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Enciclopédia Itaú Cultural

Rincon Sapiência

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 26.10.2021
1985 Brasil / São Paulo / São Paulo
Danilo Albert Ambrosio (São Paulo, São Paulo, 1985). Rapper, compositor e produtor. Rincon Sapiência é um dos nomes de maior destaque do rap brasileiro nos anos 2010 e 2020. As letras do artista dão um passo à frente na denúncia ao racismo ao discutir sutilezas de sua estrutura, menos perceptíveis do que a discriminação racial explícita.

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Danilo Albert Ambrosio (São Paulo, São Paulo, 1985). Rapper, compositor e produtor. Rincon Sapiência é um dos nomes de maior destaque do rap brasileiro nos anos 2010 e 2020. As letras do artista dão um passo à frente na denúncia ao racismo ao discutir sutilezas de sua estrutura, menos perceptíveis do que a discriminação racial explícita.

É um inovador na relação com a moda associada à cultura hip-hop e não esconde a vaidade tanto no jeito de se vestir quanto em alguns versos de alguns de seus maiores sucessos.

Desde criança, se interessa por música. Uma das primeiras referências é o cantor e compositor norte-americano Michael Jackson (1958-2009). Grupos de rap brasileiro, como Racionais MCs e Câmbio Negro, também estão na trilha sonora de sua formação musical, por influência do irmão mais velho. Na escola, em 1999, Rincon se torna cantor do grupo MD38 e compõe sua primeira música, “Só Sangue Bom”, em 2000, influenciado pela música “Us Mano, As Mina”, do rapper Xis (1972).

Trabalha como operador de telemarketing e, com os salários, investe em equipamentos (como microfone, mesa de som e softwares de computador) para produzir as primeiras músicas.

O single “Elegância”, de 2009, o torna conhecido. A batida com efeitos eletrônicos de teclados e o andamento mais lento são elementos que chamam a atenção, pouco comuns ao rap de São Paulo do período. A letra discorre sobre o hábito de comprar roupas por preços baratos em brechós para criar um figurino elegante: “preto e formado é sempre perigoso / preto bem trajado, elegante e charmoso / pago pouco pelos panos, mas sou vaidoso / pago muito se eu deixar de ser malicioso”.

Fez uma turnê pela África, em 2012, visitando países como Senegal e Mauritânia. O contato direto com as manifestações culturais desses países é determinante para o resultado estético de discos que lança depois.

Em 2014, lança o EP SP Gueto Br. O trabalho reúne faixas gravadas anteriormente à viagem à África e apresenta produções mais saudosistas, alinhadas ao rap dos anos 1990, ainda sem a ênfase na percussão que caracteriza seus trabalhos posteriores. Embora haja uma influência explícita ao gênero jamaicano ska, em “Festa no Gueto”, e algumas referências discretas à tradição rítmica do Brasil, os arranjos ainda remetem à receita do hip-hop norte-americano, com pouca inovação na construção das batidas. A música “Transporte Público” é uma crônica sobre as dificuldades da população periférica em se locomover pela cidade de São Paulo para ir ao trabalho e voltar para casa.

Lança o disco Galanga Livre em 2017. A obra traz músicas que se conectam em um discurso único em torno da autoestima do negro. “Crime Bárbaro” versa sobre o escravo Galanga, que mata o senhor de engenho e foge da senzala. Durante a fuga, o personagem rememora os detalhes do episódio e, ao mesmo tempo, demonstra orgulho pelo ato de coragem, questionando quem é a vítima e quem é o criminoso. Diz a letra: “meu crime a ele eu culpo / bateu em criança, cometeu estupro / proibiu a dança e a religião / gerou confusão interna no grupo”.

Na faixa-título, ele volta ao tema da escravidão e reflete sobre as ambições do negro que ascendeu ou ambiciona ascender socialmente: “era escravidão, muros do casarão era nosso limite / eu não quero colher algodão, mas eu quero vestir coleção Herchcovitch”, ele canta, em referência às roupas desenhadas pelo estilista Alexandre Herchcovitch (1971), um dos mais cultuados na moda brasileira.

Já em “A Coisa Tá Preta”, o artista ressignifica uma expressão que tem origem racista e associa a cor preta a algo negativo: “se eu te falar que a coisa tá preta / a coisa tá boa, pode acreditar / seu preconceito vai arrumar treta / sai dessa garoa que é pra não molhar”.

Mundo Manicongo, seu segundo álbum, é lançado em 2019. O trabalho potencializa a influência africana com elementos percussivos em evidência na maioria das músicas. As letras também evocam a ancestralidade do continente africano recorrentemente, e o discurso enfatiza a força da dança como elemento de resistência dos povos negros em diferentes civilizações.

Em “Meu Ritmo”, ele canta: “a dança é como ginástica / ela tem a cintura elástica / ancestralidade em prática / eu confesso que é nossa tática / afinal de contas, multiplica essa multidão matemática / sente o batidão, tenho gratidão / bença nossa mãe, Dona África”.

Rincon Sapiência quebra tabus no rap brasileiro tanto lírica como esteticamente. Suas letras surpreendem ao trabalhar a autoestima do negro do ponto de vista da vaidade masculina, algo até então incomum. Ao aparecer na capa do disco Galanga Livre com uma saia, ele afronta o machismo do hip-hop e rompe com paradigmas que associam a peça de roupa ao uso exclusivo das mulheres.

Do ponto de vista musical, ele é um dos artistas que mais e melhor trabalha com elementos percussivos da música africana, caribenha e brasileira no rap e inova também ao preferir uma cadência mais lenta para suas rimas, o que facilita a compreensão de suas letras e, ao mesmo tempo, desafia o entendimento de que o bom rapper é aquele que tem a velocidade como único recurso.

Embora a denúncia ao racismo seja uma bandeira do rap brasileiro desde sua fundação, Rincon Sapiência discute o tema de modo sofisticado ao ressignificar uma expressão de origem preconceituosa (“A Coisa Tá Preta”), tratar um escravo fugitivo como herói (“Crime Bárbaro”) e enfatizar a auto-estima dos negros em suas letras.

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