos, atraindo  grande público pelo exotismo e carisma em suas apresentações.

A artista subverte o estigma da nudez e da sensualidade, utilizando-as a seu favor para provocar e conquistar o público. Além disso, inspirada pela bailarina e coreógrafa Eros Volusia (1914-2004), com quem tem aulas particulares, incorpora  em suas performances traços de danças populares brasileiras, como o frevo, o maracatu e o maxixe. Para Luz, as referências afro-brasileiras e indígenas em suas coreografias promovem o diálogo com o grande público, superando o hermetismo dos teatros tradicionais frequentados por uma  elite conservadora.

A ousadia das danças ritmadas e sensuais e a personalidade transgressora, no entanto, são frequentemente interpretadas como exibicionismo e afronta gratuita ao decoro da época. Se, por um lado, a artista acumula acusações de delitos contra a moral, por outro lado, angaria ainda mais fama. 

No fim dos anos 1940, publica seu primeiro livro, Trágico black-out (1947), romance sobre uma prostituta que muda de vida ao se apaixonar durante a Segunda Guerra. Em 1949, lança o Partido Naturalista Brasileiro (PNB), que defende a liberdade da mulher, o divórcio e a proximidade com a natureza. Nesse sentido, supera mais uma vez as expectativas sobre sua atuação pública ao se apresentar como vedete interessada na disputa política e como mulher consciente de sua imagem e das provocações que fomenta.

Apesar do insucesso da candidatura a deputada federal, atribuído à oposição direta de seu irmão, um senador conservador, funda o Clube Naturalista Brasileiro em 1950. Arrenda uma ilha deserta na Baía de Guanabara, onde estabelece o recanto naturista Ilha do Sol, conhecido como a primeira colônia para nudistas na América Latina e marco inicial para o movimento de nudismo no país.

Nesse mesmo período, lança a autobiografia A verdade nua (1950), obra em que relata sua trajetória artística e aprofunda a defesa do naturismo, do meio ambiente e do vegetarianismo, do qual é adepta há anos. O livro tem sua primeira edição confiscada pela polícia e pela própria família da autora, mas sua segunda edição alcança sucesso sem precedentes no mundo editorial da época, com 1.732 cópias vendidas em quatro dias. 

Nessa obra, a dançarina expõe seu pensamento crítico sobre a hipocrisia cristã e confronta os preconceitos construídos em torno da sua figura. Também desmistifica a ideia de vulgaridade e revela profundo embasamento político de suas escolhas artísticas e comportamentais. A nudez, para a dançarina, é uma ferramenta estética importante para a naturalização e libertação do corpo. Com o golpe militar, em 1964, o clube entra em decadência e a artista passa a viver sozinha na ilha. 

O vanguardismo de Luz del Fuego na defesa da liberdade do corpo, da ecopolítica e da própria independência feminina a tornam uma mulher à frente de seu tempo. Sua produção artística, com livros, performances e coreografias, questiona a moralidade de um país em processo de modernização, incorporando traços da cultura popular e abrindo caminhos para inúmeras artistas com seu legado feminista.

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