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Literatura

Itamar Vieira Junior

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 29.06.2021
1979 Brasil / Bahia / Salvador
Itamar Rangel Vieira Júnior (Salvador, Bahia, 1979). Escritor, geógrafo. Sua ficção apresenta a perspectiva de indivíduos socialmente marginalizados, vítimas de violências estruturais como o racismo e o machismo. Seu estilo é tributário do modernismo, especialmente da chamada geração de 30, com a presença de elementos considerados fantásticos, m...

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Itamar Rangel Vieira Júnior (Salvador, Bahia, 1979). Escritor, geógrafo. Sua ficção apresenta a perspectiva de indivíduos socialmente marginalizados, vítimas de violências estruturais como o racismo e o machismo. Seu estilo é tributário do modernismo, especialmente da chamada geração de 30, com a presença de elementos considerados fantásticos, mas que fazem parte da cosmovisão religiosa de seus personagens. Nos artigos de não ficção, Itamar aborda questões fundiárias e identitárias da formação agrária nordestina.

Aos 16 anos, escreve 80 páginas de um romance chamado Torto Arado. Em uma mudança, Itamar perde a única cópia do datiloscrito original, que tem o título retirado de um verso de “Marília de Dirceu”, do poeta português Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810).

Gradua-se em geografia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 2004. Em sua monografia de conclusão de curso, pesquisa características da expansão da cidade de Salvador. Em 2006, torna-se servidor público no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), onde desenvolve atividades no Serviço de Regularização de Territórios Quilombolas.

Conclui o mestrado em geografia pela UFBA em 2007, com a dissertação A Valorização Imobiliária Empreendida pelo Estado e Mercado Formal de Imóveis em Salvador: Analisando a Avenida Paralela.

Publica seu primeiro livro de ficção, Dias, em 2012, após vencer o 11º Prêmio Arte e Cultura. A solidão e os efeitos subjetivos da passagem do tempo são elementos que dão unidade aos contos. Entre os personagens solitários que se debatem com suas memórias estão um militar em seus últimos momentos dentro de um submarino que afunda e uma mãe que relembra seu filho desaparecido. 

Em 2013, Itamar inicia o doutorado em Estudos Étnicos e Africanos também pela UFBA. Sua pesquisa de campo na comunidade quilombola de luna, localizada em Lençóis, na Chapada Diamantina (BA), é concluída em 2017 com a tese: “Trabalhar É Tá na Luta”: Vida, Morada e Movimento entre o Povo da Iuna. A convivência prolongada com o povo da luna, a participação em seus rituais e a realização de entrevistas gravadas com trabalhadores rurais se refletem na linguagem, nos temas e nas imagens de suas subsequentes obras ficcionais.

Seu livro de contos A Oração do Carrasco é publicado em 2017, depois de ser contemplado pelo edital de Literatura da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb) no ano anterior. A obra é composta de narrativas não lineares, como a história de Alma, narradora-protagonista que dá nome ao primeiro dos sete contos do livro. Alma é uma mulher que se liberta da escravidão depois de envenenar seu senhores. A linguagem é rica em adjetivação, e a narrativa acompanha o fluxo de consciência da protagonista em sua fuga, oscilando entre a memória de violências passadas e o desejo de uma liberdade possível.

O conto "Doramar ou A Odisseia" é narrado pela voz de Doramar e estabelece um paralelo urbano e contemporâneo com Alma. Doramar é uma trabalhadora doméstica que, em monólogos internos, lembra-se de eventos de sua infância e juventude, enquanto sente em seu corpo a exaustão do trabalho repetitivo.

A experiência de campo leva Itamar a retomar o projeto incompleto de sua adolescência. Seu primeiro romance, Torto Arado, é lançado em 2019, primeiramente em Lisboa, após vencer o Prêmio LeYa de literatura lusófona. Em 2020, o romance recebe também os prêmios Jabuti e Oceanos de Literatura.

Nesse romance, as marcas temporais são raras e sutis, como um modelo de automóvel e a alusão a leis de regulamentação fundiária, existentes apenas após a Constituição de 1988.  Segundo o autor, a indefinição temporal é um recurso para ressaltar a permanência de desigualdades históricas, heranças de uma sociedade patriarcal e escravocrata.

O enredo apresenta a genealogia familiar de uma comunidade afrodescendente que vive no sertão da Bahia em condições análogas à escravidão. Em troca de seu trabalho, essas pessoas recebem apenas o direito de construir moradias provisórias na fazenda Água Negra. Perpassam as narrativas privações de direitos como o alto índice de mortalidade infantil e de analfabetismo, a ausência de hospital na comunidade e a dificuldade de acesso a medicamentos.

O romance é polifônico, dividido entre três narradoras. A primeira é Bibiana, que narra um grave acidente doméstico. Bibiana e sua irmã Belonísia cortam suas línguas com a faca da avó, movidas pela curiosidade quanto ao gosto do metal brilhante. Após o acidente, Belonísia perde a capacidade de articular a fala, inspirando a solidariedade da irmã, que se torna sua intérprete. A segunda narradora é Belonísia, que permanece em Água Negra trabalhando na terra depois que Bibiana, grávida, foge para estudar e se tornar professora.

A narradora da terceira parte é Santa Rita Pescadeira, uma entidade da religião de matriz africana Jarê, cultuada no local. A entidade encarna a memória coletiva daquela comunidade de tradição oral. Santa Rita Pescadeira se apossa do corpo das irmãs com o objetivo de matar o proprietário das terras.

Em 2021, Itamar publica Doramar ou a Odisseia, livro composto de 11 contos, alguns inéditos, outros constantes de seus livros anteriores.

A obra de Itamar Vieira Junior une de forma poética seus estudos sobre território, memória e comunidades quilombolas, e sua ficção encontra-se diretamente com a realidade de grande parte do interior do Brasil.

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