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Cinema

Adélia Sampaio

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 29.07.2021
1944 Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte
Adélia Pereira Sampaio (Belo Horizonte, Minas Gerais,1944). Diretora de cinema. Reconhecida como a primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem de ficção com circulação comercial no Brasil, Adélia constrói suas histórias inspiradas em fatos reais, provocando reflexões entre o público.

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Adélia Pereira Sampaio (Belo Horizonte, Minas Gerais,1944). Diretora de cinema. Reconhecida como a primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem de ficção com circulação comercial no Brasil, Adélia constrói suas histórias inspiradas em fatos reais, provocando reflexões entre o público.

Filha de trabalhadora doméstica, vai para o Rio de Janeiro ainda criança, acompanhada da mãe e da irmã mais velha. Inicia seu contato com o cinema aos 13 anos, por influência da irmã, que na época trabalha na Tabajara Filmes, distribuidora de filmes russos no Brasil. 
 
Na década de 1960, já com o desejo de se envolver com o cinema, trabalha como telefonista na Difilm, distribuidora cinematográfica ligada ao cinema novo. Em pouco tempo, passa também a organizar e montar a programação do cineclube da empresa. Nesse período, tem contato com alguns diretores do cinema novo, como Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) e Leon Hirszman (1937-1987), e aprende na prática o fazer fílmico. 

Com o apoio de sua irmã, cria uma pequena produtora e estreia como diretora em 1979, com o curta-metragem Denúncia Vazia. O nome do filme se refere à lei de despejo, que possibilita ao locador rescindir o contrato de locação de seu imóvel sem apresentar motivo ou justificativa. O curta é baseado em uma notícia de jornal da época, sobre um casal que comete suicídio por receber uma denúncia vazia e ser despejado.

Em 1984, lança o longa-metragem Amor Maldito. Também baseado em uma história real, o longa narra o julgamento de Fernanda [Monique Lafond (1954)], acusada pela morte de Sueli [Wilma Dias (1954-1991)], uma ex-miss por quem é apaixonada. Produtora do filme e roteirista ao lado de José Louzeiro (1932-2017), Adélia encontra dificuldades financeiras para realizar e distribuir seu trabalho. A produção é viabilizada pela cooperativa entre técnicos e atores, que recebem uma ajuda de custo e uma porcentagem sobre os lucros da obra. A única forma encontrada para a exibição no circuito comercial é aceitar um cartaz que associa o filme à pornochanchada, gênero de grande repercussão no cinema brasileiro do período. No momento do lançamento, o crítico Leon Cakoff (1948-2011) reconhece que a narrativa não se enquadra nos apelos da indústria da pornochanchada, afirmando se tratar de “um filme de estreia bem intencionado em meio a um mercado conturbado e desmantelado pela onda pornográfica”.1
 
O filme é convidado para ser exibido no Lesbian Gay Festival, em São Francisco, Estados Unidos. Porém, sem a autorização da Embrafilme, empresa de fomento ao cinema nacional da época, a exibição não acontece. Adélia reconhece que Amor Maldito, apesar de ter bastante repercussão, é preterido pela crítica e historiografia do cinema.

Apenas em 2001, ao lado do jornalista Paulo Markun (1952), volta a dirigir um longa, o documentário AI-05 - O Dia Que Não Existiu, que trata da crise política que motiva o decreto do ato institucional em 1968 que, entre outras medidas, determina o fechamento do Congresso Nacional e autoriza o presidente a decretar estado de sítio por tempo indeterminado. 

No início da década de 2010, trabalha como assistente de direção no teatro, ao lado do ator e diretor Miguel Falabella (1956). Um tempo depois é convidada a participar da criação da Mostra Competitiva de Cinema Negro Adélia Sampaio, evento organizado pela pesquisadora e documentarista Edileuza Penha de Souza, responsável por retomar o nome e visibilizar a carreira de Adélia Sampaio em sua tese de doutorado Cinema na Panela de Barro: mulheres negras, narrativas de amor, afeto e identidade, defendida em 2013.

Em entrevistas realizadas após 2013, a cineasta reconhece que a dificuldade em realizar e exibir seus filmes se relaciona à estrutura elitista, sexista e racista presente no ambiente cinematográfico brasileiro. Além da valorização de seu trabalho, Adélia também luta para recuperar os originais da sua obra guardados no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-Rio), mas que foram perdidos. 
 
Em 2018, lança o curta O Mundo de Dentro, que trata da reflexão de uma mulher da geração da década de 1960, que se interroga. A diretora comenta sobre a facilidade nessa realização com o uso da tecnologia digital, em comparação aos filmes gravados nos anos 1970. No lançamento, ela atribui a autoria do curta também a um homem negro, o diretor de fotografia Paulo Cesar Mauro, afirmando uma resistência na intencionalidade de trabalhar com pessoas negras em suas equipes de produção. Mesmo atuando em diversas funções em mais de 70 produções, ainda não consegue dirigir seu segundo longa de ficção, A Barca das Visitantes, planejado desde o lançamento do primeiro. A narrativa do longa se passaria durante a ditadura civil-militar no Brasil.

Diversa e distribuída ao longo de décadas do cinema nacional, a obra de Adélia Sampaio apresenta reflexões sobre diferentes aspectos da sociedade brasileira. Apesar do pouco reconhecimento, sua figura é recuperada em festivais, premiações e debates de cineastas e pesquisadoras negras.

Notas
1. CAKOFF, Leon. Antologia de sexo com culpa. Folha de S.Paulo,  São Paulo, 17 ago. 1984. p. 5

Fontes de pesquisa 6

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