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Teatro

Arnaldo Xavier

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 27.08.2021
1948 Brasil / Paraíba / Campina Grande
2004 Brasil / São Paulo / São Paulo
Arnaldo França Xavier (Campina Grande, Paraíba, 1948 – São Paulo, São Paulo, 2004). Escritor, poeta e teatrólogo. A aproximação de sua produção literária à corrente de poesia concreta, de modo a ressignificá-la pelo experimentalismo linguístico assumido em suas publicações e manifestos, são algumas das características mais importantes de sua obr...

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Arnaldo França Xavier (Campina Grande, Paraíba, 1948 – São Paulo, São Paulo, 2004). Escritor, poeta e teatrólogo. A aproximação de sua produção literária à corrente de poesia concreta, de modo a ressignificá-la pelo experimentalismo linguístico assumido em suas publicações e manifestos, são algumas das características mais importantes de sua obra. Ativista do movimento negro brasileiro,  consolida seu trabalho poético-visual de contínuo questionamento sobre as relações sociais brasileiras e as tensões raciais que conformam o país. 

Ainda jovem, migra para São Paulo, cidade que propicia o desenvolvimento de sua carreira. No início da década de 1960, publica pela Editora Civilização Brasileira seus primeiros textos de poesia na coletânea Violão de Rua, organizada pelo Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional de Estudantes (UNE). Esse ponto de partida de sua produção literária, visibilizada por um chamamento de arte popular e militante que propõe rupturas com formalismos e cânones artísticos em um momento de tensão social e política da história do país, delineia os rumos seguidos por Xavier em sua trajetória como artista afrocentrado e insurgente. 

Entre as décadas de 1970 e 1990 participa ativamente de diversas publicações, em especial coletâneas de poemas como: o livro Contramão (1978), da Editora Pindahyba, selo criado em 1974 por ele e pelos escritores Roniwalter Jatobá (1949), Aristides Klafke (1953) e Souza Lopes; os números 10, 12 e 13 (1987, 1988 e 1989, respectivamente) dos Cadernos Negros, publicação organizada pelo grupo Quilombhoje; e a antologia O Negro Escrito (1987), com a organização do escritor Oswaldo de Camargo (1936).

Integra o 1º Encontro de Poetas e Ficcionistas Negros Brasileiros, na cidade de São Paulo, em 1985, quando apresenta ao público o icônico ensaio-manifesto Dha lamba à qvizila – a busca de hvma expressão literária negra. Neste texto, Xavier explicita o diálogo que sua produção literária estabelece com pensadores como o martinicano Frantz Fanon (1925-1961), e traz à tona o embate contra o que caracteriza como uma cultura brasileira que, supostamente entendida como nacional e unificadora, serve ao propósito do apagamento de matrizes culturais e epistêmicas negras. O manifesto é publicado no ano seguinte na coletânea Criação Crioula, Nu Elefante Branco (1986), composta de produções literárias apresentadas no evento, sob organização da escritora Miriam Alves (1952), do escritor Luiz Silva Cuti (1951) e do próprio Arnaldo Xavier. Seu texto confronta alguns poetas negros de sua geração, questionando as bases de uma herança modernista europeia que, em sua análise, domina a produção artística brasileira e impõe a artistas e escritores negros e negras certo conformismo, escamoteado sob o desejo de integração que alguns ainda alimentam. A ruptura drástica realizada pelo autor é considerada polêmica no contexto literário em que está inserido, sobretudo porque esse rompimento é simbolica e materialmente representado em sua produção literária, não apenas pela abordagem temática de caráter fortemente afro-brasileiro, mas também pelo uso de uma linguagem inovadora e de produções poético-visuais remetidas à experiência de ser negro no Brasil, como no poema visual sem título que remonta ao ano da abolição da escravidão e à contribuição da Igreja Católica no empreendimento da escravidão. Como no poema “1888”1, em que Xavier utiliza o ano 1888 por 33 vezes para construir uma cruz.

Para o escritor e crítico literário Ronald Augusto (1961), a obra de Arnaldo Xavier se caracteriza pela forte experimentação linguística e por um veio poético original e inventivo, que mescla conteúdo e forma de maneira transgressora, criando novos registros do que se conhece por literatura negra brasileira. Nas próprias palavras de Xavier, uma transnegressão. Ronald Augusto comenta que “O compósito verbal transnegressão, cunhado por ele, tenta dar conta – através da justaposição dos vocábulos (transgressão + negro), ao estilo de montagem cinematográfica – de uma proposta estética interessada em lesar tanto as ideias feitas que orientam nossas filosofias de vida, quanto a imagem de um cânone totalizante, ‘universal’, vantajoso (para quem?), a ponto de poder ser aplicado em qualquer tempo-espaço”.2

Individualmente, Arnaldo Xavier tem importantes publicações que condensam seu fazer poético e literário, sobretudo por meio da linguagem interventiva recheada de neologismos, inversões, inserções e reverência às línguas de origem africana. Os livros A Rosa da Recvsa (1982) e LudLud (1997), ambos publicados pela Pindahyba Edições, sintetizam, em momentos diferentes da trajetória do autor, sua posição sempre combativa perante parte do meio literário que ainda insiste em caracterizá-lo como polêmico e de difícil compreensão. O tom e o sentido de sua escrita quizilista, xangótica, quilombística, exusíaca3 também estão presentes nas produções de poesia-visual que Xavier experimenta, sempre imbuídas pela natureza indagadora das desigualdades e do despertencimento a que está sujeita a população negra no país.

Arnaldo Xavier se inscreve na literatura brasileira como importante precursor de uma poesia concreta atenta à realidade social de seu país, atravessado por grandes injustiças raciais. Sua obra literária, ensaística e visual engajada expressa, em forma e conteúdo, a inquietude de um pensador negro que faz de sua incessante indignação um veio de possibilidades de reescritas de mundo.

Notas

1. Poema visual de Arnaldo Xavier publicado na antologia Schwarze Poesie – Poesia Negra, em 1988, e também na tese de doutorado da filósofa Sueli Carneiro, A construção do outro como não-ser como fundamento do ser, em 2005.

2. In: AUGUSTO, Ronald. O leitor desobediente. Porto Alegre: Figura de Linguagem Editora, 2020. p. 119.

3. “Hum tempo novo exige uma nova linguagem. E que esta Linguagem seja exatamente o sentido )quizilista(, o gesto (xangótico), a sugestão )ebólica(, a careta (quilombística), a escrita )exusíaca(que o corpo do negro aponta de forma própria irreversível.” (XAVIER, 1985, p. 96.) Expressões criadas por Arnaldo Xavier em seu ensaio-manifesto Dha lamba à qvizila – a busca de hvma expressão literária negra, em que o autor sinaliza o desejo de inserir vocábulos ligados à ancestralidade e espiritualidade iorubá em sua produção literária, com a intenção de demarcar novas origens para uma literatura negra brasileira.

Fontes de pesquisa 8

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  • ALVES, Miriam. O Discurso Temerário. In: I Encontro de Poetas e Ficcionistas Negros Brasileiros (org.). Criação Crioula, Nu Elefante Branco. São Paulo: Imesp, 1987.
  • ARNALDO Xavier. In: LITERAFRO. O portal de literatura afro-brasileira. Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2018. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/autores/169-arnaldo-xavier. Acesso em: 11 jun. 2021.
  • AUGUSTO, Ronald. A transnegressão crítica de Ronald Augusto. Poesia-pau [blog], 28 fev. 2021. Disponível em: http://poesia-pau.blogspot.com/2021/02/a-transnegressao-critica-de-ronald.html. Acesso em: 28 fev. 2021.
  • AUGUSTO, Ronald. Axévier, contralamúria. Germina Literatura, ano 3, edição 21. São Paulo, nov./dez. 2006. Disponível em: http://http://www.germinaliteratura.com.br/literaturara_nov2006.htm&gt. Acesso em: 9 jun. 2021.
  • AUGUSTO, Ronald. O leitor desobediente. Porto Alegre: Figura de Linguagem Editora, 2020.
  • CUTI, Luiz Silva. Literatura Negro-brasileira. São Paulo: Selo Negro, 2010.
  • PINHEIRO, Giovanna Soalheiro. Ao leitor a desobediência: a transnegressão crítica de Ronald Augusto. Literafro. O portal de literatura afro-brasileira. Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 18 dez. 2020. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/resenhas/ensaio/1417-ronald-augusto-o-leitor-desobediente. Acesso em: 8 jun. 2021.
  • SOUZA, Luiz Carlos de. “Arnaldo Xavier”. In: Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. v. 2, Consolidação. Eduardo de Assis Duarte (org.). Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

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